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quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Arautos das Ilusões

      

Wilalba F. Souza                                                                                26/11/15

Terminando este ano de 2.015 e seguindo a mesma linha dos políticos que denominaram, ou apelidaram, de agenda, um programa ou uma pauta de ações governamentais que mantenha o país nos trilhos do desenvolvimento, nos ocorre fazer algumas considerações. Sobre os desastres e desandos ambientais e políticos basta qualquer um ligar o rádio, TV ou ler um jornal que as coisas se escacaram à sua frente. Há dois anos estamos parados, inertes e engatados na marcha-ré,  enfrentando dificuldades financeiras e macro-problemas econômicos. Se nada literalmente anda, o comércio não se desenvolve, a população não tem renda para consumir, a produção cai, o Estado também fica sem condições de investir e “lubrificar” a máquina. Assim, vemos, está tudo emperrando.

Certamente que esta corrida pelo poder político não tem sido nada saudável na “terra brasilis”. Quase que sem exceção o político brasileiro aprendeu e executa a fórmula mais fácil para conseguir votos: vende ilusões e foge da realidade, levando os eleitores a embustes inomináveis. Depois de eleitos, todos temos que aturá-los, sem saída, em nome da democracia, que em nossa terrinha, já disse, está meio cambeta. A maioria das promessas feitas pelo governo que aí está comprova que  vivemos de engodo e nos acostumamos com essa prática.

Ontem o senador, líder o governo naquela câmara alta foi preso. Ao que tudo indica envolvido, ele e seu partido, até o pescoço, naquela história de desvio inominável de dinheiro da Petrobras. Poucos dias antes um ex-presidente “condecorou”, numa reunião político-partidária, como heróis, líderes de seu partido condenados e presos por crimes ligados ao tal “mensalão”, central de propina e desvio de dinheiro do povo, plantada, há poucos anos, ao lado do gabinete presidencial. É como se os porcos de seu chiqueiro atravessassem a sala de visitas e não deixassem um pingo, um pinguinho só, de lama. É isto mesmo: porcos atravessam os gabinete super limpos e atapetados de Brasília e não deixam rastros. Um  fenômeno.

E, via gabinetes similares do Estado, também nossas mais conservadoras e tradicionais instituições têm sido contaminadas. No caso de Minas, especificamente a nossa Polícia Militar teve deturpada e deteriorada sua capacidade operacional a partir do momento em que os perfumados donos dos gabinetes decisórios, por onde porcos também não deixam rastros, ofereceram o céu para policiais militares, cujos estatutos foram deturpados, com ajuda monumental do ex-governador Anastasia que, na êxtase de busca a votos,“abriu as pernas”. E conseguiu se reeleger, deixando uma herança maldita para o Estado, para a PM e para o povo: não existe efetivo suficiente para fazer policiamento e, por todos os cantos, e não só por isto, lógico, aumenta a criminalidade, mais a vontade para agir.

E esses arautos da ilusão não se incomodam ou comparecem para oferecer solução ao problemão que deixaram! Não para si, mas para a corporação, principalmente, como a transferência prematura de grande leva de homens e mulheres para a inatividade, pois há incapacidade estatal de se suprir o gargalo aberto. E pior: como a sobrevida do brasileiro aumentou, quem deve ser mais “espremida” é a previdência e os cofres do erário hoje bem minguados. Não sei se darão conta!Assim, essa discussão não pode ficar “no ar”. Quem acha que só o “venha a nós” vale a pena, pode pagar, com pessoas e servidores inocentes, mas não tão inocentes assim, por essa “teimosia” e gana do “quanto mais melhor”. Esses políticos sem história ignoraram as coisas construídas com zelo, desde há mais de duzentos anos, e, por inconsequentes que são, deturparam, diluíram e desorganizaram a carreira militar estadual, deixando para aqueles que sempre buscaram o equilíbrio entre as necessidades dos militares, da instituição e do povo, razão precípuas de nossa existência, o trabalho de reencontrar o caminho mais justo, razoável e cidadão para resgate do que foi jogado, literalmente, ao lixo.  

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Pesadelo



Wilalba F. Souza                                                                                     17nov2.015

Nos anos 50, morador da jovem Governador Valadares, ainda me lembro, pendurado nos ombros de meu pai, retomando de visita à casa de amigos, com um capote de feltro a proteger os dois da chuva que caia forte, transformando a rua Afonso Pena, ainda sem pavimentação, num pequeno córrego bem raso. O velho Alceu, com as calças arregaçadas, seguia firme até nossa casa, ali perto, ainda se divertindo com a situação , naquela via mal iluminada. A uns mil metros, com as margens bem protegidas pela ainda vasta vegetação, corria, majestoso, o Rio Doce, de tão doces lembranças, verdadeiro protetor da vida por aquelas plagas. Ele que, mais tarde, fiquei sabendo, nascia em Ressaquinha, região das vertentes, a partir do Rio Piranga, pequeno mas importante curso d`água aqui pertinho de Barbacena.

