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sexta-feira, 17 de outubro de 2025

O "Coronel" Bimbim, os Irmãos Leite e a Polícia Militar de Minas

Wilalba F. Souza                                    17/10/2025

 

Os Vales do Rio Doce (este primeiro), Mucuri e Jequitinhonha foram, literalmente, mesmo que "aos trancos e barrancos", desbravados pela Polícia Militar de Minas Gerais. Muito sacrifício para sua sofrida tropa, e familiares, empenhada nos mais longínquos povoados, sem qualquer segurança, ou garantia, até mesmo para recebimento dos seus parcos vencimentos. Governador Valadares, jovem município, emancipado em 1.938, devido à sua localização geográfica (entroncamento da Rio/Bahia com a Ferrovia Vitória-Minas), se transformava, em meados do século passado, num importante polo regional, experimentando crescimento econômico vertiginoso, acompanhado de índice criminal na mesma proporção. Assim, a partir da década de 50, por decisão do governo estadual, passou a receber maiores investimentos nas atividades de segurança pública.

Em 1952 transferiram o 6° BPM (antigo 6° BI) de Belo Horizonte pra lá. Com ele, um efetivo de vinte oficiais e trezentas praças, ficando instalado, provisoriamente, no desconforto dos barracões de madeira do DNER, às margens do Rio Doce, depois da ponte de São Raimundo. Uma década depois construíram a sede atual, do Batalhão, no Bairro de Lourdes, e o Fórum, no Centro da Cidade.

Antes, no finalzinho da década de quarenta, ou no início de 1950, designaram, para a Delegacia Especial de Polícia da Princesa do Vale, o famoso Coronel Pedro Ferreira. Era primeiro-tenente, ele que se tornou, ao longo dos anos, uma lenda viva, ombreado aos intrépidos integrantes do Contingente Policial Militar, no combate permanente aos criminosos que infernizavam aquele vasto ambiente inóspito, cheio aventureiros forasteiros, à procura de riquezas, em tempos de Mata Atlântica preservada e milhares de glebas de terras devolutas, motivos de disputas ferrenhas.

Os municípios por onde passavam a rodovia asfaltada e a linha férrea, por motivos óbvios, prioritariamente receberam, depois de instalado o policiamento, nas sedes de comarcas, juízes, promotores e cadeias públicas novas. Mediante enorme esforço, à superação das dificuldades, em muitas localidades o combate à criminalidade foi mais efetivo, destacando-se Valadares, Conselheiro Pena, Resplendor, Aimorés, Caratinga, Teófilo Otoni, Itaobim e outras.

Entretanto, a região de Guanhães sofria todo tipo de carência. Estava fora do eixo rodoferroviário. Totalmente desprovida de estradas e comunicações, sua Comarca inerte, inservível, integrada por cidades como Virgolândia, Malacacheta , Capelinha e outras menores, não julgava ninguém. Além disso, com efetivo reduzido, mal conseguiam, as forças da Polícia Militar, manter uma ordem mínima nas zonas urbanas.  Crimes violentos, mesmo seguidos de prisões - maioria institucionalmente precária - dos autores, ficavam impunes. As agressões e homicídios contra policiais militares eram comuns, quase rotina. Nunca havia tempo de apoiá-los ou socorrê-los com oportunidade. Além da precariedade das vias, a polícia não tinha viaturas.

Por ocasião das parcas visitas de oficiais, aos destacamentos, encontravam-se graduados e soldados completamente desinformados de tudo. Aliás, boa parte deles confessava jamais ter visto um comandante de unidade, tamanha a falta de meios a mobilizá-los. Uma das muitas consequências: delitos, mormente da zona rural, ficavam impunes, sem registros e fora das estatísticas.

