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segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

Caneta azul


Wilalba F. Souza                                                 20/Jan/20

“Caneta azul, azul caneta, caneta azul tá marcada com minha letra”: é como se inicia a letra de uma música composta por um vigilante nordestino, Manoel Gomes, pessoa simples, que disse ter mais de vinte mil, de sua autoria. Um fenômeno, mesmo que de efêmero sucesso, de uns dois meses atrás, já esquecido. E assim é a vida. E o tempo, mais ou menos duradouro, faz pouca diferença. Fica tudo registrado, por aí.
Lembro bem de algumas cartas, ou modelos delas, no meu tempo de estudante: “pego nesta pena e lhe escrevo...”. E, realmente, em tempos de antanho, se escrevia com penas de aves, antes mergulhando-as em tintas. Depois inventaram uma ponta de metal, chapeada, entalhada no meio, por onde escorria a tinta, após mergulhada no tinteiro. Isto é o que me lembro. Aliás, eu, como estudante, usava mais o lápis grafitado. A tal caneta, de “pena” e recarregável, fui conhecer muito depois, no segundo grau (ginasial).
Nos quartéis existiam militares – amanuenses – escolhidos para aporem os registros nos grossos livros da “sargenteação”. Até a década de 50, do século passado, isto ainda era comum, até que foram aparecendo as máquinas de escrever, hoje enterradas. Um bom escrevente, ou escrivão, era obrigado a ter um mata-borrão entre seus apetrechos. Sem ele, era impossível trabalhar. Isto me fez lembrar um velho comandante que declarou: - não consigo trabalhar sem caneta, telefone e grampeador!
Pelo que me lembro, lá pela década de 60 é que começaram a chegar as utilíssimas esferográficas, que aposentaram as canetas recarregáveis, de pena. Se caíssem de ponta, era seu fim. Amassou, acabou. E não eram muito baratas. Realmente as esferográficas, tipo Bic, usadas hoje, preferencialmente, pelo presidente Bolsonaro, revolucionaram a maneira de trabalhar a escrita, embora, o advento dos teclados dos computadores, dos notebooks e celulares diminuam, em muitos setores, sua utilização. Com, pelo menos, um agravante, a moçada está ficando com a caligrafia muito estranha. Ilegível, até.
Mas, não me esqueço que, em meados do século passado, todo homem de sucesso tinha que andar com uma caneta, enfiada no bolso da camisa. De cor prateada, preta ou dourada. Era demonstração de cultura, certo status e até mesmo elegância. Muitas dessas “joias” eram cobiçadas. Havia muitas marcas. E de alguma maneira deixaram saudade, para nossos pais, tios e amigos. E não tem como esquecer as famosíssimas “Parker 51”, famosas e desejadas, bem elaboradas, nunca ouvi música em seu louvor, pois tenho certeza que o Manoel se referiu à popular esferográfica! Muito justo.

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Soltem o Zé

Wilalba F. Souza                               14/Jan/2020

Não sei se o Zé Maria, colega e amigo de longa data, se perdeu ou fugiu. E, sem querer fazer blagué com a situação – pois seu estado de saúde exige muitos cuidados e vigilância (Alzheimer), me coloquei, hipoteticamente, no seu lugar, imaginando um passeio pela cidade, após longo período de recolhimento obrigatório.
Não entendi bem o histórico de seu momentâneo desaparecimento, de conformidade com os relatos das redes sociais: saíra para comprar pão, ou aproveitara que a porta da rua estava aberta e “se mandou”. Presumo ter ele se divertido à beça, pelo menos até se descobrir perdido num lugar estranho.
Coincidentemente, sábado passado, pela manhã, percorri a rua Platina, na extensão do muro do complexo APM (Academia da Polícia Militar), RCM (Regimento de Cavalaria de Minas) e das antigas instalações do BPChoque, no velho e tradicional bairro do Prado, de Belo Horizonte, para comprar um boné da PRE (Polícia Rodoviária Estadual), a pedido do tenente Meneghin, meu filho.
Na minha idade, revivi saudades. Passei em frente a antiga instalação do Colégio Tiradentes da PMMG, tentando entrar no seu portão (estava murado) que nos deixasse ver os garotos fardados com túnica branca e quepes azuis, fazendo ordem unida com as antigas “Winchester” americanas, apreendidas e usadas em diversos movimentos revolucionários, nos combates da PMMG (Força Pública Estadual), no início do século XX.
A seguir, me decepcionei por não ter encontrado o Bar do “seu” Abílio, simpático senhor que fornecia lanches pros cadetes do Curso de Formação de Oficiais, para pagamento futuro. Levou muito calote! O Cézar Bochecha, outro amigão, foi apaixonado por uma  de suas lindas filhas.
Cruzei a “Pedro Jorge”, e me decepcionei mais ainda. Sumiram com a velha casa da “Republica dos 14 Mais”, onde eu e mais treze colegas moramos por três longos anos. Esperava encontrar lá, “filando” banho e usando o roupão do Zé Maria da Luz, o Vicentino Egídio, que não era contribuinte, ou morador, mas adorava uma “boca livre”!
Ao regressar para o Hotel de Trânsito do COPM, ainda a pé, fiquei danado da vida: não passou, ao menos, um bonde Gameleira. “Fizeram o favor” de cobrir, com asfalto, as linhas que o levavam e traziam do centro da capital.
Estou curioso para saber o que o Zé viu. Ele que foi localizado e resgatado, longe de sua casa. Um alívio para todos nós. Qualquer hora dessas vou visitá-lo. Vamos “trocar” umas ideias. Vai ser legal. Darei um forte abraço no “Kid Light”. E que Deus nos proteja, a todos.