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segunda-feira, 27 de março de 2017

O Pratinha não morreu!


Wilalba F. Souza                                    24/Mar/2017


- É, fiquei sabendo “agurinha”, através de um amigo, lá mesmo perto de casa, confirmou o Gomes, tenente da reserva do Corpo de Bombeiros, pessoa chegada a nós. Sinceramente, não acreditei, e, num lampejo de memória me transportei lá pros anos sessenta, quando era jogador infanto-juvenil do Olimpic Club Barbacena, que mantinha várias categorias e até equipe profissional.

Tempos de sonhos aqueles, quando não havia estas modernidades de hoje, que afugentam a juventude dos esportes. Pratinha pertencente a uma família de longevos, seu pai, o velho “Seu Prata”, viveu até os cem anos, e seus filhos estão por aí até hoje, dentre eles o reformado da PM, Barracão, o mais velho deles.

Bem, mas voltando ao futebol, digo que a primeira vez que vi o Pratinha, do Andaraí, o melhor time da categoria de Barbacena e região, foi num jogo realizado no nosso campo, quando eu, razoável ponta direita, com 16 anos, fiquei no banco, pois ia disputar a partida o pessoal do time juvenil, mas me relacionaram. Levamos o maior “baile” e perdemos de 10 X 0. Uma balaiada.

O nosso lateral, um rapaz esforçado, “caçou”, literalmente, o Pratinha o tempo todo e deve estar fazendo isto até hoje! O pontinha Andaraiense era rápido demais, em dias que todo mundo queria ser “Garrincha”, um dos maiores craques do futebol brasileiro. Pouco depois, aquele timaço do Andaraí foi semi-profissionalizado. 

Putz, lamento eu...  o Pratinha morreu. Desagradável!!!
 – Vamos procurar mais informações!
 Todo mundo se lança aos telefones... bem, para minha sorte, nunca mais joguei contra o Pratinha. Mudei de cidade, por motivos profissionais e fiquei muitos anos sem ver aquele rapaz, com quem tive pouquíssimos contatos, até que retornei para Barbacena, há uns vinte e cinco anos.

A partir daí era comum nos cumprimentarmos:
 - Oi Prata, tudo bem?
– Jóia, respondia, sem mais delongas, indo em frente, com sua corrida diária. Ele que se transformara num corredor de rua, às vezes participando de competições pela região e até em São Paulo ou Belo Horizonte. Apesar da idade, devia ter mais de setenta anos, não era incomum vê-lo pelas ruas com seu corpo esguio, enxuto, de aparentemente saudável atleta, com rosto de garoto.

Informações a respeito ninguém conseguia, até que um dos presentes teve a idéia: 
          - Liga pro Flisch, companheiro nosso, ele sabe de tudo!
 – Sabe nada, ponderei eu. Mas liga pra casa dele!
 -Alô, Flisch, estão falando que o Pratinha morreu, o que você sabe?
 – Ah, é mesmo, disse:,  - Foi enterrado ontem, ouvi pela rádio, seu nome, Geraldo Prata Santana, encerrou!
É, infelizmente, lamentamos todos, principalmente pela simpatia e cordialidade que Pratinha dedicava aos conhecidos e amigos.
– E eu que podia ter ido prestar uma homenagem à família, lamentou alguém por não ter sido informado.

De noite comuniquei o fato com minha mulher, muito amiga e colega de academia de ginástica da esposa dele. Ela também lamentou e combinamos ir à missa de sétimo dia.
– Pelo menos isto, pois quero dar uma abraço nos seus irmãos, filhos e demais familiares, completei!

