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quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Até que você seja a vítima!



Wilalba F. Souza                                          28/Dez/2017

Nesses tempos de mídia muito rápida, e redes sociais, tipo WhatsApp, nos chegam todo o tipo de informação. E vídeos! Uns até divertidos, informativos, mas, muitos outros tantos, com conteúdos duvidosos. De péssimo gosto, agressivos e mais que dispensáveis. Outro dia divulgaram um que continha a corrida de um motociclista para a morte, mostrando a seguir, o resultado do que sobrou do cadáver. Sei lá, parece que o ser humano tem, em seu âmago, um instinto de buscar seu sofrimento indireto que é de estarrecer.

Não poucas vezes surgem as imagens de cidadãos sendo abordados, dirigindo ou não, submetidos a maus-tratos, tendo em vista que abusaram no uso de bebidas alcoólicas. Trôpegos, sem coordenação, às vezes exasperados, desconectados, eles sim, alheios ao nosso mundo. Na realidade essas pessoas, e nem todas, são marginais, ou alcoólicas! Não poucas vezes são mães ou pai de família que, em dado momento, sem nos importarmos qual a motivação, exageraram na bebida, sem serem usuários contumazes disso. Como o resultado não escolhe “a cara”, ele é sempre muito parecido, pra quem se aventura, dessa maneira.

Há alguns anos, ainda jovem aspirante, um comandante nos instruiu a não maltratar bêbedos. E explicou: simplesmente porque eles foram transformados psicologicamente, comportamentalmente e mesmo fisicamente, em seres humanos que requerem mais atenção, menos castigo imediato. Um deles? A execração pública e exposição desnecessária, antes da análise e julgamento por autoridades competentes. E já vi, não poucas vezes, espancamentos, em usuários, até eventuais, de álcool ou substância tóxica. Castigo físico não é previsto na legislação brasileira.

Será que estamos preparados para atuar nesses tipos de ocorrências, muito comuns? É um caso pra nós refletirmos, penso eu. E não se trata de deixar de punir o infrator, ou criminoso de trânsito, que delinqüiu tendo em vista uso imoderado de bebida. Há mortes horrorosas entre motoristas alcoolizados, que se espatifam contra postes, proteções de estradas e outros veículos. E eles devem ser julgados com rigor, sem essa de execração, mesmo porque todos nós temos parentes e pessoas que amamos usuárias, mesmo que em festinhas, aniversários, casamentos, formaturas e outros eventos.

No Brasil, os legisladores usam da velha e batida mania de agravar penas para quem dirige sob efeito de bebida, mesmo sem causar acidente, tratando o assunto com uma severidade tamanha, como se isto solucionasse o problema. Bêbado no Brasil, se pego ao volante, certamente vai ser condenado à “morte natural, para sempre”. E não é só bêbado que atropela e provoca acidente. Somem à estatística os imperitos, os apressadinhos, os impacientes que, se atropelarem, com a “cara limpa”, vão para casa depois de pagar uma fiança, autuados por crime culposo. Dia desses um motorista de caminhão saiu da sua faixa, aqui na BR 040, não se sabe porque, não tinha bebido, e ceifou a vida de cinco pessoas da mesma família: foi pra casa!!!

Mas, a razão da abordagem desse assunto foi embasada na exposição, e execração, a meu ver desnecessária, de uma senhora que, embriagada, visivelmente fora de si, e conduzindo seu automóvel, fez um “strike” nuns três veículos, numa avenida do Rio de Janeiro. Depois de detida por uma guarnição da PM, teve filmada sua reação de uma pessoa bêbada, descontrolada, e que, de alguma forma, foi premeditadamente punida, levada ao ridículo, submetida à execração pelas redes sociais. Não se observou qualquer atitude dos “homens da lei”, para dominá-la, isolá-la e adotar o procedimento padrão que lhes é ensinado, recomendado. Porque? Tratava-se de uma juíza de direito. E como é bom maltratar o cidadão!!! Se for autoridade então, muito melhor, até que você seja a vítima!

