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quarta-feira, 24 de março de 2021

Cálice...

 Wilalba F. Souza           24/03/2021 

No início da década de sessenta, do século passado, e todo mundo conhece a história, os militares brasileiros assumiram o governo, com a aquiescência popular. Houve, sim, procura, às lideranças da esquerda, combate aos guerrilheiros guevaristas, comunistas, subversivos e outros, opositores à nova "gerência". Muitos foram presos, processados, outros exilados, para diversos países. Mas, grande número de contrários aos militares permaneceu por aqui mesmo, mormente intelectuais, jornalistas e artistas.

Em sessenta e seis fui para a Polícia Militar de Minas Gerais onde, mesmo durante cursos até depois de formado, nunca ouvi palestras ou recomendações a respeito de obras deste, daquele ou de qualquer artista, jornalista ou escritor, embora existissem apêndices da tropa instruídos e em condições de fazê-lo. Mas, lembro-me bem, de comentários soltos, rotineiros, a respeito de um e outro jornalista ou cantor. E não tem como se esquecer de Gonzaguinha e Chico Buarque, especialmente. Jovens, como nós, esses admiráveis compositores/cantores, com sua arte, "combatiam" o regime - dito de exceção -, do qual discordavam. Apesar de tudo, sempre os admirei, em razão da música, nunca por viés ideológico. O primeiro, dentre outras coisas, intérprete do samba "É" -... a gente não está com a bunda exposta na janela / pra passar mão nela...”; o segundo, por causa do “Cálice" -...pai, afasta de mim esse cálice / de vinho tinto de sangue... Ambas "desancavam" a censura oficial, decretada pelo governo à época.

Bem... o tempo passou, os civis reassumiram as rédeas. Em 1988 votaram a Constituição Cidadã. Depois de alguns tropeços de antecessores, Itamar Franco entrou no lugar do cassado Fernando Collor e, com o ministro Fernando Henrique, estabilizou a inflação, adotando o Real, moeda que utilizamos até hoje.

Exatamente em 2002 Luiz Inácio - o Lula - eleito presidente, foi empossado, com muitas promessas, dentre elas a de agir com máxima correção e honestidade, em prol do Brasil e do povo. Os primeiros quatro anos foram bons. O mundo econômico favoreceu, e o Real também. Reeleito, começaram a aparecer algumas mazelas, tipo mensalão, com Zé Dirceu, e outras dificuldades, advindas, também, do petrolão, etc.

Conseguiram, Lula e o sistema, eleger Dilma Rousseff, mesmo tendo o presidente contrariado, com a escolha, seus pares e assessores. Propala-se que com alto investimento financeiro espúrio.

A partir daí Brasil começou a despencar ladeira abaixo.  Por causa investigações da Lava-jato. Dilma foi cassada. O vice-presidente Michel Temer assumiu e passou a faixa presidencial para o desacreditado das pesquisas, mas vencedor, pelo voto, Jair Bolsonaro, eleito para ocupar a Esplanada.

Radical, como prometera, vetou verbas milionárias da imprensa televisada, financiamentos e cargos ministeriais ao "toma lá, dá cá, Congresso. Por isto não pode governar em 2019/20. A reação foi violenta, articulados Congresso, Supremo Tribunal Federal e Imprensa - o quarto poder.

Bem, seguindo essa história, em princípio de 2020, em plena pandemia, o STF tirou do governo federal a autoridade para coordenar seu combate, assumindo governadores e prefeitos. Seriam os encarregados disso. E, até hoje, batem cabeça sobre quem manda, em quê!

Na pratica a Corte Suprema Brasileira assumiu o protagonismo, em todos os setores. Já disse antes, virou até uma super delegacia policial. Implantou a censura, instaurou inquéritos, mantendo sob custódia, monitorados por tornozeleiras eletrônicas, jornalista e até um deputado que teria ofendido um dos ministros, o que é apelidado de xerife, por um dos pares. E não há onde nem como recorrer, pois esse tribunal é inviolável, intocável. Em decisão visivelmente política, recentemente soltou, anulando sua condenação confirmada em tribunais superiores, o ex-presidente Lula, além de considerar o ex-juiz Moro suspeito durante seus julgamentos na Operação Lava-jato.