A história dos Irmãos Leite se consolidou nesse ambiente bruto, onde o mais forte impunha a sua vontade, ante a ameaça de outros indivíduos, numa incessante disputa por terras, dinheiro e poder, exatamente onde o Estado e suas leis não conseguiram, por anos a fio, se fazer respeitar. E a sanha delituosa, dos criminosos em foco, ultrapassou fronteiras, principalmente depois de terem posto fim às vidas de desafetos do porte do deputado Vander Campos e do fazendeiro Galileu (residia em Valadares). Com recheadas fichas corridas e antecedentes pouco recheadas fichas corridas e antecedentes pouco recomendáveis, como diria o Comandante, Coronel Jair Alves Pinheiro, nenhum dos dois era boa bisca. Este me ordenou - eu, primeiro-tenente e Delegado Especial de Polícia em Governador Valadares - resgatasse o cadáver do último, crivado de balas, no mesmo dia de seu assassinato, numa emboscada, no final da década de setenta, no Aeroporto de Capelinha.  Mas esta é uma outra história...

Assim, tentando responder, mesmo que com pouca objetividade, alguns questionamentos de colegas da Corporação, de que, nas narrativas existentes, sobre os "Leite” e sua trajetória criminosa, pouco ter sido relatado, de modo geral, em relação às ações decorrentes, da Polícia Militar, permito-me acrescentar observação pessoal, particularíssima, nesse aspecto:

- Era usual, naquelas paragens, em tempos bicudos, autoridades policiais demarcarem os principais territórios sobre sua proteção, junto aos mais poderosos e potenciais "mandantes, seus jagunços e pistoleiros", velhos conhecidos até. A cláusula primeira, e única, rezava algo mais ou menos assim:

- "COMETAM SEUS CRIMES DAQUI PRA LÁ E, DE MANEIRA ALGUMA, VENHAM PERTURBAR MINHA REGIÃO, SENÃO O BICHO PEGA".

A preocupação maior - não exclusiva, claro - era Governador Valadares e um ou outro munícipio politicamente mais resguardado.

Lembro-me que isto ocorreu com os Leite (tinham familiares e os visitavam. em Governador Valadares) e, antes deles, com o famoso Bimbim, também intitulado Coronel Secuntino Cypriano, nascido em Aimorés (divisa com o Espírito Santo). Até lá pelos anos cinquenta, sessenta, esse senhor espalhou o terror nos arredores de sua cidade Natal e no Espírito Santo. A motivação, idêntica à que movia os Leite: disputa por terras, via extermínio de adversários, mediante contratação, também, de jagunços e matadores profissionais.  Propala-se que quem o manteve sob controle cerrado foi o Coronel da PMMG, Pedro Ferreira dos Santos, Delegado Especial, também encarregado das Capturas, em extensa área sob sua jurisdição. Bimbim seguiu, à risca, a cartilha do implacável oficial, falecendo, de causas naturais, no ano de 1.964, na "sua" cidade de Aimorés.

domingo, 23 de junho de 2024

Galhofa (repost)

Wilalba F. Souza                                             19/02/2018

 

Mais uma vez esse governo central, que ajudou a elaborar a Constituição de 1988, sob a batuta de Ulisses Guimarães, ferrenho parlamentar que povoou o Congresso por muitos anos e morreu num acidente aéreo, há tempos, sem ter a oportunidade de ver o que eles, sim eles, plantaram com seus sonhos de incomensurável grandeza, e cujos resultados estamos sofrendo. E, não que eu seja um defensor de regime de exceção, dirigido por militares, mas, lembro-me bem, esses políticos, que ainda estão por aí e outros que os seguiram, assumiram o destino de um país democrático, com amplas possibilidades. Só que... 

Foi desprezado e não reconhecido, pelos eleitores, o bom trabalho de Itamar Franco e Fernando Henrique que, vitoriosos no combate à inflação, não conseguiram eleger seus sucessores, derrotados que foram pelo líder partidário Luís Inácio, senão o único, um dos principais responsáveis pelas desgraças aí existentes. E, num clima de “oba, oba”, ainda conseguiu convencer o povo a votar em Dilma Rousseff, cujo destino todos acompanharam, por ocasião de sua cassação, tendo assumido em seu lugar o vice-presidente, Michel Temer, do PMDB, aliado histórico dos petistas, sem participar das decisões palacianas. E não é que ele resolveu “consertar” o Brasil!!! 

