Manobra em Água Limpa...
Wilalba F. Souza 24/02/2023
Se
perguntarem quando foi, eu não me lembro. Minha memória hospedou-se nos duros
momentos em que, a certa altura, estávamos numa região acidentada, atingida por
erosões. Apesar de pertencermos a diversos GC (grupos de combate), por uns
momentos nos misturamos, quando forte tormenta nos atingiu, deixando expostos à
chuva e ao frio. Havia uns pedaços de plástico, que de nada adiantaram. Os mais
prevenidos - poucos - tinham capa de proteção, que dividiam, sem resultado
prático. Como eu já disse, houve até choro do Waltinho Nazareth, saudoso
colega, de boas recordações.
Antes
disso, numa progressão extenuante, morro acima, o Raulão caíra numa perambeira
e começou a gritar. Eu o socorri, estendendo-lhe o fuzil. Fiquei todo
"cheio", pela atuação "quase heroica", mas, depois de outra
correria louca, me vi, solto no ar, numa queda interminável, até me estatelar
no fundo de um buraco. Sorte ao não me machucar, pois o fuzil, pesadão, caiu ao
lado. Aí o Raulão me devolveu o favor... Deus estava conosco!
Depois
da chuva, reorganizado o pelotão, e seguindo instruções, cada grupo teria que
se deslocar, em patrulha, até uma certa “Z Reu” (zona de reunião) a ser
ocupada. Eu e os demais integrantes da fração não tínhamos a mínima ideia de
onde estaria esse objetivo. Já era tardinha, quase escurecendo, e alguém teria
dito que seria uma marcha com duração de duas horas, no máximo. O aluno/cadete Pinto, que nos comandava, fez
as recomendações de praxe, demonstrando visível insegurança. Mas, fazer o quê?
Fomos em frente, de acordo com o manual: formação em linha. Lembro-me que lá estávamos
eu, o Vicentino, o Eugênio Patão e outros, cuja memória não me ajuda relembrar.
Depois de uns dez minutos, em deslocamento, escutei alguém alertar:
- Eugênio (Patão), mantenha a
formação, você está prejudicando o grupo!
Depois,
só silêncio.
E,
lá continuamos nós, progredindo no terreno e superando as dificuldades da
missão, sempre com o aluno/cadete Pinto chamando atenção do mesmo colega:
- Eugénio, já te anotei três
vezes, veja se mantem a formação!
Umas três
horas depois, a tropa cansada (e perdida), o comandante acabou por, inadvertidamente,
fazer todo mundo rir, pois, dirigindo-se, como sempre, sou seu
"subordinado predileto", decretou:
-
Eugênio, eu já te anotei dezenas, centenas, milhares, milhões de vezes e você
não reage!
E
o Eugênio continuava impassívelmente surdo e mudo!
Aí,
pra corroborar, aproveitando a "deixa", a abertura, o Vicentino se adiantou e pediu:
- "Seu" aluno, tá todo mundo
cansado, com sede e fome. Tenho uma rapadura aqui, vamos sentar, descansar um
pouco, e a gente segue depois!
-Nada
disso, vosciferou o comandante Pinto! Temos que alcançar a “Z reu”,
decretou.
Enfim,
apesar disso, e diante de outras ponderações, ele concordou com o
"pit-stop", regado a água... e rapadura.
Mas
o cansaço era grande. Dia inteiro, naquele batido, além de muita exigência
física. Aí o Vicentino, com um "papo liso", sugeriu ao comandante:
-"Seu" aluno estamos muito cansados,
no escuro e cansados. Ninguém aguenta! Vamos dormir um pouco, umas duas, três
horas e, recuperados, a gente prossegue!
-
Vicentino, isto não podemos fazer, retrucou o chefe.
- Cada um
"vigia" meia hora e, no fim, tudo dá certo! Eu fico de plantão
primeiro, e vou passando a missão pros colegas, insistiu
Vicentino!
Sem saída,
o aluno/cadete Pinto (Antônio Pinto de Souza) concordou. De minha parte, soltei
a cabeça de lado, e, num encosto qualquer, dormi, como dormimos todos.
Acordei,
ou melhor, acordou, o grupo, debaixo de um sol quente, ouvindo a gritaria do
Pinto, dirigida ao Vicentino que, irresponsavelmente, "desmaiara", sem acordar seu
substituto! Então, todo mundo de pé, noite mal dormida, viveu esses momentos de
sofrida diversão, confirmando sua situação de perdido...
Enfim,
depois de horas, uma patrulha nos encontrou. Tínhamos nos desviado do
itinerário e os instrutores, ao invés de nos repreender, ficaram mais que
aliviados. O exercício e a instrução já tinham sido encerrados, havia muito
tempo, e mal tivemos tempo pra juntar o equipamento e retornar pra Escola.
Bons
tempos!