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sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

P E L É

Wilalba F. Souza                   26/02/21

Acabo de assistir, atentamente, um filme sobre o Pelé. Seu nome dá o título à película (termo usado nos tempos dos filmes de rolo). Lamentavelmente, acho eu, seus produtores tentaram utilizá-los (o filme e Pelé - uma compilação de cenas e depoimentos) com fins políticos, em crítica ao governo militar das décadas de sessenta e setenta. Enfim, usaram a história de um destacado brasileiro, vi assim, em narrativa recorrente de quem é oposição, tentando fazer espirrar e sobrar spray no governo atual, do presidente Bolsonaro, capitão da reserva do Exército Brasileiro, eleito pelo povo.

Acho que não conseguiram enfiar o rei no "rolo", pelo menos do jeito que, de maneira velhaca, tentaram. Nos seus oitenta anos, meio debilitado e emotivo (isto, sempre foi) ele se mostrou equilibrado e firme, mesmo sendo criticado por colegas (jogadores) esquerdistas, gente da imprensa e artistas, adredemente selecionados, quando declarou: - jogando futebol fiz muito mais pelo Brasil que os políticos remunerados!

Pelé “trucou” João Saldanha, técnico improvisado que disse, peremptoriamente, lá em 1970, estar ele cego e que não poderia jogar... uma maneira de enfraquecer o time nacional. Aliás, há depoimento de quem foi ao México e disse ter torcido contra.

Comunista - o João, dito sem medo - técnico da seleção, queria perder, evitando a utilização mediática que poderia fortalecer a causa e o governo dos militares. Aí, claro que por causa de Pelé, e pelos seus intensões, sacaram o Saldanha e colocaram o Zagalo, do "vão ter que me engolir".

Desse filme, pude concluir, data vênia:

1. O Santos foi o único time brasileiro verdadeiramente campeão do mundo.

2.  De certa forma arrisco, consciente do meu exagero, dizer que houve um Brasil antes, e outro depois do Pelé.

3.  Pelé é, indubitavelmente, o maior e mais festejado atleta de todos os tempos, em todo mundo.

4.  Por fim, considero Edson Arantes do Nascimento um dos homens mais formidáveis deste país.

Sugiro-lhes ver.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

SOLDADO SINGULAR ↔ CIDADÃO PLURAL

Não somos seres humanos tendo uma experiência espiritual, mas sim seres espirituais tendo uma experiência humana. ” (Teilhard de Chardin)

A vida humana é uma travessia passageira, e veloz, ao longo da viagem cósmica da alma rumo ao infinito. Constitui oportunidade: ascensão ou estagnação, ou involução.

Nascer.... Morrer.... Renascer.... Apenas o corpo físico perece ao final da jornada. A alma liberta-se de sua “experiência humana”;  voa de retorno à Pátria Espiritual.

Este planeta acolhe quase 8 bilhões de almas em passagem transitória. São diferentes individualidades. Nenhuma igual. Almas de elevação consciencial, outras medianas, muitas desnorteadas nos meandros trevosos.

Cada pessoa, no decurso da travessia, estabelece relacionamentos de toda ordem. Surgem os contatos, as ligações, a interação passageira ou permanente...

Assim, vamos conhecendo as pessoas. Umas nos transmitem energia positiva; outras, negativa. Ora, firmamos amizade; ora, preferimos a distância.  Mas, de qualquer forma, edificamos nossa geografia afetiva de interesse ou desinteresse, de proximidade ou de afastamento; apreendemos lições ou repudiamos condutas.

Nestes meus 80 anos de travessia, desde criança nos destacamentos do saudoso soldado Machado, meu genitor, fui edificando minha geografia afetiva. Nela tenho planícies áridas ou verdejantes, vales sombrios ou agradáveis, paisagens hostis ou acolhedoras.... Contudo, o que sobressaiu são os pontos de relevo: os mestres de sabedoria, os amigos de árduas jornadas. Guardo-os no coração. Dentre eles, cito um que, em meu dicionário mental, classifico como Soldado Singular e Cidadão Plural.

Soldado Singular: profissional exemplar, competência invulgar, coragem nos entreveros, honestidade incontestável, lealdade, liderança exuberante...

Cidadão Plural:  construtor de convívio social em seu entorno, sedimentador de amizades, esportista, participativo, responsável, extrovertido, condutor de alegria...