Recebendo um governo envolto em nuvens escuras, com raios e trovoadas, déficit orçamentário gigantesco, promoveu algumas mudanças, na esperança de equilibrar as contas. Mexeu em lei do trabalho, apoiado pelo Congresso, mas, tendo lá suas fraquezas, e muitas, sofre ataques constantes da, hoje, oposição esquerdista radical, não conseguindo avançar na reforma previdenciária, realmente um objetivo importante à recuperação econômica. Mas, num Brasil coalhado e viciado em populismo isto é difícil. E fica aí o impasse, reforçado pelas mazelas promovidas pelo excessivo dispêndio financeiro na gigantesca estrutura da máquina pública ineficiente!  Nessas reformas não se aborda a situação dos orçamentos do legislativo e do judiciário, por essas plagas brasileiras. Estão livres e soltos, livres, até, de qualquer contribuição que não seja via a previdência geral, já penalizante aos aposentados pelo fator previdenciário, cruel instrumento que, ano a ano, corroi o ganho dos velhinhos e velhinhas. Os mandatários, donos do desperdício, jogarão o fardo nas costas da massa menos favorecida, a trabalhadora, que produz riquezas.

Agora, tendo em vista a intervenção parcial do governo do Rio de Janeiro, tudo pára tudo no Congresso, até que seja examinada a medida provisória exarada pela presidência. Aliás, esse instrumento de governo foi copiado, pelos fervorosos democratas nacionais, dos “cruéis” militares que “inventaram” os atos institucionais”, uma forma de governar com mais autoridade, saltando por cima da Constituição e das leis. Assim, e mais uma vez, os defenestrados militares do Exército são convocados a resolver o problema de segurança pública do quebrado Estado do Rio, de belas e horríveis memórias, onde a população vive, há muito, um clima de guerra e de guerrilha, patrocinada pelos marginais, que as leis e os presídios não conseguem segurar, isolar, resultado da liberação geral daquela Constituição, dita cidadã. Retiraram o poder das polícias, da ostensiva e da judiciária e querem responsabilizá-las pelas bandalheiras cariocas e... nacionais. De gravata, ou sem ela, os bandidos surfam pelas facilidades legais. Legal, não? 

Há muitos anos esses problemas e muitos outros, têm sendo “empurrados com a barriga”, acumulados e jogados pra frente. Estou ouvindo por aí que, “devido a gravidade dos fatos registrados no Rio de Janeiro, durante o carnaval, e com o Exército presente, desta vez vai”. O povão aplaude! - É, vai ser solucionado o problema na cidade maravilhosa, dizem. Interessante! Já vi esse filme antes, e recentemente, pois não é a primeira vez que a força terrestre de guerra é convocada. Isto já se tornou quase que rotineiro e vêm com esse discurso a nos “engalobar”, nos enganar! Também, antigamente o carnaval era uma festa com duração de quatro dias, hoje cobre o ano inteiro. Mesmo com tiro pra todo lado, a festa momesca não pára. Por isto, essa galhofa toda, em cima de nós. Merecemos!

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

Em Alfredo Mucci, quem manda é o IEPHA

 Wilalba F. Souza


Mural antes da reforma
Há muitos anos frequento o 9° BPM / PMMG - Barbacena, onde servi por duas vezes: como tenente e capitão. É, o prédio, um dos marcos de modernidade, ou contemporaneidade, do município, junto com o Colégio Estadual. Tempos de Juscelino e Bias Fortes. Em sua fachada há um mural muito bonito, inspirado em Tiradentes, nosso alferes, protomártir da Independência, coadjuvado por uma torre, ou obelisco, bem alto, encimado por um globo, referência da cidade, especificamente de uma de suas antigas praças.

Sempre pensei, simploriamente, por boataria interna, que se tratava de uma obra de artista nosso, cabo ou sargento. Seria muita pretensão? Certo é que, anos após anos, essa obra de arte vem se desfazendo, ruindo com o tempo, já que as peças, em ladrilho (pastilhas) se descolam. Realmente uma perda inestimável. Recentemente fiquei sabendo que o mural é tombado pelo IEPHA. Ninguém pode tocar nele, sem autorização expressa.

