Wilalba F. Souza 23/outubro/2.015
Dia destes o Aeroclube de Lavras, via ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil), transferiu de Barbacena, para aquela cidade vizinha, duas aeronaves históricas que, por muitos anos, serviram na formação de muitos pilotos “paisanos” da região. Há quem diga que esse avião foi um dos melhores treinadores brasileiros, utilizado inclusive pela Força Aérea Brasileira nas décadas de 50, 60 e 70. Teve grande número de unidades fabricadas a partir de 1941, pela (CAP) Companhia de aviação Paulista, que, transferiu mais tarde, a concessão para a NEIVA, outra fabricante, que continuou a produzi-lo. Quando criança não me cansava de admirá-los no aeroporto poeirento de Governador Valadares. Um aparelho de asa alta com armação de aço, coberto por uma tela especial, parecendo uma lona encerada. Vazio pesa pouco mais de 400 quilos, tendo um lugar na frente, outro atrás.
Nada demais não fossem os dois aviões de grande representação histórica para a cidade, que, ao longo dos tempos, assiste o desmoronamento daquilo que foi construído pelos nossos antepassados. Me contaram que quando estava no aeroporto de terra, denominado “Campo de Aviação”, e em tempos bem mais difíceis, o Aeroclube era mais considerado. Dividiam, seus pilotos, a pista desconfortável, com os militares da FAB. Construído na periferia, o novo aeródromo, de piso asfáltico, autorizaram os pilotos civis a transferirem para lá seu hangar. O velho deu lugar ao Parque de Exposições. Ocorre que esta mudança, feita apenas com a “garantia de fio de bigode”, deu com os burros n`água, eis que a Federação, quase certo que acionada pela Aeronáutica, requereu, na Justiça, reintegração de posse, impedindo, assim, por muitos anos, investimentos, tendo em vista a insegurança jurídica provocada por aqueles que se consideram donos absolutos do “campo de aviação” novo. Mesmo assim, a batalha ainda estaria sendo desencadeada! Ocorre que...
Conheci Henrique mais de perto há poucos anos, quando ia ao aeroporto ver em ação os aeromodelistas. Moço simpático, brincalhão, sempre foi amigo de todos e comigo não foi diferente, desde o dia em que, mancando com uma bengala a escorá-lo, confessou ter problema com crises de gotas. Dei-lhe umas dicas para amenizar seu sofrimento e indiquei-lhe meu médico. Nunca mais o vi mancando. Mas, em papos num barzinho que lá funcionava, suas reclamações contra as autoridades aeronáuticas locais eram constantes e permanentes. Armaram um cerco, segundo ele, para defenestrar o Aeroclube de Barbacena, instituição que foi criada por aqui bem antes da chegada desse setor militar. Por falta de condições para expandir o hangar, vários empresários interessados em adquirir aeronaves desistiram. Como proteger tais investimentos? Assim, por falta de espaço, os dois Paulistinhas CAP foram dependurados no teto, dando lugar, embaixo, para três ou quatro aeros pequenos.
O Comando Aeronáutico local conseguiu, disse-me ele, interditar o curso de paraquedismo que era ministrado por instrutor credenciado, alegando que o seu Regente, pequeno avião adaptado para isto, não integrava condições para tal atividade. E sabemos como é: contra tal força tem que opor muita resistência. Em seguida o comandante da EPCar proibiu, definitivamente, o uso de pequena parte da pista por aeromodelistas em horários mortos. Sua alegação, para isto, e eu assisti pessoalmente, era que “aquela dona”, disse, apontando para o retrato da presidente da República na parede de sua sala, estava planejando fazer investimentos no aeródromo para desenvolver a aviação civil regional, algo, segundo soube depois, em torno de 60 milhões de reais. Claro que nada disso aconteceu pois, segundo se propala, o prefeito se desinteressou pelo assunto. Muitos outros municípios de beneficiaram. O nosso, NÃO! -Porquê? Certamente ele, o prefeito, sempre saberá dar uma resposta, embora não sejamos obrigados a”engolir” tão “fortes” argumentos. Me parece que, para os militares, isto, os investimentos federais, seria nada interessante, sabe-se lá o motivo!
Há alguns meses, numa fatalidade, o nosso piloto Henrique – presidente lutador do Aeroclube - faleceu num acidente aéreo em pouso forçado, perto do aeroporto de Conselheiro Lafaiete, quando a aeronave pilonou e sofreu pouquíssimos danos. Num procedimento que me disseram correto, ele retirou o cinto de segurança antes de tocar ao chão. Saiu pelo para-brisa e foi esmagado, lamentavelmente. Acabou a luta pelo Aeroclube. Ninguém se animou a assumir aquela luta difícil, quase perdida, ou totalmente perdida, pela falta de interesse político daqueles que foram eleitos para defender nossas coisas. Assim, fica o excelente aeroporto exclusivamente para os poderosos militares, que tomarão conta de uma obra cara e definitivamente ociosa, coisa mais que parecida com a vasta área do município que eles ocuparam, ao longo dos anos, no centro da cidade e que nos “atravanca” o futuro. São práticas de Barbacena que, por falta de cuidados com seu passado e suas coisas, está cada vez mais pobre! E lá se vão os nossos Paulistinhas para Lavras. Estão sendo recebidos com festas. Vão ser recuperados e voltarão a cumprir seu destino: Voar, voar e voar, para depois serem expostos como verdadeiras relíquias que são, por alguém que ainda sabe preservar sua cultura!