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quarta-feira, 14 de julho de 2021

Autos conclusos: foi o "Chico Forte", mesmo!!!

 Wilalba F. Souza           14/07/2021 

O tempo passa e, às vezes, acabamos perdidos entre fracos relatos, sem respostas a singelos e interessantes questionamentos, sobre curiosidades da nossa história, inclusive familiar, se assim podemos nos expressar, em relação à instituição Polícia Militar de Minas Gerais, onde nascemos, fomos formados e servimos, por longos anos.

Minha vida, e de minha família, sempre orbitaram em torno das cidades de Belo Horizonte, onde nasci, Governador Valadares, terra natal da maioria de meus sete irmãos, e Barbacena, localidades onde habitamos em algumas oportunidades.

Então vamos logo pontuar a questão: servi, de aspirante a capitão, no 6° Batalhão da PMMG (Governador Valadares), em novíssimo quartel, construído nas décadas de 50/60. E, da mesma forma, nos mesmos postos, em outras oportunidades, no 9° BPM (Barbacena), já instalado em sede construída à mesma época.

De 1956 a 1961 os governos de Juscelino, (presidente mineiro), coronel médico da nossa Corporação, e Francisco José Bias Fortes (governador barbacenense) alavancaram o desenvolvimento de Minas Gerais, em incontáveis frentes. Entre muitas obras, mandaram edificar, também, alguns quartéis novos, nas localidades onde a tropa mineira tinha sérias carências. Os projetos arquitetônicos e seus cálculos estruturais, bastante avançados e, mais que isto, belíssimos, foram trabalhados por oficiais especialistas da própria PM. Um orgulho enorme, pra nós!

E, durante nossas andanças entre 6° e 9° BPM (coincidência, a inversão gráfica do 6 e do 9), principalmente na terra dos Andradas e dos Bias, sempre alguém comentava: - a planta arquitetônica do 6° BPM, que seria edificada em Governador Valadares, foi "desviada" para Barbacena pelo Governador José Francisco Bias Fortes. A daqui está executada lá! E, sem maiores questionamentos, o que percebíamos é que, realmente, poderia haver uma razão: a fachada da "Sentinela da Mantiqueira" era, e continua sendo, belíssima. Por outro lado, os milicianos valadarenses do "6° do Bravo Torres", felizes em seu quartel novinho, também bonito, nunca comentaram, ou souberam, a respeito dessas especulações. Afinal, eu nunca ouvira deles qualquer abordagem sobre a tal permuta "forçada". Pra quem esteve aquartelado, por alguns anos, em rústicos barracões de madeira, às margens do Rio Doce, deixados pelo DNER, que pavimentara a BR-116, na década de quarenta, o prédio do Bairro de Lourdes era, literalmente, um palácio.

Recentemente, a propósito de um mural do artista italiano Alfredo Mucci, existente na fachada do 9° BPM, sobre o qual escrevi breve texto, lido pelo escritor, pesquisador e membro da Academia de Letras João Guimarães Rosa, meu colega de turma, do Curso de Formação de Oficiais de 1969, Ten.cel João Bosco de Castro, foi por ele relatado:

- Os coronéis, arquiteto, Walter Machado e engenheiro, Paschoal Silvestre, foram encarregados desses projetos. E neles trabalharam incansavelmente. O primeiro, que eu sempre visitava em sua residência, em Belo Horizonte, à rua Paraíba, não cansava de se lembrar da irresponsável e lamentável troca, aliás de péssimo-gosto, por ele atribuída ao “Chico Forte”, Governador José Francisco Bias Fortes.

Assim, claro que, mesmo sem encerrar o assunto, considero definitivamente esclarecida essa pendenga. Sempre respeitando a biografia do meu admirado "Chico Forte" (em 1958 concedeu a paridade de vencimentos entre pessoal da ativa e reserva), dou razão ao também saudoso coronel Walter Machado, que sempre fez críticas, nesse ponto, ao ato regionalista do governador.