O autor, Alfredo Mucci, artista italiano premiadíssimo, morou por muitos anos no Brasil e deixou, por aqui, inclusive em Belo Horizonte, incontáveis criações, principalmente murais. Mas era, também, pintor. Chegou em Barbacena, a convite, na década de cinquenta, vindo do sul de Minas, e conviveu até com o famoso francês, escritor, artista e monarquista convicto, Georges Bernanos, nome de museu, aliás mal cuidado, perto de onde moro.

Enfim, para reconstituir a obra de Mucci estão trazendo um competente restaurador do Rio Grande do Sul, deixando de lado a ideia (aliás proibida) de usar mão de obra interna!  Valor aproximado do sensível trabalho: R$400.000,00. Do orçamento do IEPHA, lógico!

Se tudo der certo vamos sugerir e convidar, claro que com a aquiescência do Comando, a "Turma do Tiradentes", de 1960, para a festa. Afinal, estávamos aqui, ao vivo e a cores, há sessenta e um anos.


Observações:


Há tempos, dois, ou três anos, publicamos essa crônica, parte de humilde registro histórico da inauguração, em 1960, do atual quartel do 9° BPM/PMMG, sediado em Barbacena.

Naquela oportunidade, comentava-se a possibilidade da recuperação do painel frontal, da edificação, obra do prestigiado artista italiano, Alfredo Mucci. E, para nossa satisfação, e de muitos admiradores da obra, que representa parte a história da PMMG no Estado e no município, concluíram o trabalho.

Restauração finalizada

Para tanto, tiveram que promover reformas estruturais, no entorno da obra artística, destinadas à captação e o escoamento perfeito das águas fluviais, a partir dos telhados e dos alicerces, evitando infiltrações, deteriorações e corrosões decorrentes.

Enfim, sem maior alarde, a administração da Polícia Militar devolveu à sua comunidade, da melhor maneira possível, a fachada original toda restaurada, do "Sentinela da Mantiqueira".

Parabéns aos Comandantes, Cel Terence Pablino Floriano Guimarães, da 13ª RPM, TenCel Ademir Siqueira de Faria, do 9° BPM e equipe, em especial aos 3º Sgt Geovane Artur P. Santana e Cb Mariana de Mendonça, que devolveram o mural, a unidade e à comunidade barbacenense, numa concorrida solenidade na tarde de 20 de fevereiro de 2024.


Seguem-se fotos:


Foi implementado projeto de iluminação ao Mural, deixando-o em maior destaque


Veteranos na solenidade 




Obras em execução

Obras em execução

Inauguração


quinta-feira, 11 de maio de 2023

BQ - Barbacena querida...

 Wilalba F. Souza                         11/05/23 

Em 1963 (eu tinha 15 pra 16 anos) minha família veio pra Barbacena. Fui estudar no Colégio Estadual, de prédio novinho, um luxo pra poucos. Qualidade de ensino excelente, num tempo que professores eram valorizados e tinham status social diferenciado.

Adolescente e curioso, fiz boas amizades e, na Rua XV de novembro, ia com minha "patota", aos sábados à noite, pra ver as "meninas" no "footing" semanal e, quem sabe, arrumar uma namoradinha. Quando tinha uns trocados, parava na lanchonete "Gino's" para comer um misto-quente, acompanhado de uma coca.

Tempos difíceis. Os alunos da EPCAR (Escola Preparatória de Cadetes do Ar) eram liberados, nos fins de semana para dar um passeio. E só podiam andar fardados. Os garotos, de "boa pinta", bem cuidados, muitos deles cariocas, uniformes azuis, bem cortados, impecáveis, nada deixavam para nós, "pés de rato". Então, nada a fazer, senão voltar pra casa conformados, afinal, com aqueles "almofadinhas" era difícil concorrer.