Refiro-me ao Coronel JURANDYR AFONSO MARINO. Nascido em 5/11/41. Praça de 1º/03/59. Aspirante 1º/09/62. Na manhã de 16/02/21, assistido por sua esposa Raquel Mol Marino, encerrou, tranquilamente, a travessia terrena. Sua Alma, no prosseguimento da viagem cósmica, voou rumo à Pátria Espiritual.

Lembro-me dele jovem cadete, meu contemporâneo, no DI: disciplina sem carrancismo; cumpridor de ordens; inteligente e criativo; solidário e alegre; firme em decisões.... A partir de 1965, foi transferido para o 6º BI/Governador Valadares, onde sedimentamos amizade, inclusive em inúmeras jornadas policiais conjuntas.

Setembro/Outubro –1965 – tive oportunidade de constatar a desenvoltura do então tenente Jurandyr, quando compusemos uma equipe de Delegados Especiais, para garantir o pleito eleitoral em uma região problemática, cujo epicentro era Aimorés. O jovem oficial desenvolveu campanhas de orientação e desarmamento nos diversos municípios da região. Apoiou-me na minha sede: Mutum. O evento transcorreu em ordem.

Em 1966, o capitão Jurandyr passou a integrar a equipe do Cel Pedro como Delegado de Capturas, com sede em Governador Valadares. Sua atuação em diversas cidades do interior mineiro, inclusive com ramificações Rio de Janeiro, Espírito Santo e Bahia, desvendando crimes misteriosos e efetuando inúmeras capturas, valeu-lhe a solidificação de seu conceito como policial que resolvia.

Em Fev/69, afastei-me da Delegacia de Mantena, para cursar o CAO/BH. Jurandyr foi escolhido para me substituir na difícil e espinhosa missão de manter a ordem no antigo contestado, onde permaneceu por dois anos. Fev/72, minha vez de substituí-lo na Delegacia de Ipatinga, para que o mesmo cursasse o CAO/BH.

Cristalizada sua competência no exercício do ciclo completo de polícia, Jurandyr, promovido a major, tornou-se providencial para resolver problemas complexos na seara da Segurança Pública. Em novembro/1978, estruturou uma equipe de seis policiais, ocupando o lugar de um aparato de mais de 200 homens (cavalaria, cães, helicópteros...), para dar fim à saga criminosa dos famosos Irmãos Piriá (eixo Sete Lagoas-Curvelo), que tombaram mortos num enfrentamento, na madrugada de Natal (25Dez78).

Quando retornei do Curso Superior de Polícia/São Paulo, recebi em 31Jul79, a inopinada missão de assumir o controle da Capital, que estava sendo barbarizada por uma baderna de membros da construção civil (incêndio de carros, quebradeira de lojas etc.). Ao sair do gabinete do Comandante Geral, e ainda em traje civil, a primeira pessoa que encontrei: major Jurandyr. Fiz-lhe o pedido: – “Dim, convoque o Rolino e toda nossa turma,  as Companhias de Choque do 7º e 1º, e mande o CFAP preparar os alunos. Estou indo em casa fardar-me e nos encontraremos na região do estádio do Atlético”.

Por volta das 11h00, com Jurandyr meu subcomandante, montamos um Batalhão de Choque Provisório. Até o final da tarde, colocamos a cidade em ordem. E ações prosseguiram no mês de agosto com sucessivas greves.

O convívio com Jurandyr sedimentou-se numa amizade perene.

Meu livro Pelas Trilhas da Liderança, editado em Salvador/BA-2005, destaca-o como exemplo de líder. Eis um trecho, p. 227: “Cel Jurandir Afonso Marino – companheiro leal daqueles tempos heroicos da década de 60, na Delegacia de Capturas, sob as ordens do inigualável chefe – Cel Pedro – substituiu-me na Delegacia de Polícia de Mantena (...) Oficial simples e extrovertido – granjeava amizades com facilidade – carregava, no entanto, um invulgar potencial de coragem e audácia. No rol de seus maiores feitos – são inúmeros – cito o caso dos irmãos Piriá, facínoras que desafiavam, ao final da década de 70, grandes aparatos policiais na região do cerrado mineiro. Jurandir, chamado para a missão, dispensou aquele aparato ostensivo e convocou seis policiais de nossa antiga equipe de capturas. Discretamente e longe dos holofotes da imprensa, acabou com a extensa carreira delinquencial dos Piriá. Mais tarde, foi subcomandante e comandante de Unidades Operacionais (BPTran e BG), participando ativamente da implantação do novo e exitoso conceito de policiamento da Região Metropolitana de Belo Horizonte. Sua carreira na ativa – encerrada como Diretor de Pessoal – foi um exemplo corporificado de honestidade, lealdade e coragem. ”

O Cel Jurandyr, cumprida com dignidade a missão terrena, voa, ascensionalmente, pelos páramos cósmicos sob a Luz de Deus.