Já não fazem Gonzaguinhas e Chicos como antigamente. O primeiro morreu, lamentavelmente, em um acidente de carro, há muitos anos; Chico Buarque ainda está conosco, claro que sem aquela expansividade, aquele brilho de outrora. Entretanto aproximou dele o amaldiçoado cálice de vinho tinto de sangue, oferecendo-o aos ministros do Supremo. Parece que esses algozes da Constituição Federal e ele estão do mesmo lado, adernando, perigosamente, o barco Brasil, para bombordo!!!


quinta-feira, 18 de março de 2021

A vaca está no brejo

 Wilalba F. Souza         18/03/21

Realmente, não dá pra entender. Não tem nexo. O prefeito Kalil - de Belo Horizonte - conhecido tranca ruas/fecha-tudo, em tempos de Covid-19, dia desses liberou um jogo do campeonato paulista (em São Paulo fora proibido), para o Mineirão. Estranhei, mas entendi: ele foi presidente do Atlético Mineiro e, desse ramo, entende. Mas, não é que o, pelo menos até então, equilibradíssimo governador Zema, de quem Kalil é "desafeto político", entrou na frente e proibiu! Troço mais esquisito!

No ano passado a pandemia estava assustando pouco, em Minas. Zema, o mineirinho, comemorou os baixos índices de contaminação, internamento e óbitos. Foi muito elogiado por alguns setores da imprensa, decidindo, por isto mesmo, desativar um hospital de campanha, construído para apoio à saúde e à emergência, por falta de uso. Detalhe: não gastou dinheiro público nessa empreitada. (doação, via FIEMG).

Enquanto isto, e já a partir de 2020, Kalil abriu sua caixa de ferramentas e, por causa da pandemia, começou a fazer sérias restrições ao comércio e às atividades de prestação de serviços. E, de lá pra cá, essa foi sua toada. E não tem como a população "dar a grita", presumindo serem em prol da vida, essas medidas, embora haja opiniões contrárias.

Lojas, academias de ginástica, salões de beleza, bares, restaurantes, clubes de lazer, teatro cinema, estádios de futebol... literalmente lacrados. Claro que há importante queda na renda e no emprego. Embora eu seja sensível a essa problemática e receoso da propagação da doença, penso que outros protocolos poderiam ser observados...

Na realidade as informações sobre a evolução pandêmica atual são falha, omissa e espalha o terror, em geral. Poderia, o sistema, divulgar, com mais precisão, as "causas-mortis" e com mais precisão ainda, sua faixa etária, com histórico, se possível, da comorbidade. Isto levaria a uma melhor prevenção das faixas de risco, deixando o pessoal produtivo trabalhar.

Nós brasileiros, por cultura, somos promíscuos na vida social. Abraçamos, trocamos beijinhos e, não poucas vezes, compartilhamos talheres, copos e outros objetos de uso pessoal. Se, com essa pandemia, temos nos policiado fora de casa, penso que lá, junto aos familiares, nada, mudou. E precisa. Porquê?

Porque, de modo geral, o que se observa, com poucas exceções, é que a grande maioria dos infectados não sabe informar como adquiriu a doença, lembrando que muita gente se infecta com o vírus e não adoece. É assintomática. Logo, mesmo dentro de casa, infelizmente, mas por necessidade, os cuidados são, sem exagerar, claro, importantíssimos, inclusive no compartilhamento de objetos.

Se a gente não se conscientizar sobre essas necessidades, essa vaca, que já entrou no brejo, não sairá dele tão cedo, e continuarão sendo decretadas as ondas roxas e negras pelos Zemas e Kalil, das Minas Gerais da liberdade, do mártir da Inconfidência Mineira.

terça-feira, 2 de março de 2021

O Capitão Argentino...

A inauguração do quartel novo do 9° BPM.

Wilalba F. Souza              02/03/2021

Eu tinha treze anos de idade. Numa bonita manhã de setembro, na primavera de 1960, recém chegado do interior, e naturalmente deslumbrado, me vi numa fila, com muitos coleguinhas do Colégio Tiradentes, em plena plataforma da imponente Estação Ferroviária de Belo Horizonte, esperando o embarque para Barbacena. 

Uma hora antes, lembro-me bem, do esforço despendido pelo diretor, Capitão Argentino Madeira, auxiliado pelos Tenente Manoel Doro e o admirável Sargento Efigênio, na organização do traslado, a partir do pátio da escola, nos fundos do DI, acesso pela Rua Platina, do grupo, formado por adolescentes agitados, em dois ônibus Somuá, antigos, fumacentos, com seus bancos de "pau", mas sempre muito úteis. A proximidade com o Departamento de Instrução nos embalava o sonho de um dia sermos alunos do CFO, espelhados nos garbosos cadetes pelos quais passávamos frequentemente.

