Wilalba F. Souza 23/01/2023
Em
1963 cheguei, aos dezesseis anos de idade, junto com minha família, a
Barbacena. Achei a cidade meio
esquisita, antiga, friorenta e escurecida pela neblina. Fora do eixo e dos
climas de Belo Horizonte/Governador Valadares, localidades mais quentes, onde
eu vivera antes, razão pela qual ainda não tinha agasalho apropriado.
Lugarzinho
gelado, sô! Aí, meu pai, tenente da PM, funcionário público, foi até o Colégio
Estadual Professor Soares Ferreira e me matriculou, no segundo, ou terceiro ano
ginasial... nem sei!
Sem
eira, nem beira, adentrei os portões de um estabelecimento de ensino moderníssimo,
aparência antagônica às características da antiga, até histórica,
Barbacena. Obra de Bias Fortes,
inspirada em JK. Esses, dois grandes homens, em tempos outros.
Menino,
me juntei a meninos e a uma única menina, numa turma do curso ginasial. Logo me
aliei a um dentuço, o César "Bochecha”, adolescente sonhador, com quem
jogava bola ali no Bairro Pontilhão, no "Campinho do Sanatório",
onde, sob liderança de adultos, como Zé Drumont, Hérquinho e Altair, brincávamos,
inocentes, um futebol de alegrias, em fins de tardes.
Mas,
na sala de aula, havia um outro colega, diferenciado, relativamente famoso nos
meios esportivos, craque de futebol do Andaraí, onde já ganhava até um
"troco", por fora. De família humilde, numerosa, morava, com os seus
pais e irmãos, num enorme casarão velho, onde os casados ocupavam amplos
quartos. Religiosos, também praticavam o sincretismo, o candomblé, mantendo um
altar, com santos diversos, limpos e bem cuidados... São Jorge em destaque. Não
me esqueço: na ida para a escola, tínhamos - eu e Orlando - as mãos agasalhadas
pelos bolsos da japona dele, já que eu não tinha uma igual!
Zé
Mauro, "pai de santo", cunhado do Orlando, um "baita" cara,
cozinheiro e funcionário do manicômio, casado com Lourdes, minha
"irmã" também - por fortíssima afinidade - eventualmente me pegava
pelos braços e dava seus passes, limpando-me dos "maus olhados"! E eu
punha fé. Me fazia bem!
Alguns
anos depois, sempre aos domingos, solteiro, tenente da PM, ainda na velha
Barbacena, sem rumo e sem prumo, eu ia pra lá. A família continuava no mesmo
ritmo. Domingo, a macarronada era farta e servida em baciadas... preparadas por
Lourdes, Cleuza e suas outras irmãs. Tinha muita gente. Pinga não faltava, embora
muito fiscalizada por "nossa" mãe, D. Ana. Depois, de barriga cheia,
muito cheia, me "escornava" num sofá.
Pois
é, a casa vivia cheia! Certa vez eu, ali deitado, sonolento, vi uma moça
passar. Arregalei os olhos... gostei. Depois da soneca, desci pela rua, apertei
a campainha de sua casa e isto deu em casamento.
Meu
"irmão" Orlando, moço querido, cheio de apelidos, como Bill, ou
Graveto, entrou pela vida comigo, na Polícia Militar, lá em 1966. Fomos pra reserva
no posto de coronel. Lamento não ter estado com ele por mais tempo, pois nos
deixou, prematuramente, há um ano. Sim, ele muito querido por todos, cheio de
outros apelidos, como "Nariz de bruxa" e "Fuzil de Capacete",
também escancarava os dentes pra "gozar" nossa cara. Seus filhos,
hoje adultos bem encaminhados, me chamam de tio. Tempos bons, de muita saudade.
Finalmente...
antes que me questionem sobre o título desta singela crônica, respondo: - É
mesmo, pessoal! Vou mantê-lo, por inútil. A família Freitas é composta por
gente normal, afrodescendente.
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