O quartel barbacenense dispõe de amplos salões, ligados por enormes corredores e funcionais portas, além de janelas que proporcionariam excelente aeração aos soldados de Governador Valadares (altitude: 170 m h), no leste mineiro, e onde as temperaturas, por todo o ano, ficam acima dos 30 graus centígrados. Some-se a isto a sua maior dimensão, pois seu efetivo era bem expressivo.

O projeto que Bias Fortes mandou executar lá - conhecemos suas instalações, também - contempla ambientes mais fechados, com salas, alojamentos e outras repartições pouco arejadas, de pé direito um pouco mais reduzido, equipadas com "basculantes", inteligentemente dimensionados, objetivando proteção contra os ventos e o frio cortante no alto da colina, na Barbacena das Mantiqueiras (1160m/h), capazes de congelar nossos ossos! Mal comparando, é como se distribuir trajes de praia para um passeio em Bariloche, e capotão, com luvas e tudo, num verão de Copacabana! Enfim, sempre achei tudo isto muito interessante!

6° BPM - Gov. Valadares

9° BPM - Barbacena



segunda-feira, 5 de julho de 2021

Caminhada de histórias. Baixou o caboclo!

 Wilalba F. Souza           05/07/2021

Faço caminhada todos os dias. E dela participam alguns colegas.  E a gente escuta muitas histórias.  Eis uma delas, contada por um sargento veterano. E ele inicia assim:

- Chefe, certa vez, de serviço, fui acionado a comparecer em uma casa da zona boêmia de Mariana. Recomendei ao soldado Carlos, motorista da guarnição, composta por nós dois, que para lá dirigisse a viatura. A Sala de Operações informara que um indivíduo surtara e estava "botando terror" nos frequentadores.

- Depois de estacionarmos abordei, do lado externo, o pessoal da "gerência" que relatou ter um homem - freguês antigo - corrido com todo mundo, e que ele, um "negão" com dois metros de altura, estava lá dentro. Sim, num salão grande, com acesso estreito aos quartos!

- Chamei o colega e, empunhando um cassetete tamanho família, fui entrando no ambiente, sob penumbra, segurando, firme, o "prolongamento" do braço. Pouco se podia ver, e eu, nos meus 1.59 m de altura, comandante da guarnição, não podia recuar. A platéia, antes amedrontada, com a polícia por perto, criou coragem e aproximou-se da entrada. Pé por pé, avancei, "cabreiro", todo arrepiado, sô! Dos lados, mesas desarrumadas; à frente, o corredor escuro, entrada para a área de lazer, digo, dos quartos. E eu, pensando alto: - gente, onde está o cara? Pra quê? De repente, do nada, apareceu o gigante! Tremi. O sujeito esticou seu braço e me tomou o cassetete, gritando com uma voz estranha: - me dá esse porrete, baixinho!

- Não sei como, consegui catar uma cadeira, dessas de plástico, e a coloquei acima da cabeça, pois o "cara" resolveu me bater com o cassetete. Sobrou plástico prá todo lado. Na confusão - coisa de Deus - caímos no chão e eu já "engastaiado" numa gravata no seu pescoço suado. E ele se "estrebuchando". Tirei força não sei de onde! Se afrouxo a "pitanga", ele me mata, Jesus!!!  Maaaarcos, gritei! Me acode, seu fidumaégua! Ao longe ouvi de uma voz feminina: - vou buscar a benzedeira, "seu" cabo. Esse moço tá com um caboclo Exu qualquer baixado! -  Putamerda! Tudo bem, gemi! Mas chama, também, o Marcos... “pelamordedeus”!!!!