SOLDADO SINGULAR CIDADÃO PLURAL está inscrito no panteão de glórias da Força Pública Mineira.

Foi privilégio e honra tê-lo como companheiro de jornada e amigo.


Klinger Sobreira de Almeida – Cel PM Veterano

Membro Efetivo-Fundador da Academias de Letras João Guimarães Rosa

Série O Cotidiano – 18/Fev/2021


terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Minha Prima Vera e Sua Carteira Nacional de Habilitação...

 Wilalba F.Souza              02/01/2021 

Na década de cinquenta convivi, intensamente, ainda garoto, em Governador Valadares, com a Família Souza Pinto, grande prole constituída pelo casal Eugênio e Sebastiana. Eram muitos irmãos, meus primos, pois Sebastiana era uma das irmãs de minha mãe, a pequenina Josefa.

Meu relacionamento maior foi com Natalino, o mais novo. Regulávamos a idade. Os anos se passaram e, por contingência da vida ocorreu o distanciamento, a separação e praticamente encerrou-se a convivência.

Cada um seguiu seu rumo e, muito raramente, se teve notícias, uns dos outros. Depois de anos e anos recebendo, com parcimônia, as agradáveis, inevitavelmente uma hora teriam que aparecer as tristes, funestas.

Hoje o primo Natalino me informou o falecimento de sua sobrinha, a Vera, filha de sua irmã Luzia. Perguntou-me se eu a conhecia. Respondi que sim. E como, tendo em vista uma passagem ocorrida no início da década de noventa! Eu era major e trabalhava na Diretoria de Saúde da PMMG, próximo à Praça da Liberdade, quando ela e sua tia Margarida foram me visitar.

Bem... depois de muito conversarmos, e as duas se abrirem nos belos e largos sorrisos que as caracterizaram, Vera me fez uma consulta: estava terminando um curso de habilitação pra motorista e, tendo em vista minha posição de militar, perguntou se tinha jeito de eu "dar uma força", junto ao Detran. Respondi que isto era inviável, eis que os examinadores eram profissionais muito sérios e, se isso houvesse, seria exceção irregular...

As duas insistiram, pois tinham notícia de "alguma ajuda" a fulano e beltrano.  Tudo bem, disse eu, assim que você terminar o curso, me telefona que te dou o retorno. E lá se foram, as duas, certas que tinham dado seu recado. Cumprido a missão.

E não passou muito tempo... esquecendo, ou desprezando o telefone, as duas primas apareceram na minha sala de trabalho. Conversa pra lá e pra cá, surge a pergunta: - E a sua "ajuda" pro meu exame?  Desprevenido, respondi: - Uai, tá tudo certo. Chega na hora certa, calada, faz seu exame tranquila. Só tem uma coisa: - se você cometer um erro grave ele vai te reprovar. Não tem jeito!

-Tudo bem, primo... e, lá se foram as duas.

Dias depois, surgem, mais uma vez, à minha frente, no trabalho, as admiradas parentes. Pensei comigo... Ihhh, é o exame pra motorista! Meu Deus!!! Levantei-me, para recebê-las, com um sorriso amarelo, mais que desbotado, mas elas se adiantaram: - Primo, não te conto: - sou motorista habilitada, trouxemos um presente procê! Muito obrigado!!! 

E assim é a vida. Enquanto estive em Belo Horizonte, saí de lá em 1993, ainda vi a Vera umas duas vezes, se tanto. Depois disto, só notícias esparsas.   São trinta anos. Perdemos uma prima da melhor qualidade.  Vai fazer muita falta para os seus. Que Deus a tenha. Infelizmente, dizem, levada pela Covid, só dá ela! Ah... Verinha conseguiu sua Carteira Nacional de Habilitação por méritos próprios...