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Autoridade

Wilalba F. Souza                                                                15/Dez/2017

Um famoso analista político, da TV Globo, anualmente faz passeios pelo exterior e relata suas experiências adquiridas nessas viagens. Este ano ele foi a Portugal e, extasiado, teceu rasgados elogios à “terra mãe”. Falou sobre a cultura dos “patrícios” e do esforço que lá se faz para manterem suas tradições. Retornando à terrinha, caiu na realidade ao se reencontrar com nossa desorganização urbana, exponenciada pela barulheira promovida por quem “equipa” seus veículos com sons especiais, trafegando a todo volume, embora haja legislação que regula o assunto e proíbe abusos. Realmente incomoda, e como!!!

Um vizinho meu, bom rapaz, pacífico, tem um automóvel Chevrolet, já bem velho, caidinho mesmo. Tem o costume de deixá-lo na frente da sua casa, morro abaixo, porque ele costuma não querer “pegar” pela manhã, então só lhe resta soltá-lo e fazê-lo funcionar no “tranco”. Há uns trinta dias percebi uma zoeira dos demônios na minha porta e, indo até lá, “flagrei” o moço “botando pra quebrar” uma aparelhagem possante que colocara em seu veículo, como disse, necessitando de reparos. Em suma, esses perturbadores do sossego alheio gastam dinheiro para infernizar a vida dos outros e deixam seus carros caindo aos pedaços. Depois de um minuto de educada conversa, prometeu-me não fazer mais aquilo, mesmo porque, ali perto, há idosos e doentes, aos quais temos que dedicar nossos respeitos.

Embora não seja lá muito severa, a lei permite que os agentes abordem os infratores. Mas devo afirmar, convictamente, que nunca assisti tais empenhos por parte da polícia. O ritual é tão complexo que pro agente da lei, é melhor deixar pra lá. Sua palavra vale pouco, seu testemunho é nulo e sua autoridade “insuficiente” pra ditar qualquer recomendação. Isto é Brasil. Assim, essa turma do barulho desfila, pra baixo e pra cima, com suas fábricas de zoeira, sem que ninguém a incomode. Mas, falando de incômodo, em nossa cidade há uma permissividade total e oficial pra isso. Basta pedir um alvará às autoridades competentes e “tocar” som nas caixas. Festas de igrejas, casas de show e similares impõem o terror em cima da população, sem dó ou piedade, sem horário pra começar ou terminar. E tem mais, não adianta ligar pra polícia, de onde vem a resposta: - Caro senhor, nada podemos fazer, eles têm autorização e, além disso, mesmo com a perturbação do sossego alheio, seríamos acusados por abuso de autoridade. Trata-se de uma ação particular e cada um, se achando prejudicado, tem que registrar um boletim de ocorrência, a “posteriori” e encaminhar uma ação na justiça.  Imaginem!!!

Há duas semanas, partindo da Villa Gorini (casa de festas), um escandaloso som, de show a céu aberto, vindo de suas instalações, longe, do outro lado da BR 040 (moro na Boa Vista-Barbacena), começou às 17 horas, numa sexta feira, e se encerrou às cinco horas da manhã, no sábado. Passei a noite sem conseguir dormir, pois as potentes caixas de som pareciam estar dentro de minha casa. Recentemente, numa cidade dos Estados Unidos, uns artistas brasileiros, que se apresentavam em espaço público, receberam determinação da polícia para desligar os equipamentos. Usaram de autoridade para cessar o “espetáculo”, tendo em vista o incômodo que estava submetido quem queria dormir e, ponto final. Em Barbacena já ouvi de um juiz de direito que, nos fins de semana, ele tinha que ir pro banheiro, com as filhas pequenas, para evitar a zoeirada, vinda de um “point” perto do prédio onde morava; e escutei, de um coronel, comandante da PM, que ele era obrigado a dormir na sala, pois na casa de festas, situada a uns mil metros de onde mora, as baladas costumam começar na quinta feira, à noite, encerrando-se no sábado, lá pela hora do almoço!!! E assim funciona por aqui! Retiraram toda a autoridade dos agentes na ponta da linha, inviabilizando a atuação de quem poderia evitar o crescimento de tantas e tantas conexões marginais, que vão de simples contravenções a crimes de real gravidade.