Por outro lado, as moças que namoravam os alunos - futuros cadetes - eram logo taxadas de "cadeteiras", uma forma jocosa de menosprezá-las e desanimá-las pois, terminado aquele segundo grau, iam embora para a AFA (Academia da Força Aérea), em Pirassununga, São Paulo, dificilmente voltando à "terrinha".

Dois, ou três anos depois, fui para BH, fazer o Curso de Oficial da PMMG e, tempos depois, voltei a Barbacena, como segundo tenente. Tudo continuava mais ou menos a mesma coisa. Mas a "estudantada" de outros estabelecimentos, como os alunos da Escola Agrícola (hoje IFET - Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia), integrada por estudantes de várias regiões do Brasil, portanto menos provincianos, começaram a reagir aos "cadetes", disputando, com eles, as garotas, ditas "cadeteiras". E, não poucas vezes, a Rua XV se transformava numa praça de guerra, com briga generalizada, entre grandes grupos dos dois estabelecimentos, exigindo a presença da PM e da PA (Polícia da Aeronáutica).

Certa feita, meu colega, tenente da PM, César Braz Ladeira, estava de Oficial de Dia no 9° BPM, quando foi solicitado por causa de uma dessas contendas. Ele, acionando um motorista com viatura, sem outros meios ou apoio, dirigiu-se para a região do conflito, no centro da cidade, nas imediações do Cine Palace, imaginando o que poderia fazer. Assim que estacionou, viu que os estudantes civis, numerosos, acuavam os militares, também em bom número, dentro de um estabelecimento qualquer. Claro que, com a presença, mesmo que em ínfimo efetivo, da polícia, a turba civil deu uma trégua, iniciando a dispersão.

O tenente César, de forma inusitada, raciocinando rápido, virou-se para os militares, levantou o braço direito e mostrando três dedos da mão, comandou: - ALUNOS, EM FORMA!  Rapidamente, os jovens aspirantes a cadete entraram à sua retaguarda, num grupamento em coluna por três! O segundo comando foi de "ordinário, marche", em deslocamento, disciplinado, até a EPCAR, distante, dali, um quilômetro. No Portão das Armas, já aguardava o 1°ten Aer. Milton Resende de Souza, nosso ex-colega de ginasial do Colégio Estadual.

- Boa noite, César, o que houve?

- Oi Milton! Nada demais, sô! Apenas uns desentendimentos juvenis entre "seus" cadetes e os meninos da Agrícola. Depois mando um relatório pro comando de vocês...

E sobre essa história de BQ - Barbacena querida, fui saber anos depois. Era, e é, como os ex-alunos da EPCAR costumam se referir à cidade. Já cheguei a pensar ser isto uma espécie de blague, ou gozação criada por eles, para se referir à localidade. Mas já revi essa sensação, eis que os próprios "oriundis" já assimilaram a homenagem. E, por fim, não é muito comum vermos alunos da EPCAR transitando fardados pelas ruas.  Podem sair civilmente trajados e, também, não há, mais, brigas na disputa pelas moças. As cadeteiras? Respondo: - não existem mais e os casamentos de oficiais com as barbacenenses são comuns. Então, viva a paz!

sábado, 11 de março de 2023

Ginástica Acrobática

 Wilalba F. Souza                            11/03/2023

 

Todos sabiam que, desde sua adolescência, nosso saudoso colega, Vicentino Egydio da Silva, tinha sido acróbata circense, até ir para PMMG, ele que chegara lá das bandas de Mutum, perto de Manhuaçu, cidade sede do 11° BPM. Seu nome artístico: Robert Douglas. E eu sempre tive boa ligação de amizade com ele, que me ensinou a tomar pinga: dose generosa, segurando a “lagoinha” com o polegar e o indicador, somente, ingerindo o líquido num gole só!  É, o "cara" tinha seu estilo, seus princípios!!!

Lá pelo nosso segundo ano disseram que haveria uma seleção - uma peneirada - para selecionarem a equipe de demonstração acrobática (grupo treinado para fazer evoluções, saltos, rolamentos e pirâmides humanas, em singelas apresentações públicas). Aí o "Vicente" me chamou pra concorrer, eu que era, e sempre fui, de "escadeira dura".

