Wilalba
F. Souza 16/Out/2017
(Escrevi este texto em outubro de 2010,
ano do falecimento do meu pai, capitão da PM Alceu de Souza, em cujos funerais meu
admirado coronel Xavier se fez presente, oportunidade em que conversamos e nos vimos
pela última vez, eis que, lamentavelmente, ele faleceu no final da semana
passada. O considero o maior destaque, entre todos os comandantes que passaram
pelo 6º BPM, do “Pagode Chinês”)
Conheci o coronel Xavier, na condição de
aluno do Curso de Formação de Oficiais, lá pelo ano de 1.968, sendo ele
comandante do 11º BPM, sediado em Manhuaçú, unidade precariamente instalada em
um galpão esquisito, perto da linha férrea, enquanto se construía a sua sede
nova, às margens da rodovia. Os alunos, integrantes das equipes de ginástica
acrobática e futebol do Departamento de Instrução (hoje Academia da Polícia
Militar-APM) haviam sido convocados para missão especial de reaproximação com a
comunidade local, já que, durante uma exposição interna patrocinada pela PMMG,
uma metralhadora teria sido acionada acidentalmente e vitimado várias pessoas,
mormente estudantes e, segundo se propalava, ferido uma delas fatalmente. A
repercussão foi terrível e alguma coisa, de fato, tinha que ser feita. Assim, a
delegação de alunos, depois de participar de eventos esportivos e demonstração
de ginástica acrobática, ainda fez par com debutantes, em agradável baile tradicional
da cidade. O major Xavier e seus quase dois metros de altura impunham,
naturalmente, grande respeito em quem o rodeava. Muito articulado, nos recebeu
com muita cortesia, deixando impressionada nossa jovem e neófita comitiva,
ainda que decepcionada com a total falta de estrutura e conforto da tropa que
ele comandava. Fui reencontrá-lo, um ou dois anos depois, já segundo tenente,
durante um torneio de futebol entre oficiais dos 6º e 11º BPM, este já de casa
novinha. Gritava, durante o jogo, para seus, nem tanto, atletas: - Hoje é
vencer, ou vencer!!! Seu time perdeu! O
resultado da partida, pra ele, era o que menos importava, percebia eu.
Pouco tempo depois Xavier chegaria a
Governador Valadares para comandar o 6º BPM. Imediatamente reestruturou a
administração. Colocando oficiais experientes e de sua confiança nas funções de
Estado Maior, buscou melhor desempenho e maior controle. Eram tempos, ainda, do
CAE – Conselho Administrativo e Econômico, que geria rendas internas da
Unidade, como o rancho e a cantina, época em que foram criadas as Seções de
Controle, que antecederam a informatização. O novo comandante executou diversas
obras internas que proporcionaram conforto à tropa e melhoraram a apresentação
do aquartelamento. Nunca conheci qualquer companheiro que conseguisse, como o
coronel Xavier, tamanha ascendência sobre os públicos interno e externo. Às
vezes me parecia, e a muitos cidadãos, ser ele a maior autoridade da área, por
onde transitava com extrema
desenvoltura. Conhecedor da região, de raciocínio rápido e excepcional
capacidade de convencimento, superava momentos difíceis com inteligência e
arte. Certa vez, após o assassinato misterioso de um radialista pouco cuidadoso
com o que dizia, deu uma resposta rápida à opinião pública nomeando, logo, o
suspeito, que acabou sendo indiciado mais depressa ainda, acalmando a mídia,
embora não se comprovasse, jamais, a autoria do crime.
Em meados da década de setenta, veio a
notícia: Xavier fora removido para o 4º BPM, em Uberaba. Contra
sua vontade, mas como bom soldado, cumpriu as ordens. Durante a passagem de
comando, com toda a pompa e cerimoniais recomendados, foguetes estouraram pelas
imediações. Alguém comemorando sua saída? Bem, lá se foi o novo comandante de
Uberaba que, seguindo suas convicções e estilo, continuou a se impor,
amealhando simpatia e amizade do outro lado do Estado. Um ano depois, se tanto,
o “velho” comandante retornou à sua
casa, de onde só sairia quando transferido para a reserva. Nesse ínterim alguns
oficiais foram removidos. Diziam que era o pessoal do foguetório! Será? Os
canteiros foram revitalizados e novas qualidades de rosas enfeitaram a entrada
do quartel. Vindo a Barbacena, antigamente denominada “Cidade das Rosas”, suas
encomendas eram certas. De personalidade muito forte, não esqueço o dia em que o
escalão superior cobrou, dele, o controle de telefonemas. Eu era seu almoxarife
e recebi, de suas mãos, o despacho para resposta a quem interessasse, sem
maiores rodeios: - Este comandante não consegue trabalhar sem grampeador e sem
telefone! Não me lembro de alguém ter
tocado, outra vez, nesse assunto, depois disto.
Do almoxarifado, o nobre comandante
recomendou que eu assumisse a Segunda Seção, onde se tratava dos assuntos ligados
às informações. Vivíamos no regime militar. Colegas de posto superior, mais
experientes, estranharam sua atitude, até com certo grau de surpresa, ou
discordância. Talvez seja esta a palavra mais correta. E lá fiquei por uns
quatro ou mais anos. Posteriormente, mais maduro, percebi que ele gostava, em
algumas circunstâncias, de dar funções a oficiais novos, mantendo total
controle da situação, e mais ainda, por incrível que pareça, por não dar muita
importância a tal setor, sobre o qual ele tinha mais conhecimento que todos
nós. Era uma das autoridades mais bem informadas do Vale do Rio Doce e sua rede
de informações não tinha limites, via amizades com civis, oficiais e praças.
Muito reservado, se valorizava e à sua função. Nunca o vi beber, embora
soubesse que ele mantinha coisas boas em sua casa. Ah, não me recordo de tê-lo
visto em uniforme de educação física. Suas extravagâncias ficavam por conta de
uma piteira, curiós, bicudos e roseiras, cultivadas sob sua orientação, direta
e intransferível.
As supervisões, por comandantes, não
eram muito comuns na década de setenta. O efetivo enorme, acima de 3.000
homens, as tarefas administrativas, a extensa área e a pobreza das estradas
impediam seguir um cronograma nesse sentido. Mesmo assim o acompanhei em
visitas de inspeções ao Vale do Jequitinhonha e à região de Guanhães, onde, por
absoluta necessidade, ele havia implantado Cursos Formação de Soldados. Em
Almenara ele mandou formar os alunos, mais ou menos quarenta, e conversou com
todos, um por um. Depois da palestra percorreu as colunas chamando cada recruta
pelo nome. Coisa fenomenal, mas comum para quem conhecia sua tropa
nominalmente. Chegando, à tardinha, à cidade de Santa Maria do Suaçuí, em
uniforme de instrução, paramos perto da Cadeia Pública, onde procuramos nos
informar sobre o quartel. O comandante, ao descer da viatura, escutou, ao
longe, uma voz em sua direção: - Ei grandão, cê ta atrasado! Agora você vai ver
como é bom “comer” um 4º/1º turno! O coronel Xavier, do alto de suas
experiência e sabedoria, contornou o
equívoco daquele noviço candidato a policial militar que livrou-se “ileso”! Como fiquei? Mal podendo conter o riso!
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