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terça-feira, 17 de outubro de 2017

Coronel Francisco Pereira Xavier



Wilalba F. Souza                               16/Out/2017

(Escrevi este texto em outubro de 2010, ano do falecimento do meu pai, capitão da PM Alceu de Souza, em cujos funerais meu admirado coronel Xavier se fez presente, oportunidade em que conversamos e nos vimos pela última vez, eis que, lamentavelmente, ele faleceu no final da semana passada. O considero o maior destaque, entre todos os comandantes que passaram pelo 6º BPM, do “Pagode Chinês”)

Conheci o coronel Xavier, na condição de aluno do Curso de Formação de Oficiais, lá pelo ano de 1.968, sendo ele comandante do 11º BPM, sediado em Manhuaçú, unidade precariamente instalada em um galpão esquisito, perto da linha férrea, enquanto se construía a sua sede nova, às margens da rodovia. Os alunos, integrantes das equipes de ginástica acrobática e futebol do Departamento de Instrução (hoje Academia da Polícia Militar-APM) haviam sido convocados para missão especial de reaproximação com a comunidade local, já que, durante uma exposição interna patrocinada pela PMMG, uma metralhadora teria sido acionada acidentalmente e vitimado várias pessoas, mormente estudantes e, segundo se propalava, ferido uma delas fatalmente. A repercussão foi terrível e alguma coisa, de fato, tinha que ser feita. Assim, a delegação de alunos, depois de participar de eventos esportivos e demonstração de ginástica acrobática, ainda fez par com debutantes, em agradável baile tradicional da cidade. O major Xavier e seus quase dois metros de altura impunham, naturalmente, grande respeito em quem o rodeava. Muito articulado, nos recebeu com muita cortesia, deixando impressionada nossa jovem e neófita comitiva, ainda que decepcionada com a total falta de estrutura e conforto da tropa que ele comandava. Fui reencontrá-lo, um ou dois anos depois, já segundo tenente, durante um torneio de futebol entre oficiais dos 6º e 11º BPM, este já de casa novinha. Gritava, durante o jogo, para seus, nem tanto, atletas: - Hoje é vencer, ou vencer!!!  Seu time perdeu! O resultado da partida, pra ele, era o que menos importava, percebia eu.

Pouco tempo depois Xavier chegaria a Governador Valadares para comandar o 6º BPM. Imediatamente reestruturou a administração. Colocando oficiais experientes e de sua confiança nas funções de Estado Maior, buscou melhor desempenho e maior controle. Eram tempos, ainda, do CAE – Conselho Administrativo e Econômico, que geria rendas internas da Unidade, como o rancho e a cantina, época em que foram criadas as Seções de Controle, que antecederam a informatização. O novo comandante executou diversas obras internas que proporcionaram conforto à tropa e melhoraram a apresentação do aquartelamento. Nunca conheci qualquer companheiro que conseguisse, como o coronel Xavier, tamanha ascendência sobre os públicos interno e externo. Às vezes me parecia, e a muitos cidadãos, ser ele a maior autoridade da área, por onde  transitava com extrema desenvoltura. Conhecedor da região, de raciocínio rápido e excepcional capacidade de convencimento, superava momentos difíceis com inteligência e arte. Certa vez, após o assassinato misterioso de um radialista pouco cuidadoso com o que dizia, deu uma resposta rápida à opinião pública nomeando, logo, o suspeito, que acabou sendo indiciado mais depressa ainda, acalmando a mídia, embora não se comprovasse, jamais, a autoria do crime.

Em meados da década de setenta, veio a notícia: Xavier fora removido para o 4º BPM, em Uberaba. Contra sua vontade, mas como bom soldado, cumpriu as ordens. Durante a passagem de comando, com toda a pompa e cerimoniais recomendados, foguetes estouraram pelas imediações. Alguém comemorando sua saída? Bem, lá se foi o novo comandante de Uberaba que, seguindo suas convicções e estilo, continuou a se impor, amealhando simpatia e amizade do outro lado do Estado. Um ano depois, se tanto,  o “velho” comandante retornou à sua casa, de onde só sairia quando transferido para a reserva. Nesse ínterim alguns oficiais foram removidos. Diziam que era o pessoal do foguetório! Será? Os canteiros foram revitalizados e novas qualidades de rosas enfeitaram a entrada do quartel. Vindo a Barbacena, antigamente denominada “Cidade das Rosas”, suas encomendas eram certas. De personalidade muito forte, não esqueço o dia em que o escalão superior cobrou, dele, o controle de telefonemas. Eu era seu almoxarife e recebi, de suas mãos, o despacho para resposta a quem interessasse, sem maiores rodeios: - Este comandante não consegue trabalhar sem grampeador e sem telefone!  Não me lembro de alguém ter tocado, outra vez, nesse assunto, depois disto.

