Wilalba
F. Souza
17/10/2025
Os
Vales do Rio Doce (este primeiro), Mucuri e Jequitinhonha foram, literalmente,
mesmo que "aos trancos e barrancos", desbravados pela Polícia Militar
de Minas Gerais. Muito sacrifício para sua sofrida tropa, e familiares,
empenhada nos mais longínquos povoados, sem qualquer segurança, ou garantia,
até mesmo para recebimento dos seus parcos vencimentos. Governador Valadares,
jovem município, emancipado em 1.938, devido à sua localização geográfica
(entroncamento da Rio/Bahia com a Ferrovia Vitória-Minas), se transformava, em
meados do século passado, num importante polo regional, experimentando
crescimento econômico vertiginoso, acompanhado de índice criminal na mesma
proporção. Assim, a partir da década de 50, por decisão do governo estadual,
passou a receber maiores investimentos nas atividades de segurança pública.
Em
1952 transferiram o 6° BPM (antigo 6° BI) de Belo Horizonte pra lá. Com ele, um
efetivo de vinte oficiais e trezentas praças, ficando instalado,
provisoriamente, no desconforto dos barracões de madeira do DNER, às margens do
Rio Doce, depois da ponte de São Raimundo. Uma década depois construíram a sede
atual, do Batalhão, no Bairro de Lourdes, e o Fórum, no Centro da Cidade.
Antes,
no finalzinho da década de quarenta, ou no início de 1950, designaram, para a
Delegacia Especial de Polícia da Princesa do Vale, o famoso Coronel Pedro
Ferreira. Era primeiro-tenente, ele que se tornou, ao longo dos anos, uma lenda
viva, ombreado aos intrépidos integrantes do Contingente Policial Militar, no combate
permanente aos criminosos que infernizavam aquele vasto ambiente inóspito,
cheio aventureiros forasteiros, à procura de riquezas, em tempos de Mata
Atlântica preservada e milhares de glebas de terras devolutas, motivos de
disputas ferrenhas.
Os
municípios por onde passavam a rodovia asfaltada e a linha férrea, por motivos
óbvios, prioritariamente receberam, depois de instalado o policiamento, nas
sedes de comarcas, juízes, promotores e cadeias públicas novas. Mediante enorme
esforço, à superação das dificuldades, em muitas localidades o combate à
criminalidade foi mais efetivo, destacando-se Valadares, Conselheiro Pena,
Resplendor, Aimorés, Caratinga, Teófilo Otoni, Itaobim e outras.
Entretanto,
a região de Guanhães sofria todo tipo de carência. Estava fora do eixo
rodoferroviário. Totalmente desprovida de estradas e comunicações, sua Comarca
inerte, inservível, integrada por cidades como Virgolândia, Malacacheta ,
Capelinha e outras menores, não julgava ninguém. Além disso, com efetivo
reduzido, mal conseguiam, as forças da Polícia Militar, manter uma ordem mínima
nas zonas urbanas. Crimes violentos,
mesmo seguidos de prisões - maioria institucionalmente precária - dos autores,
ficavam impunes. As agressões e homicídios contra policiais militares eram
comuns, quase rotina. Nunca havia tempo de apoiá-los ou socorrê-los com
oportunidade. Além da precariedade das vias, a polícia não tinha viaturas.
Por
ocasião das parcas visitas de oficiais, aos destacamentos, encontravam-se
graduados e soldados completamente desinformados de tudo. Aliás, boa parte
deles confessava jamais ter visto um comandante de unidade, tamanha a falta de
meios a mobilizá-los. Uma das muitas consequências: delitos, mormente da zona
rural, ficavam impunes, sem registros e fora das estatísticas.
A
história dos Irmãos Leite se consolidou nesse ambiente bruto, onde o mais forte
impunha a sua vontade, ante a ameaça de outros indivíduos, numa incessante
disputa por terras, dinheiro e poder, exatamente onde o Estado e suas leis não
conseguiram, por anos a fio, se fazer respeitar. E a sanha delituosa, dos
criminosos em foco, ultrapassou fronteiras, principalmente depois de terem
posto fim às vidas de desafetos do porte do deputado Vander Campos e do
fazendeiro Galileu (residia em Valadares). Com recheadas fichas corridas e
antecedentes pouco recheadas fichas corridas e antecedentes pouco
recomendáveis, como diria o Comandante, Coronel Jair Alves Pinheiro, nenhum dos
dois era boa bisca. Este me ordenou - eu, primeiro-tenente e Delegado Especial
de Polícia em Governador Valadares - resgatasse o cadáver do último, crivado de
balas, no mesmo dia de seu assassinato, numa emboscada, no final da década de
setenta, no Aeroporto de Capelinha. Mas
esta é uma outra história...
Assim,
tentando responder, mesmo que com pouca objetividade, alguns questionamentos de
colegas da Corporação, de que, nas narrativas existentes, sobre os "Leite”
e sua trajetória criminosa, pouco ter sido relatado, de modo geral, em relação
às ações decorrentes, da Polícia Militar, permito-me acrescentar observação
pessoal, particularíssima, nesse aspecto:
-
Era usual, naquelas paragens, em tempos bicudos, autoridades policiais
demarcarem os principais territórios sobre sua proteção, junto aos mais
poderosos e potenciais "mandantes, seus jagunços e pistoleiros",
velhos conhecidos até. A cláusula primeira, e única, rezava algo mais ou menos
assim:
-
"COMETAM SEUS CRIMES DAQUI PRA LÁ E, DE MANEIRA ALGUMA, VENHAM PERTURBAR
MINHA REGIÃO, SENÃO O BICHO PEGA".
A
preocupação maior - não exclusiva, claro - era Governador Valadares e um ou
outro munícipio politicamente mais resguardado.
Lembro-me
que isto ocorreu com os Leite (tinham familiares e os visitavam. em Governador
Valadares) e, antes deles, com o famoso Bimbim, também intitulado Coronel
Secuntino Cypriano, nascido em Aimorés (divisa com o Espírito Santo). Até lá
pelos anos cinquenta, sessenta, esse senhor espalhou o terror nos arredores de
sua cidade Natal e no Espírito Santo. A motivação, idêntica à que movia os
Leite: disputa por terras, via extermínio de adversários, mediante contratação,
também, de jagunços e matadores profissionais.
Propala-se que quem o manteve sob controle cerrado foi o Coronel da
PMMG, Pedro Ferreira dos Santos, Delegado Especial, também encarregado das
Capturas, em extensa área sob sua jurisdição. Bimbim seguiu, à risca, a
cartilha do implacável oficial, falecendo, de causas naturais, no ano de 1.964,
na "sua" cidade de Aimorés.



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