- Eu te ensino, wilalba, se adiantou!

E me convenceu.

Assim, nas folgas, passamos a treinar, acho que com o Jairinho e os dois Lagares, algumas vezes, usando colchões específicos que ficavam disponíveis no ginásio de educação física.

Aprendi apenas a dar uns saltos "peixe", girando sobre o corpo, em rolamento, amortecendo e controlando a queda. Era muito divertido - para nós - jovens, cheios de energia - assimilar os "macetes", a técnica das paradas de mão, dos impulsos e da ginástica, no solo.

Passados uns dias, convocaram os alunos para a tal seleção, evidentemente aqueles que se interessassem, incluindo alunos/cadetes do primeiro ano. Me veem, à mente, o Hermes, cabeça de mamão, e o Valdivino, baixinho, gente boa. O capitão Cícero Ivan Gontijo, nosso admirado e competente instrutor de Educação Física (pouco tempo depois, pediu exclusão da PM, e foi fazer, parece, carreira diplomática em Brasília) coordenava. E havia um, ou dois alunos/cadetes, do terceiro ano, ex-componentes da equipe, participando da comissão examinadora. No último exercício, decisivo, um salto mortal, a partir do trampolim, dei sorte, pois encaixei dois deles, limpos, isto é, sem cair de bunda no chão. Passei na prova! Daí pra frente, selecionados, só me recordo dos colegas Paulino, Vicentino, Lagares e Manoel Victor, além de alguns de turmas mais modernas, dentre os já nominados, imediatamente integrados, permanentemente, à "trupe".

Aquilo nos pareceu - e foi - uma vitória. Na maioria das instruções de Educação Física treinávamos em separado e por equipes.  O pessoal do atletismo, como Orlando Bill e Terra, era cheio de pose, exibindo suas sapatilhas especiais. Nossas notas de Educação Física, abonadas, no valor máximo, representava incentivo e tratamento diferenciado. Viagens? Saramenha (perto de Ouro Preto), Bom Despacho, Manhuaçu. com apresentações, em público, muito aplaudidas. As de BH, por exemplo, nos são inesquecíveis e eram às vezes, transmitidas, diretamente, pela TV Itacolomi.

Enfim, até sermos declarados aspirantes, em 1969, fiquei na equipe. Outros não... e até mesmo o Vicentino se desinteressou. Nossa penúltima viagem foi perto de Diamantina, à simpática Gouveia (terra do alho), onde Paulino contundiu a perna e eu cortei o nariz, depois de me embolar no arco de fogo... e não me esqueço, porque, para ir lá, fomos dispensados do conturbado e derradeiro acampamento curricular, uns dois dias antes de seu encerramento, até a formatura, no final de 1969. Pra "fechar a carreira artística", parece, fomos a Saramenha. Eu ainda de curativo no nariz.

Interessante é que, garoto, quando estudava no Colégio Tiradentes, do coronel Argentino Madeira e da PMMG (60, 61 e 62), ficava boquiaberto com as arrojadas apresentações dos alunos/cadetes "acróbatas", ali mesmo, no pátio do (DI- Departamento de Instrução, hoje APM - Academia de Polícia Militar, do Bairro do Prado). Nunca poderia, naquela meninice, nem de longe, imaginar que, daí a pouco, estaria dando daquelas "cambalhotas", também!

Bons e saudosos tempos, não?

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2023

Coisas da caserna - 1

Manobra em Água Limpa...

Wilalba F. Souza                            24/02/2023

Se perguntarem quando foi, eu não me lembro. Minha memória hospedou-se nos duros momentos em que, a certa altura, estávamos numa região acidentada, atingida por erosões. Apesar de pertencermos a diversos GC (grupos de combate), por uns momentos nos misturamos, quando forte tormenta nos atingiu, deixando expostos à chuva e ao frio. Havia uns pedaços de plástico, que de nada adiantaram. Os mais prevenidos - poucos - tinham capa de proteção, que dividiam, sem resultado prático. Como eu já disse, houve até choro do Waltinho Nazareth, saudoso colega, de boas recordações.