Do almoxarifado, o nobre comandante recomendou que eu assumisse a Segunda Seção, onde se tratava dos assuntos ligados às informações. Vivíamos no regime militar. Colegas de posto superior, mais experientes, estranharam sua atitude, até com certo grau de surpresa, ou discordância. Talvez seja esta a palavra mais correta. E lá fiquei por uns quatro ou mais anos. Posteriormente, mais maduro, percebi que ele gostava, em algumas circunstâncias, de dar funções a oficiais novos, mantendo total controle da situação, e mais ainda, por incrível que pareça, por não dar muita importância a tal setor, sobre o qual ele tinha mais conhecimento que todos nós. Era uma das autoridades mais bem informadas do Vale do Rio Doce e sua rede de informações não tinha limites, via amizades com civis, oficiais e praças. Muito reservado, se valorizava e à sua função. Nunca o vi beber, embora soubesse que ele mantinha coisas boas em sua casa. Ah, não me recordo de tê-lo visto em uniforme de educação física. Suas extravagâncias ficavam por conta de uma piteira, curiós, bicudos e roseiras, cultivadas sob sua orientação, direta e intransferível.

As supervisões, por comandantes, não eram muito comuns na década de setenta. O efetivo enorme, acima de 3.000 homens, as tarefas administrativas, a extensa área e a pobreza das estradas impediam seguir um cronograma nesse sentido. Mesmo assim o acompanhei em visitas de inspeções ao Vale do Jequitinhonha e à região de Guanhães, onde, por absoluta necessidade, ele havia implantado Cursos Formação de Soldados. Em Almenara ele mandou formar os alunos, mais ou menos quarenta, e conversou com todos, um por um. Depois da palestra percorreu as colunas chamando cada recruta pelo nome. Coisa fenomenal, mas comum para quem conhecia sua tropa nominalmente. Chegando, à tardinha, à cidade de Santa Maria do Suaçuí, em uniforme de instrução, paramos perto da Cadeia Pública, onde procuramos nos informar sobre o quartel. O comandante, ao descer da viatura, escutou, ao longe, uma voz em sua direção: - Ei grandão, cê ta atrasado! Agora você vai ver como é bom “comer” um 4º/1º turno! O coronel Xavier, do alto de suas experiência e  sabedoria, contornou o equívoco daquele noviço candidato a policial militar que livrou-se “ileso”!  Como fiquei? Mal podendo conter o riso!

Passados muitos anos, em minhas idas a Governador Valadares, e mesmo através de meus familiares, lá residentes, tenho notícias do comandante, coronel Francisco Pereira Xavier. Sei que ele curte vida mansa num sítio no distrito de Baguari, com sua esposa, dona Lana. Ele merece. Conhece, como ninguém, muitas das histórias do Vale. Bem que ele podia contá-las para nós!

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Tá nervoso? Vai pescar!



Wilalba F. Souza                                            05/10/2017

Há alguns anos naveguei no Rio Paracatu, ali mesmo no norte de Minas, onde ele deságua no Rio São Francisco. Aliás, dá nome a uma cidade que o margeia e, em tempos atuais, não pode mais abastecê-la, com seu minguado nível, já assoreado. Ex-maior e mais caudaloso afluente daquele que, até a poucos anos, era quase que santificado pelos ribeirinhos norte-mineiros! Na época era Diretor de Operações da Coordenadoria Estadual de Defesa Civil de Minas Gerais, vinculada ao Gabinete Militar do Governador do Estado. E aquela região, a despeito desses cursos d`água, importantíssimos, sofria, e sofre, sérios e graves impactos das secas, idênticos aos noticiados em relação ao nordeste brasileiro. E o papel maior, de nossa atividade, era socorrer a população pobre e sofrida, de rincões mais afastados, com água e cestas básicas.

Mas, interessante, é que o Paracatu daqueles tempos – 1.985-90 – premiava pescadores com peixes nobres, do nível Surubim e Dourado. Fazia parte do roteiro de locais de excelente capacidade esportiva para quem ama a pesca. Infelizmente, não cuidamos dos nossos tesouros, pelo contrário, os depredamos. E fico triste, já que noticiaram estar o Paracatu morrendo. Secando. Pior que isto é a perda do percentual de água que o Rio São Francisco recebia desse importante afluente, não se sabendo quando e em quanto tempo poderá recuperar-se. Mais um “Rio Doce” assassinado! E agora, José ? Pergunto eu. E a famosa transposição promovida pelo governo de Lula, ainda não terminada? E a conclusão de que o Velho Chico também está à mingua, tão maltratado quanto o Paracatu e outros “menos votados”?

Defesa ecológica nunca foi nosso forte. Dia desses um amigo meu mandou fazer seus móveis, da casa nova, em cedro. Madeira nobre, fora da relação das comercializáveis. Está em processo de extinção e é crime ambiental cortar sua árvore. A desculpa, mais que esfarrapada, do meu amigo, foi que entraram em sua fazenda e a serraram, deixando-a caída. Ele apenas teria aproveitado a madeira, pois ali a deixando, ela apodreceria. É! A casa ficou maravilhosa, um luxo só. Sabe que quase acreditei naquela história?

E as coisas funcionam assim! Desmatam a mata ciliar, jogam esgoto e produtos químicos nos cursos d`água, usam tarrafas, armadilhas e meios ilícitos para pescar e ainda querem água em abundância e peixes às pampas! Às vezes assisto entrevistas de políticos, população e autoridades nervosos com a situação caótica de nossas fontes  d`água, que abastecem as populações, indústrias e a agricultura, me dando uma vontade louca de sugerir a eles que imitem os índios e invoquem chuva através de danças pra “manitu”, deus dos ditos “peles vermelhas”, adversários dos caubóis dos meus tempos de menino. Sei que é difícil...

Ta nervoso, sô, vai pescar! Onde?