Hoje cedo, ao sair de casa, deixei minha mulher tratando de alguns assuntos com uma vizinha. E devia ser algo importante, pois gritou-me ela:

         - Desliga a panela, por favor! Assim fiz. Em seguida peguei o carro e fui pro trabalho pensando em fazer uma homenagem singela ao admirado e velho amigo que morrera repentinamente. Sentei-me à mesa, e logo ouvi aquele sonzinho telefônico do watssapp. Abri a mensagem da minha mulher e lá surge o texto curto e grosso: “Não foi o Pratinha que morreu, foi seu irmão mais novo, Geraldo! Ele é o Joaquim!!!

quarta-feira, 8 de março de 2017

A Verdade às Vezes Incomoda



Wilalba F. Souza                                                       08/03/2017

Sempre digo que Deus, pela vida afora, me protegeu, eis que, aos dezenove anos, consegui ser bem encaminhado para uma carreira na Polícia Militar. Eu, estudando em escolas públicas – à época de boa qualidade –, afirmo que fui feliz, porque tenho e tive boa compreensão de onde vim e até onde podia chegar. E valorizo, pois acompanho, desde a infância, dos anos cinqüenta, sessenta e setenta, a evolução da valorosa PMMG, quando já ocupava o vasto Estado de Minas Gerais, sem mínimas condições de assistência social e econômica, em tempos de dependência dos coletores fiscais dos municípios.

Passados muitos e muitos anos, a nossa classe conseguiu progressos, decorrentes de trabalho incansável, por seus integrantes, e o reconhecimento da administração pública, numa labuta de mais de dois séculos. Hoje temos um salário razoável e um sistema de saúde de boa qualidade. Mesmo na reserva, contribuímos para nossos IPSM – Instituto de Previdência dos Servidores Militares de Minas Gerais (PM e Bombeiros). Infelizmente as novas gerações dos militares mineiros, talvez por falta de inclusão, nas grades curriculares de sua formação profissional, desconhecem a história da Corporação de Tiradentes. Será que eles acham terem nossas instituições já nascido assim, com um certo grau de evolução sócio-econômico-cultural?

Sem querer generalizar, pelo que observamos em seus comportamentos, os jovens policiais, e bombeiros militares, chegam aos quartéis como aqueles atletas neófitos na Seleção Brasileira de Futebol que, no avião, na primeira viagem, sentavam-se, logo, nas janelas. Logo, logo, chegava o veterano Romário, campeoníssimo mundial, e os repreendia: - Ei garotos, vão pro seu lugar! Cês tão chegando agora!  E a coisa tem sido assim. O primeiro campeonato mundial do Brasil foi em 1958, com Pelé, Zagalo, Didi e uma turma de peso! Essa “molecada” nem deve saber disso. Na PM/BM é a mesma coisa: vão lá saber que Juscelino Kubitschek foi coronel; que João Guimarães Rosa foi capitão?

“Sim, fui médico, rebelde, soldado. Foram etapas importantes de minha vida, e, a rigor, esta sucessão constitui um paradoxo. Como médico, conheci o valor místico do sofrimento; como rebelde, o valor da consciência, como soldado o valor da possibilidade da morte...” (Grande Sertão – Veredas – G. Rosa). Juscelino, quando deixou o governo de Minas, na década de cinquenta, – logo iria se eleger presidente – vestiu seu uniforme de oficial superior e se apresentou ao Comando Geral da Corporação, em Belo Horizonte. Ele mesmo, o construtor de Brasília, sempre que perguntado como resolvia os problemas de Minas, aconselhava aos seus sucessores: - Chamem a Polícia Militar!!!

Ainda, infelizmente, temos visto que nossos garotos, nossos jovens, não conhecem a história de seu país, de seus estados e, muito menos, sobre o desenvolvimento das entidades que eles abraçam profissionalmente. Isto é péssimo. Aliás, no nosso caso, ainda tem gente que considera a atividade um mero emprego; o juramento solene de defender a sociedade, com o sacrifício da própria vida, uma simples frase de efeito, tornando o “holerite” o principal objetivo de sua causa. Insisto afirmar que não quero generalizar, mas é o que se observa como parte da degeneração cultural brasileira, mostrada aos montes pela mídia, via classe dirigente, preocupada mais em “faturar”: “Farinha pouca, meu mingau primeiro”, praticam eles. Isto não nos interessa!