Antes disso, numa progressão extenuante, morro acima, o Raulão caíra numa perambeira e começou a gritar. Eu o socorri, estendendo-lhe o fuzil. Fiquei todo "cheio", pela atuação "quase heroica", mas, depois de outra correria louca, me vi, solto no ar, numa queda interminável, até me estatelar no fundo de um buraco. Sorte ao não me machucar, pois o fuzil, pesadão, caiu ao lado. Aí o Raulão me devolveu o favor... Deus estava conosco!

Depois da chuva, reorganizado o pelotão, e seguindo instruções, cada grupo teria que se deslocar, em patrulha, até uma certa “Z Reu” (zona de reunião) a ser ocupada. Eu e os demais integrantes da fração não tínhamos a mínima ideia de onde estaria esse objetivo. Já era tardinha, quase escurecendo, e alguém teria dito que seria uma marcha com duração de duas horas, no máximo.  O aluno/cadete Pinto, que nos comandava, fez as recomendações de praxe, demonstrando visível insegurança. Mas, fazer o quê? Fomos em frente, de acordo com o manual: formação em linha. Lembro-me que lá estávamos eu, o Vicentino, o Eugênio Patão e outros, cuja memória não me ajuda relembrar. Depois de uns dez minutos, em deslocamento, escutei alguém alertar:

- Eugênio (Patão), mantenha a formação, você está prejudicando o grupo!

Depois, só silêncio.

E, lá continuamos nós, progredindo no terreno e superando as dificuldades da missão, sempre com o aluno/cadete Pinto chamando atenção do mesmo colega:

- Eugénio, já te anotei três vezes, veja se mantem a formação!

Umas três horas depois, a tropa cansada (e perdida), o comandante acabou por, inadvertidamente, fazer todo mundo rir, pois, dirigindo-se, como sempre, sou seu "subordinado predileto", decretou:

- Eugênio, eu já te anotei dezenas, centenas, milhares, milhões de vezes e você não reage!

E o Eugênio continuava impassívelmente surdo e mudo!

Aí, pra corroborar, aproveitando a "deixa", a abertura,  o Vicentino se adiantou e pediu:

 - "Seu" aluno, tá todo mundo cansado, com sede e fome. Tenho uma rapadura aqui, vamos sentar, descansar um pouco, e a gente segue depois!

-Nada disso, vosciferou o comandante Pinto! Temos que alcançar a “Z reu”, decretou.

Enfim, apesar disso, e diante de outras ponderações, ele concordou com o "pit-stop", regado a água... e rapadura.

Mas o cansaço era grande. Dia inteiro, naquele batido, além de muita exigência física. Aí o Vicentino, com um "papo liso", sugeriu ao comandante:

 -"Seu" aluno estamos muito cansados, no escuro e cansados. Ninguém aguenta! Vamos dormir um pouco, umas duas, três horas e, recuperados, a gente prossegue!

- Vicentino, isto não podemos fazer, retrucou o chefe.

- Cada um "vigia" meia hora e, no fim, tudo dá certo! Eu fico de plantão primeiro, e vou passando a missão pros colegas, insistiu

Vicentino!

Sem saída, o aluno/cadete Pinto (Antônio Pinto de Souza) concordou. De minha parte, soltei a cabeça de lado, e, num encosto qualquer, dormi, como dormimos todos.

Acordei, ou melhor, acordou, o grupo, debaixo de um sol quente, ouvindo a gritaria do Pinto, dirigida ao Vicentino que, irresponsavelmente,  "desmaiara", sem acordar seu substituto! Então, todo mundo de pé, noite mal dormida, viveu esses momentos de sofrida diversão, confirmando sua situação de perdido...

Enfim, depois de horas, uma patrulha nos encontrou. Tínhamos nos desviado do itinerário e os instrutores, ao invés de nos repreender, ficaram mais que aliviados. O exercício e a instrução já tinham sido encerrados, havia muito tempo, e mal tivemos tempo pra juntar o equipamento e retornar pra Escola.

