Wilalba F. Souza 11/05/23
Em 1963
(eu tinha 15 pra 16 anos) minha família veio pra Barbacena. Fui estudar no
Colégio Estadual, de prédio novinho, um luxo pra poucos. Qualidade de ensino
excelente, num tempo que professores eram valorizados e tinham status social
diferenciado.
Adolescente
e curioso, fiz boas amizades e, na Rua XV de novembro, ia com minha
"patota", aos sábados à noite, pra ver as "meninas" no
"footing" semanal e, quem sabe, arrumar uma namoradinha. Quando tinha
uns trocados, parava na lanchonete "Gino's" para comer um
misto-quente, acompanhado de uma coca.
Tempos
difíceis. Os alunos da EPCAR (Escola Preparatória de Cadetes do Ar) eram
liberados, nos fins de semana para dar um passeio. E só podiam andar fardados.
Os garotos, de "boa pinta", bem cuidados, muitos deles cariocas, uniformes
azuis, bem cortados, impecáveis, nada deixavam para nós, "pés de
rato". Então, nada a fazer, senão voltar pra casa conformados, afinal, com
aqueles "almofadinhas" era difícil concorrer.
Por outro
lado, as moças que namoravam os alunos - futuros cadetes - eram logo taxadas de
"cadeteiras", uma forma jocosa de menosprezá-las e desanimá-las pois,
terminado aquele segundo grau, iam embora para a AFA (Academia da Força Aérea),
em Pirassununga, São Paulo, dificilmente voltando à "terrinha".
Dois, ou
três anos depois, fui para BH, fazer o Curso de Oficial da PMMG e, tempos
depois, voltei a Barbacena, como segundo tenente. Tudo continuava mais ou menos
a mesma coisa. Mas a "estudantada" de outros estabelecimentos, como
os alunos da Escola Agrícola (hoje IFET - Instituto Federal de Educação Ciência
e Tecnologia), integrada por estudantes de várias regiões do Brasil, portanto
menos provincianos, começaram a reagir aos "cadetes", disputando, com
eles, as garotas, ditas "cadeteiras". E, não poucas vezes, a Rua XV
se transformava numa praça de guerra, com briga generalizada, entre grandes
grupos dos dois estabelecimentos, exigindo a presença da PM e da PA (Polícia da
Aeronáutica).
Certa
feita, meu colega, tenente da PM, César Braz Ladeira, estava de Oficial de Dia
no 9° BPM, quando foi solicitado por causa de uma dessas contendas. Ele,
acionando um motorista com viatura, sem outros meios ou apoio, dirigiu-se para
a região do conflito, no centro da cidade, nas imediações do Cine Palace,
imaginando o que poderia fazer. Assim que estacionou, viu que os estudantes
civis, numerosos, acuavam os militares, também em bom número, dentro de um
estabelecimento qualquer. Claro que, com a presença, mesmo que em ínfimo
efetivo, da polícia, a turba civil deu uma trégua, iniciando a dispersão.
O tenente
César, de forma inusitada, raciocinando rápido, virou-se para os militares,
levantou o braço direito e mostrando três dedos da mão, comandou: - ALUNOS, EM
FORMA! Rapidamente, os jovens aspirantes
a cadete entraram à sua retaguarda, num grupamento em coluna por três! O
segundo comando foi de "ordinário, marche", em deslocamento,
disciplinado, até a EPCAR, distante, dali, um quilômetro. No Portão das Armas, já
aguardava o 1°ten Aer. Milton Resende de Souza, nosso ex-colega de ginasial do
Colégio Estadual.
- Boa noite, César, o que houve?
- Oi Milton! Nada demais, sô!
Apenas uns desentendimentos juvenis entre "seus" cadetes e os meninos
da Agrícola. Depois mando um relatório pro comando de vocês...
E sobre
essa história de BQ - Barbacena querida, fui saber anos depois. Era, e é, como
os ex-alunos da EPCAR costumam se referir à cidade. Já cheguei a pensar ser
isto uma espécie de blague, ou gozação criada por eles, para se referir à
localidade. Mas já revi essa sensação, eis que os próprios "oriundis"
já assimilaram a homenagem. E, por fim, não é muito comum vermos alunos da EPCAR
transitando fardados pelas ruas. Podem
sair civilmente trajados e, também, não há, mais, brigas na disputa pelas
moças. As cadeteiras? Respondo: - não existem mais e os casamentos de oficiais
com as barbacenenses são comuns. Então, viva a paz!