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segunda-feira, 2 de julho de 2018

As metáforas do sujeito fanático



Alcino Lagares                                       02/Jul/2018

No livro 7 da “República”, Platão escreveu “O mito da caverna”: numa morada subterrânea, homens estão acorrentados desde o nascimento com o rosto voltado para uma parede ao fundo desta. Na parede ecoam vozes e são projetadas sombras de homens livres que falam e passam diante da Luz do lado de fora da caverna, cuja existência é absolutamente ignorada pelos acorrentados. Em suma: os acorrentados “sabem” que tudo que existe de real e verdadeiro são a sombra e o eco.

Platão denomina “doxa” (opinião) esse tipo de conhecimento vulgar obtido pelas impressões sensíveis e mostra a superioridade da “episteme” (conhecimento inteligente do “real e verdadeiro”) sobre aquele. Um dos acorrentados consegue romper as correntes, escalar as paredes da caverna , conhecer a luz e compreender que tudo que haviam aprendido a vida inteira era falso!

Mas, tristemente, essa superioridade não prevalece: quando ele – o filósofo – retorna à caverna e informa aos antigos companheiros a verdade que descobriu, eles resolvem a contradição de um modo bem simples: eles o matam! Afinal, ele só podia ser louco ou mentiroso, pois todos os acorrentados “sabem” que a verdade se encontra naquela parede: eco e sombras...

Em nossa língua, as palavras “fanático” e “fã” vêm de uma mesma raiz: “fanum” (relativo a um templo religioso). Já aquele que se encontrava à frente (“pro”) ou fora dele era “profanum”, origem do nosso termo “profano”.

Mas toda “língua” (idioma formal de um povo, manifestado oral e graficamente por meio de um sistema de vocabulário e sintaxe) inclui uma “linguagem” (um modo popular de se exprimir pela fala).

Assim, por meio da linguagem, o significado original de “fanático” (“entusiasta”) adquiriu a conotação pejorativa de “desvairado, intolerante, que aceita cegamente preceito de uma religião ou de doutrina política, ou age exageradamente em relação a uma pessoa, a um time de futebol etc”, enquanto que ao encurtamento dessa palavra para “fã” atribuiu-se uma conotação amena, logo mão pejorativa (admirador, apreciador).

É perda de tempo tentar argumentar com um “fanático” sobre as más qualidades de seu time de futebol, sobre erros de interpretação de livros sagrados e sobre falsidades contidas no discurso do político. Porque ele “sabe” – aprendeu na parede no fundo da caverna” – que o time pelo qual torce é “o melhor”, que somente em sua religião ou seita se encontra “a salvação” e que “aquele” é o político que resolverá os problemas nacionais.

Especialmente neste ano de eleições proliferam mensagens elaboradas por “inocentes úteis” sobre partidos e sobre políticos (cuja verdadeira natureza e caráter nem mesmo conhecem), umas exaltando-os, outras denegrindo-os. Recebo-as e as apago. Por cuidado, nunca as respondo: o fanático vê, mas não enxerga; ouve, mas não escuta!

*  Alcino Lagares é coronel da reserva da PMMG

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