Minha percepção, reforçada pela pouca idade, era de que tudo se apresentava como novidade e progresso. A Brasília de Juscelino estava pronta, os "Fuscas" circulavam pelas ruas e podíamos, às vezes, assistir os vídeos-tapes de Atlético e Cruzeiro pela televisão, do vizinho, em preto e branco! Quartéis novos estavam sendo construídos para as tropas da Polícia Militar, até então muito mal instaladas pelo interior.

Durante a viagem, muita festa. Alegria total, com lanches em meio a uma exposição de matulas, merendeiras e mochilas improvisadas. Dinheiro, poucos levavam. Por perto tive as companhias dos colegas Marco Antônio Gomide, Célio Fonseca, Lenir Santana, Gerken, Maroni, Jurandir, o "Didi", Viana, acho que do Flávio Furst, além do pequenino, mas veterano Silva Neto, que desfilava à frente do grupamento, com o símbolo do Colégio. O irrequieto Chelloti não dava sossego. Entre outros, se faziam presentes alguns, mais velhos, de turmas mais adiantadas, como o Almeida, o "Taco", além dos irmãos Elmo e Sebastião de Oliveira.

Alguns eram do interior e acompanhavam os pais, militares matriculados no CFOA - Curso de Formação de Oficiais de Administração, com a duração de três longos anos. Sacrifício demasiado para antigos sargentos e famílias, muitas vezes numerosas que, em ato de formidável superação, sagraram-se aspirantes.

Mas, voltando à viagem, depois de embarcados seguimos serpenteando até nosso destino, contornando as montanhas, num espetáculo natural de grande beleza, pontuado por paisagens bucólicas intocadas, das quais ainda deve ter sobrado alguma coisa, se poupadas pela devastação, encomendada em razão do progresso. Hoje em dia é impossível refazermos o mesmo trecho, em viagem regular, por ferrovia. Uma pena!

Somente ao desembarcarmos na "Cidade das Rosas", que não estava tão fria quanto sua fama poderia indicar, fiquei sabendo da nossa participação nas solenidades de inauguração da nova sede do "Sentinela da Mantiqueira". Do alto de uma colina, um prédio de linhas arrojadas, belíssimo, se projetava - eram tempos de Niemeyer -, uma novidade para todos nós. Um legitimo marco de modernidade.

Orgulhosamente desfilamos pelas ruas centrais. Afinal, mesmo garotos, sabíamos marchar e nossos uniformes estavam impecáveis. Recebemos calorosos aplausos da população acumulada pelas calçadas. Um pessoal educado, contido, de postura compatível com o aspecto histórico que a cidade ainda conservava.

Após, grande "batalha" juvenil pelo alojamento, de noite mal dormida, onde os travesseiros foram transformados em armas ineficientes, que motivaram broncas, e muitas, da diretoria!

       No regresso, sossego, muito bocejo e todo mundo cansado. Hoje nos resta a lembrança singela, singelo patrimônio, na memória daqueles que viveram, com jovial intensidade, um excelente passeio, seguido de marcante evento da Corporação Tiradentes, que nos anos seguintes acolheria muitos de nós.

Por ironia do destino, logo no início de 1963, meu pai, o Aspirante Alceu de Souza, foi classificado no 9° BPM. Daí a três anos, reforçando o entendimento anterior, fui me encontrar, no Departamento de Instrução, com a "turma do trem". Se não com toda, garanto que com boa parte dela, como Furst, Célio Fonseca, Xisto, Gomide, Lenir e outros. E lá me deparei, com os já meio caidinhos, mas ainda ativos, fumacentos "Somuá", de boas lembranças. Importante é que, muitos de nós, seguindo a trilha dos pais, e ao final da década, alcançamos o aspirantado.

Depois de muito tempo, e andanças, fixei-me, com a família, em Barbacena. Por duas vezes servi no 9° BPM, cuja história destaca homens do nível do Coronel Octavio Batista Diniz e do Capitão Médico João Guimarães Rosa. Às vezes, quando visito a Sala do Comando, onde é exposta a Galeria dos Comandantes, sempre me detenho em frente aos retratos dos coronéis Antônio Eustáquio de Almeida e Célio Fonseca Furtado, dois dos integrantes do Comboio do Capitão Argentino Madeira, singular timoneiro, de gratíssima lembrança, ele que desembarcou passageiros por outras estações, responsável que foi pela nossa prazerosa participação na história do 9° BPM e da Polícia Militar do Estado de Minas Gerais.

                             9º BPM - Barbacena


            Academia de Polícia Militar – Belo Horizonte