Pesquisar este blog

quinta-feira, 19 de julho de 2018

Esporte Bretão



Wilalba F. Souza                            18/Jul/2018        

        Quando o Brasil ganhou a copa de mil novecentos e cinquenta e oito, poucos anos depois de ter perdido, no Maracanã, o título para o Uruguai, a mídia não tinha alcance suficiente para mostrar para o povo o peso daquela conquista esportiva no mundo inteiro, embora, naqueles tempos de maioria populacional rural e domínio do rádio, o espírito patriótico fosse muito mais bem apurado do que hoje. E lógico, garotos, ainda nem tínhamos conhecimento e experiência suficientes para entender o significado do evento, numa campanha onde os brasileiros começavam a conhecer Pelé, o garoto de dezessete anos que apareceu, depois, nas manchetes, chorando nos braços dos companheiros, de maneira comovente. Ele que prometera ao seu pai, Dondinho, conquistar a Jules Rimet, depois da queda de mil novecentos e cinqüenta, no maior estádio do mundo. Eram tempos de desacertos políticos e econômicos, do pós suicídio de Getúlio Vargas, pouco antes.

        Incrivelmente, mesmo em meio às crises e dificuldades muitas, o Brasil começava a progredir, em todos os sentidos, tendo à frente Juscelino Kubitschek, o mineiro que transformou este país, com a ajuda de técnicos e políticos de espírito pioneiro. E Brasília se apresenta hoje como prova de muito boas mudanças, advindas daquela fase pós-guerra, resultantes, também, de corrupção, pois corria muito dinheiro externo, investido nas obras.  Penso eu que houve uma transformação orquestrada pelo acaso, que nos proporcionou alguma modernidade, um incremento na música e seus movimentos, a partir da “bossa nova”, da “jovem guarda”, do cinema e da admiração pelo futebol, cujas partidas eram transmitidas apenas por emissoras de rádio como a Nacional, Mayrink Veiga, Tupi e outras, cujo som se propagava bem do Rio de Janeiro, sentido Minas e nordeste do Brasil. Prova disto é o grande destaque que tinha o campeonato carioca, com Botafogo, Vasco, Flamengo, Fluminense, gigantes em torcidas, até hoje, e outros menos votados, como o Bangu, Madureira, São Cristovam...

        Os paulistas, mineiros e gaúchos só apareceram, de fato, depois de Pelé e do Santos, claro que ajudados pela magistral magia do esporte bretão, empurrados pelo desenvolvimento dos meios de comunicação, como imprensa escrita, falada e televisada, esta chegando um pouco depois.  Nossa conclusão é que, na “esteira” do sucesso futebolístico, outros setores se desenvolveram, pois, o mundo passou a conhecer o Brasil, o país do futebol, de Pelé, de Tom Jobim, Roberto Carlos e do samba. Uma jovem nação que encontrava seu caminho, com futuro promissor. Mas...infelizmente, não aproveitamos o embalo. Ganhamos o bi da Copa debaixo de (mais uma) grave crise política, em mil novecentos e sessenta e dois, com Jango no lugar de Jânio, que sucedera JK, tendo os militares assumido o governo em mil novecentos e sessenta e quatro, no auge da guerra fria, tempos de combate aos comunistas. E, sob a égide deles, dos militares, trouxemos a Taça Jules Rimet em mil novecentos e setenta, ainda com Pelé. Como sempre, inchados de esperança: “noventa milhões em ação, pra frente Brasil, salve a seleção”, cantava todo mundo!

        O Brasil, mesmo com crises, dificuldades outras e inflação, ainda experimentou muitos progressos com o governo militar que, apesar dos pesares, deu seqüência à fase desenvolvimentista de Juscelino, mormente na construção de estradas, usinas elétricas e atômicas, evidentemente a um preço bem caro, hoje considerado compensador. Os índices de criminalidade eram pequenos, a questão previdenciária não incomodava e a corrupção não representava um grande dragão insaciável, como hoje. Romário, Bebeto e sua fantástica equipe, trouxeram o tetra, lá dos Estados Unidos. Puxado pela política econômica séria de Itamar Franco e seu super-ministro, Fernando Henrique Cardoso, o FHC, nós brasileiros iríamos ter, além de mais um título mundial, o gostinho de uma moeda estável, de inflação controlada, pronta para crescer, progredir, em ordem e progresso, como estampado na nossa bandeira. E íamos bem, em todos os fundamentos, superando problemas, entrando pesado nas exportações de commodities, podendo até acumular uma “gordurazinha” econômica.