- Quando eu estava pra entregar os pontos chegou o soldado, me ajudando a algemar e amarrar as pernas do desordeiro. Mas o indivíduo continuou inquieto, agitado e "babando". Nisto uma das mulheres presentes - sempre elas - falou: - cabo, toma, joga essa cachaça nele que o espírito acalma. Não deu outra, foi uma dose só, no rosto, e o pocesso amansou. Incrível! Só que a tal entidade fantasmagórica passou pra dita mulher que trouxe a pinga. Ela teve uns ataques estranhos: começou a dançar, a pular, com os olhos vermelhos, esbugalhados, cabelos "desengranhados" e a rolar pelo chão. Literalmente, o ambiente virou uma zona...

- Coronel, continuou o colega, a Mercedes, benzedeira, quando chegou, percebeu que o tal espírito já saíra da mulher e se reinstalara no negão, que nós mantínhamos, com dificuldade, imobilizado. Insistente, ela ficou por mais ou menos uma hora fazendo seu trabalho, rezando mil orações, dando uma centena de passes e relando o negão com uns raminhos de arruda! E não é que ele acabou ficando mansinho, tranquilo, meio que atordoado!

Sem me descuidar, atento, desarmei o soldado Marcos e o mandei, por via de dúvidas, buscar reforço. Um tempão depois, num ambiente quase normalizado, sob certo controle, encerrei a ocorrência no local, liberando o camarada ao seu pessoal, aos seus parentes.

- Mas Zé Maria, o seu motorista/patrulheiro te deixou na fria. Merecia uma comunicação disciplinar, disse eu!

- Comandante, ele sempre foi bom de serviço e se justificou. Confessou-se cavalo de macumba e que correra pra evitar que aquele espírito mau o tomasse! Sabe, chefia, não teve jeito, após esse oportuno esclarecimento, e naquele clima adverso, não tive dúvidas, cuidei de mim: desarmei o parceiro. Vai que aquele Caboclo monta nele!!! Risos... a valer!!!

domingo, 4 de julho de 2021

Em Alfredo Mucci, quem manda é o IPHAN

 Wilalba F. Souza               04/07/2021

Há muitos anos frequento o 9° BPM / PMMG - Barbacena, onde servi por duas vezes: como tenente e capitão. É, o prédio, um dos marcos de modernidade, ou contemporaneidade, do município, junto com o Colégio Estadual. Tempos de Juscelino e Bias Fortes. Em sua fachada há um mural muito bonito, inspirado em Tiradentes, nosso alferes, protomártir da Independência, coadjuvado por uma torre, ou obelisco, bem alto, encimado por um globo, referência da cidade, especificamente de uma de suas antigas praças.

Sempre pensei, simploriamente, por boataria interna, que se tratava de uma obra de artista nosso, cabo ou sargento. Seria muita pretensão? Certo é que, anos após anos, essa obra de arte vem se desfazendo, ruindo com o tempo, já que as peças, em ladrilho (pastilhas) se descolam. Realmente uma perda inestimável. Recentemente fiquei sabendo que o mural é tombado pelo IPHAN. Ninguém pode tocar nele, sem autorização expressa.

O autor, Alfredo Mucci, artista italiano premiadíssimo, morou por muitos anos no Brasil e deixou, por aqui, inclusive em Belo Horizonte, incontáveis criações, principalmente murais. Mas era, também, pintor. Chegou em Barbacena, a convite, na década de cinquenta, vindo do sul de Minas, e conviveu até com o famoso francês, escritor, artista e monarquista convicto, Georges Bernanos, nome de museu, aliás mal cuidado, perto de onde moro.

Enfim, para reconstituir a obra de Mucci estão trazendo um competente restaurador do Rio Grande do Sul, deixando de lado a ideia (aliás proibida) de usar mão de obra interna!  Valor aproximado do sensível trabalho: R$400.000,00. Do orçamento do IPHAN, lógico!

Se tudo der certo vamos sugerir e convidar, claro que com a aquiescência do Comando, a "Turma do Tiradentes", de 1960, para a festa. Afinal, estávamos aqui, ao vivo e a cores, há sessenta e um anos.