Pesquisar este blog

terça-feira, 2 de março de 2021

O Capitão Argentino...

A inauguração do quartel novo do 9° BPM.

Wilalba F. Souza              02/03/2021

Eu tinha treze anos de idade. Numa bonita manhã de setembro, na primavera de 1960, recém chegado do interior, e naturalmente deslumbrado, me vi numa fila, com muitos coleguinhas do Colégio Tiradentes, em plena plataforma da imponente Estação Ferroviária de Belo Horizonte, esperando o embarque para Barbacena. 

Uma hora antes, lembro-me bem, do esforço despendido pelo diretor, Capitão Argentino Madeira, auxiliado pelos Tenente Manoel Doro e o admirável Sargento Efigênio, na organização do traslado, a partir do pátio da escola, nos fundos do DI, acesso pela Rua Platina, do grupo, formado por adolescentes agitados, em dois ônibus Somuá, antigos, fumacentos, com seus bancos de "pau", mas sempre muito úteis. A proximidade com o Departamento de Instrução nos embalava o sonho de um dia sermos alunos do CFO, espelhados nos garbosos cadetes pelos quais passávamos frequentemente.

Minha percepção, reforçada pela pouca idade, era de que tudo se apresentava como novidade e progresso. A Brasília de Juscelino estava pronta, os "Fuscas" circulavam pelas ruas e podíamos, às vezes, assistir os vídeos-tapes de Atlético e Cruzeiro pela televisão, do vizinho, em preto e branco! Quartéis novos estavam sendo construídos para as tropas da Polícia Militar, até então muito mal instaladas pelo interior.

Durante a viagem, muita festa. Alegria total, com lanches em meio a uma exposição de matulas, merendeiras e mochilas improvisadas. Dinheiro, poucos levavam. Por perto tive as companhias dos colegas Marco Antônio Gomide, Célio Fonseca, Lenir Santana, Gerken, Maroni, Jurandir, o "Didi", Viana, acho que do Flávio Furst, além do pequenino, mas veterano Silva Neto, que desfilava à frente do grupamento, com o símbolo do Colégio. O irrequieto Chelloti não dava sossego. Entre outros, se faziam presentes alguns, mais velhos, de turmas mais adiantadas, como o Almeida, o "Taco", além dos irmãos Elmo e Sebastião de Oliveira.

Alguns eram do interior e acompanhavam os pais, militares matriculados no CFOA - Curso de Formação de Oficiais de Administração, com a duração de três longos anos. Sacrifício demasiado para antigos sargentos e famílias, muitas vezes numerosas que, em ato de formidável superação, sagraram-se aspirantes.

Mas, voltando à viagem, depois de embarcados seguimos serpenteando até nosso destino, contornando as montanhas, num espetáculo natural de grande beleza, pontuado por paisagens bucólicas intocadas, das quais ainda deve ter sobrado alguma coisa, se poupadas pela devastação, encomendada em razão do progresso. Hoje em dia é impossível refazermos o mesmo trecho, em viagem regular, por ferrovia. Uma pena!

Somente ao desembarcarmos na "Cidade das Rosas", que não estava tão fria quanto sua fama poderia indicar, fiquei sabendo da nossa participação nas solenidades de inauguração da nova sede do "Sentinela da Mantiqueira". Do alto de uma colina, um prédio de linhas arrojadas, belíssimo, se projetava - eram tempos de Niemeyer -, uma novidade para todos nós. Um legitimo marco de modernidade.

Orgulhosamente desfilamos pelas ruas centrais. Afinal, mesmo garotos, sabíamos marchar e nossos uniformes estavam impecáveis. Recebemos calorosos aplausos da população acumulada pelas calçadas. Um pessoal educado, contido, de postura compatível com o aspecto histórico que a cidade ainda conservava.

Após, grande "batalha" juvenil pelo alojamento, de noite mal dormida, onde os travesseiros foram transformados em armas ineficientes, que motivaram broncas, e muitas, da diretoria!

       No regresso, sossego, muito bocejo e todo mundo cansado. Hoje nos resta a lembrança singela, singelo patrimônio, na memória daqueles que viveram, com jovial intensidade, um excelente passeio, seguido de marcante evento da Corporação Tiradentes, que nos anos seguintes acolheria muitos de nós.

Por ironia do destino, logo no início de 1963, meu pai, o Aspirante Alceu de Souza, foi classificado no 9° BPM. Daí a três anos, reforçando o entendimento anterior, fui me encontrar, no Departamento de Instrução, com a "turma do trem". Se não com toda, garanto que com boa parte dela, como Furst, Célio Fonseca, Xisto, Gomide, Lenir e outros. E lá me deparei, com os já meio caidinhos, mas ainda ativos, fumacentos "Somuá", de boas lembranças. Importante é que, muitos de nós, seguindo a trilha dos pais, e ao final da década, alcançamos o aspirantado.

Depois de muito tempo, e andanças, fixei-me, com a família, em Barbacena. Por duas vezes servi no 9° BPM, cuja história destaca homens do nível do Coronel Octavio Batista Diniz e do Capitão Médico João Guimarães Rosa. Às vezes, quando visito a Sala do Comando, onde é exposta a Galeria dos Comandantes, sempre me detenho em frente aos retratos dos coronéis Antônio Eustáquio de Almeida e Célio Fonseca Furtado, dois dos integrantes do Comboio do Capitão Argentino Madeira, singular timoneiro, de gratíssima lembrança, ele que desembarcou passageiros por outras estações, responsável que foi pela nossa prazerosa participação na história do 9° BPM e da Polícia Militar do Estado de Minas Gerais.

                             9º BPM - Barbacena


            Academia de Polícia Militar – Belo Horizonte




Nenhum comentário:

Postar um comentário