Pesquisar este blog

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Açougue Cruzeiro



Wilalba F. Souza                                                         13/out/15


Meu pai, Alceu de Souza, teve dois irmãos. O mais velho, José Cesário, nascido bem no início do século passado, sempre foi agricultor. Homem  rude, sério e de sorriso difícil, praticamente criou os mais novos, na ausência de seus pais, dos quais nunca tivemos muitas notícias. Cesário trabalhou de empregado em culturas de hortaliças, comuns no local  ocupado hoje pelo Aeroporto da Pampulha, de onde se abastecia o antigo Mercado Municipal de Belo Horizonte. A produção vinha até a jovem capital no lombo de burros. Com muito sacrifício, tempos depois, conseguiu comprar um pequeno sítio em Vespasiano, na beira da estrada, continuando a calejar suas mãos para sobreviver. De vida exemplar, sempre o admirei pela sinceridade e honestidade, predicados hoje em dia meio difíceis de encontrar nas pessoas.

Quando me mudei para Belo Horizonte, em mil novecentos e sessenta e seis, para fazer o Curso de Formação de Oficiais da Polícia Militar, ia com frequência à sua casa e, não poucas vezes, o ajudava a separar verduras, amarrá-las para, em seguida, colocá-las em caixas engradadas que um caminhão pegava, ainda cedo. Vespasiano ainda guardava um aspecto bucólico, tranqüilo, e dava muito prazer em ficar por lá por um ou dois dias. Nos fins de semana, ao sábado, Cesário ia para a ”cidade”, a pé. Eu às vezes o acompanhava. Primeiro ia à barbearia “desfazer a barba” e, após, comprar carne de boi. Na volta passava, só para cumprimentar, alguns sobrinhos “adotados” e um ou outro amigo bem antigo. Hoje Vespasiano não tem mais graça. É um lugar como outro qualquer. Não poucas vezes, e anos adiante, como tenente, ia visitá-lo e à minha madrinha Ilda. Não tiveram filhos, mas ajudaram muitas crianças a crescer. Costumava levá-los, no meu Karmann Ghia, para comprar pão em Belo Horizonte. Pessoas simples, adoravam fazer aquela “viagem”. Os dois faleceram em paz, lá mesmo em Vespasiano. Foram felizes. E como!!!

Alceu, meu pai, o admirava muito. Meio perdidão em Belo Horizonte, depois de passar por alguns serviços, em tempos do governo Getúlio, resolveu, por sugestão de um conhecido membro da Força Pública de Minas, ingressar na “gloriosa”, como a chamamos. Isto foi lá pelos anos de mil, novecentos e trinta e sete. Depois de servir no Batalhão de Guardas peregrinou por uns Distritos Policiais até ser destacado no interior. Esteve em Conselheiro Pena, Itanhomi e outras localidades do Vale do Rio Doce, até ser promovido a sargento e, após o curso em Belo Horizonte, retornou ao Vale, não sem antes comandar o Destacamento em Antônio Dias. Governador Valadares foi seu destino, no final da década de quarenta, com a mulher e três filhos. Fez, na “Princesa do Vale”, uma bela carreira de praça, até mil, novecentos e sessenta, quando foi convocado para cursar o oficialato. Transferido para a reserva em sessenta e sete, após cumpridos quatro anos no 9º BPM de Barbacena, retornou para Valadares, no posto de capitão, onde morou até o final de seus dias.

Em plena Segunda Guerra Romeu, o mais novo, foi servir o Exército no 10º RI, da Capital, isto anos depois dos embates em que a Milícia Estadual sitiou e derrotou as tropas federais, na década de trinta. Terminado seu tempo, meu tio também entrou para a Polícia Militar. Ainda garoto, lembro bem, ele chegou com sua família, acho que já tinha umas quatro das sete filhas que conheci. Foi morar em frente de nossa casa, na rua Belo Horizonte, da calorenta Valadares. Ele e sua mulher, tia “Totonha”, e as filhas eram diversão pura. Ela bem mais alta que ele, dava as ordens. É o que diziam. O Cabo Romeu, por um bom tempo, foi encarregado do trânsito na cidade e muitíssimo competente naquilo que fazia. Anos depois o comando o transferiu para Ipatinga, onde, sargento, foi organizar o setor municipal de trânsito, sob o comando do major Klinger Sobreira, primeiro comandante do 14º Batalhão da progressista cidade industrial.  Terminou seus dias por lá mesmo, depois de criar suas sete filhas e seu único filho, Romeuzinho.

Romeu, atleticano daqueles mais conhecidos na cidade do aço, era muito assediado por amigos e conhecidos em razão de sua preferência clubística. Diferente do meu pai, também atleticano, ele fazia  muito “barulho” após os jogos. Um de meus irmãos, Valuce, morou com ele quando empregado na Usiminas. Dele guarda muitos e inesquecíveis momentos da família que o ajudou na vida. Minha irmã Déia nos contou que Romeu, ainda bem novo, e antes de ir para o Exército, trabalhava em um açougue no bairro Barro Preto, onde também existia a tal Casa de Correição, um presídio estadual e o Campo do Palestra Itália. Em tempos de guerra, tendo em vista que a Itália de Mussolini se aliara à Alemanha, portanto sendo considerada inimiga, houve quem caçasse italianos, como nos EUA fizeram com japoneses. Numa bela manhã, chegando ao seu trabalho, Romeu viu a que a placa indicativa do comércio sumira. Uma placa grande, por sinal. O Açougue Cruzeiro ficara sem nome. E não é que os dirigentes italianos do Palestra Itália tinham “roubado” a placa! Com pressa, cortaram a palavra açougue e substituíram a antiga, de seu clube, apenas com a palavra “Cruzeiro”!!! Olha aí!!! E a “cruzeirada” nada sabe ou fala a respeito!!!


Nenhum comentário:

Postar um comentário