Bons tempos!

segunda-feira, 23 de janeiro de 2023

Racismo!

 Wilalba F. Souza                                  23/01/2023 

Em 1963 cheguei, aos dezesseis anos de idade, junto com minha família, a Barbacena.  Achei a cidade meio esquisita, antiga, friorenta e escurecida pela neblina. Fora do eixo e dos climas de Belo Horizonte/Governador Valadares, localidades mais quentes, onde eu vivera antes, razão pela qual ainda não tinha agasalho apropriado.

Lugarzinho gelado, sô! Aí, meu pai, tenente da PM, funcionário público, foi até o Colégio Estadual Professor Soares Ferreira e me matriculou, no segundo, ou terceiro ano ginasial... nem sei!

Sem eira, nem beira, adentrei os portões de um estabelecimento de ensino moderníssimo, aparência antagônica às características da antiga, até histórica, Barbacena.  Obra de Bias Fortes, inspirada em JK. Esses, dois grandes homens, em tempos outros.

Menino, me juntei a meninos e a uma única menina, numa turma do curso ginasial. Logo me aliei a um dentuço, o César "Bochecha”, adolescente sonhador, com quem jogava bola ali no Bairro Pontilhão, no "Campinho do Sanatório", onde, sob liderança de adultos, como Zé Drumont, Hérquinho e Altair, brincávamos, inocentes, um futebol de alegrias, em fins de tardes.

Mas, na sala de aula, havia um outro colega, diferenciado, relativamente famoso nos meios esportivos, craque de futebol do Andaraí, onde já ganhava até um "troco", por fora. De família humilde, numerosa, morava, com os seus pais e irmãos, num enorme casarão velho, onde os casados ocupavam amplos quartos. Religiosos, também praticavam o sincretismo, o candomblé, mantendo um altar, com santos diversos, limpos e bem cuidados... São Jorge em destaque. Não me esqueço: na ida para a escola, tínhamos - eu e Orlando - as mãos agasalhadas pelos bolsos da japona dele, já que eu não tinha uma igual!

Zé Mauro, "pai de santo", cunhado do Orlando, um "baita" cara, cozinheiro e funcionário do manicômio, casado com Lourdes, minha "irmã" também - por fortíssima afinidade - eventualmente me pegava pelos braços e dava seus passes, limpando-me dos "maus olhados"! E eu punha fé. Me fazia bem!

Alguns anos depois, sempre aos domingos, solteiro, tenente da PM, ainda na velha Barbacena, sem rumo e sem prumo, eu ia pra lá. A família continuava no mesmo ritmo. Domingo, a macarronada era farta e servida em baciadas... preparadas por Lourdes, Cleuza e suas outras irmãs. Tinha muita gente. Pinga não faltava, embora muito fiscalizada por "nossa" mãe, D. Ana. Depois, de barriga cheia, muito cheia, me "escornava" num sofá.

Pois é, a casa vivia cheia! Certa vez eu, ali deitado, sonolento, vi uma moça passar. Arregalei os olhos... gostei. Depois da soneca, desci pela rua, apertei a campainha de sua casa e isto deu em casamento.

Meu "irmão" Orlando, moço querido, cheio de apelidos, como Bill, ou Graveto, entrou pela vida comigo, na Polícia Militar, lá em 1966. Fomos pra reserva no posto de coronel. Lamento não ter estado com ele por mais tempo, pois nos deixou, prematuramente, há um ano. Sim, ele muito querido por todos, cheio de outros apelidos, como "Nariz de bruxa" e "Fuzil de Capacete", também escancarava os dentes pra "gozar" nossa cara. Seus filhos, hoje adultos bem encaminhados, me chamam de tio. Tempos bons, de muita saudade.

Finalmente... antes que me questionem sobre o título desta singela crônica, respondo: - É mesmo, pessoal! Vou mantê-lo, por inútil. A família Freitas é composta por gente normal, afrodescendente.