        Em dois mil e dois, sendo presidente Fernando Henrique, Ronaldo Fenômeno, Ronaldinho, Cafu, Rivaldo e companhia trouxeram o pentacampeonato. Vampeta rolou pela rampa abaixo. Nosso sentimento era de que o Brasil se deslanchava, sob todos os aspectos, após grande conquista esportiva, estabilidade e certeza de crescimento e protagonismo. Em 2003 uma esperança chamada Lula assumiu o governo. Prometeu pacificar a nação, colocar os corruptos no xadrez, atender os pobres, bla, bla, bla. De lá pra cá só perdemos. E como!!! Muitos corruptos estão presos, não porque Lula prometera, pois ele mesmo teria enfiado as mãos pelos pés, e vice-versa, emplacando Dilma sua sucessora, ficando escancarados os erros e desvios econômicos cometidos, junto com o tal de “mensalão”, promovido por altas autoridades políticas, gananciosas, que minaram as grandes corporações nacionais, privadas e estatais, quais sejam, Petrobrás, Eletrobrás, construtoras e instituições bancárias, como o BNDS, com efeitos negativos gigantescos. Nessa situação fomos desclassificados pela Alemanha, por 7 x 2, no fatídico mês de julho de dois mil e quatorze.  A presidenta foi cassada, não por causa dessa derrota, mas por outros motivos, entrando em seu lugar o vice, Michel Temer. De lá para cá, só notícia ruim. Enfiados, os brasileiros, mais uma vez, em desandos políticos e financeiros, vindos dos governos anteriores, nossa seleção foi derrotada, outra vez, na Copa, realizada na Rússia. Durante um mês, exatamente por causa do evento russo-mundial, entramos em um estágio de torpor, fechando os ouvidos aos resultados da paralisação nacional de caminhoneiros, apoiada pela população, influenciadora, negativamente, dos índices que mensuram nosso PIB e a inflação, ainda que dominada, de certa forma, pela recessão, pois treze milhões de desempregado nada produzem e pouco consomem.

        E o esporte bretão (britânico) continua em alta. O próximo torneio será no Catar, um país do oriente médio, cheio de dinheiro, que terá estádios moderníssimos, climatizados, encravados no deserto, cheios de conforto e atrativos, para onde, em 2022, estarão voltados os olhos do mundo, sedento de diversão. Muitos brasileiros lá estarão, levando sua alegria, roupas e bandeiras verde-amarelas. Só não sabemos em que situação estaremos, naquela oportunidade, em relação ao time de futebol e a equipe formada por aqueles que decidirão sobre nosso futuro, no mundo real.

segunda-feira, 2 de julho de 2018

As metáforas do sujeito fanático



Alcino Lagares                                       02/Jul/2018

No livro 7 da “República”, Platão escreveu “O mito da caverna”: numa morada subterrânea, homens estão acorrentados desde o nascimento com o rosto voltado para uma parede ao fundo desta. Na parede ecoam vozes e são projetadas sombras de homens livres que falam e passam diante da Luz do lado de fora da caverna, cuja existência é absolutamente ignorada pelos acorrentados. Em suma: os acorrentados “sabem” que tudo que existe de real e verdadeiro são a sombra e o eco.

Platão denomina “doxa” (opinião) esse tipo de conhecimento vulgar obtido pelas impressões sensíveis e mostra a superioridade da “episteme” (conhecimento inteligente do “real e verdadeiro”) sobre aquele. Um dos acorrentados consegue romper as correntes, escalar as paredes da caverna , conhecer a luz e compreender que tudo que haviam aprendido a vida inteira era falso!

Mas, tristemente, essa superioridade não prevalece: quando ele – o filósofo – retorna à caverna e informa aos antigos companheiros a verdade que descobriu, eles resolvem a contradição de um modo bem simples: eles o matam! Afinal, ele só podia ser louco ou mentiroso, pois todos os acorrentados “sabem” que a verdade se encontra naquela parede: eco e sombras...

Em nossa língua, as palavras “fanático” e “fã” vêm de uma mesma raiz: “fanum” (relativo a um templo religioso). Já aquele que se encontrava à frente (“pro”) ou fora dele era “profanum”, origem do nosso termo “profano”.

Mas toda “língua” (idioma formal de um povo, manifestado oral e graficamente por meio de um sistema de vocabulário e sintaxe) inclui uma “linguagem” (um modo popular de se exprimir pela fala).

Assim, por meio da linguagem, o significado original de “fanático” (“entusiasta”) adquiriu a conotação pejorativa de “desvairado, intolerante, que aceita cegamente preceito de uma religião ou de doutrina política, ou age exageradamente em relação a uma pessoa, a um time de futebol etc”, enquanto que ao encurtamento dessa palavra para “fã” atribuiu-se uma conotação amena, logo mão pejorativa (admirador, apreciador).

É perda de tempo tentar argumentar com um “fanático” sobre as más qualidades de seu time de futebol, sobre erros de interpretação de livros sagrados e sobre falsidades contidas no discurso do político. Porque ele “sabe” – aprendeu na parede no fundo da caverna” – que o time pelo qual torce é “o melhor”, que somente em sua religião ou seita se encontra “a salvação” e que “aquele” é o político que resolverá os problemas nacionais.

Especialmente neste ano de eleições proliferam mensagens elaboradas por “inocentes úteis” sobre partidos e sobre políticos (cuja verdadeira natureza e caráter nem mesmo conhecem), umas exaltando-os, outras denegrindo-os. Recebo-as e as apago. Por cuidado, nunca as respondo: o fanático vê, mas não enxerga; ouve, mas não escuta!

*  Alcino Lagares é coronel da reserva da PMMG