No Mercado Municipal era grande a oferta de peixes nobres, como o Dourado e mesmo o Surubim, reis absolutos daquelas águas quase virgens, celeiro dos ribeirinhos, de vida bem simples e ingênua, que ficavam, prá lá e prá cá em seus compridos caíques, herança da cultura indígena, feitos em peça de madeira única e de muita fartura na Mata Atlântica ainda preservada. Infelizmente nós sempre desdenhamos o fato de que as correntes de água são mais que vida para todos.  Só que cada um quer pegar o que julga ser seu e o resto... o resto é resto. E a desídia em relação às mudanças climáticas, agravadas pelo descaso de todos nós, cobra, sempre, um preço bem alto, impagável. Nós somos da natureza e ela viverá sem humanos, se for o caso!

Minas e São Paulo, principalmente, têm sentido a escassez de água por todos os lados. Os rios São Francisco, Doce, Mucuri e Jequitinhonha estão na pindaíba há tempos. Dizem que é tudo culpa do tal de "El Niño". Só que nos últimos 60, 70 anos, destruímos a Mata Atlântica. E nem foi só para explorar madeira! O gado precisou de espaço e uma incomensurável área por todo o Brasil foi simplesmente queimada, junto com o cerrado, mais ao norte do estado. A exploração agrícola descontrolada e os grandes fornos das usinas colaboraram. Eu vi nossas florestas evaporando lá no leste mineiro. Eu vi, estática e insensivelmente, desaparecerem muitas espécies da flora e da fauna. Nunca fomos educados para conviver a questão ambiental.

Eu assisti o Rio Doce (e a maioria dos rios brasileiros) ser transformado em um grande sumidouro de esgoto e rejeitos industriais. Eu senti o mal cheiroso odor da fábrica de papel Cenibra (nipo-brasileira) a 50, 60 quilômetros de distância de Valadares. Eu me vi, por isto mesmo, proibido de usar o rio como lazer. E, há anos, a vida do doce rio vem desaparecendo. Assoreamento constante, inexistência de mata ciliar, destruição dos pequenos e médios afluentes de uma das maiores bacias hidrográficas brasileiras. E eu também não fiz nada. Deixei correr. Mesmo porque, e além de tudo, este gigante adormecido não trata seus cocôs. E, pra tomar água, cada vez mais teremos que separar as imundícies que todos, sem exceção, jogam lá!

Assim, e assistindo o povo e o mundo injuriado com a Samarco, empresa que processa minério em Mariana e que represa os rejeitos excluídos do processo produtivo, e com a Vale (ex-Vale do Rio Doce), não posso me calar sobre a permissividade dos políticos e da população local enquanto tudo vai bem. Emprego, impostos, comércio, progresso, até que, após o acidente, nomeiam a "Geni". O resto é "inocente". Eu, o presidente, o governador, o prefeito, o dono da loja, do restaurante, da pousada, o morador, o agricultor, o dono do supermercado, da venda, do motel, do boteco, somos só "pobres vítimas", juntamente com os funcionários públicos, os policiais, agentes do Ibama e da Funai...todos pobres e ingênuos inocentes!!!

Assim, há alguns dias, tive um pesadelo: O "Velho Chico", da transposição, vejam só, secara. O orgulho brasileiro fôra pras cucuias. O Jequitinhonha, das lavadeiras cantadeiras de Araçuaí, Almenara e Itaobim perdera vitalidade e o Rio Doce, da Vale, dona da ferrovia construída por Percival Farqhuar em 1800/1900, a antiga Vitória/Minas, já não poderia ofertar, e graciosamente, uma das mais belas paisagens desse Brasil Varonil, por culpa de todos nós. Despejamos nele, de uma "vezada" só, uma montanha de barro poluído que matou gente, animais e a vegetação. Algo indescritível. Como  empresas não têm vontade própria e nós somos quem as dirige, para o bem... e para o mal, a culpa é nossa! E nada de escapismo tolo dessa cultura pendenga, cambeta! E, não só para minha tristeza, mas para a de todos brasileiros, tão cedo não acordaremos desse insano pesadelo!
                               

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Robin Hood e a over dose

Robin Hood e a over dose

Wilalba F. Souza                                                                             03/11/15


Um dos primeiros filmes que assisti, ainda bem criança, foi sobre os tempos das cruzadas, dos reis, dos ministros e da nobreza. Havia reis bons, outros cruéis, sempre cercados pela família real, criada “nos luxos”, cercada pelos nobres, lacaios e pelos seus poderosos exércitos. Muito usada nos enredos, a história do Robin Hood, um ladrão que tirava dos ricos para distribuir aos pobres, lá nos tempos de Ricardo Coração de Leão. Seu abrigo, e de seu bando, era a Floresta de Sherwood, ao lado de seus amigos mais próximos, João Pequeno e Frei Tuck, um franciscano divertidíssimo.

Na realidade Robin era filho de um nobre que, em excursão fora da Inglaterra,  com o Rei Ricardo, depois de ter sido capturado pelos inimigos, foge e retorna para sua terra. O príncipe John, segundo na linha de sucessão, assassinara o pai de Robin e assumira a coroa. Com seu grupo passa a combater o novo rei, com a finalidade de reconstruir sua situação de nobre, não sem antes recuperar para o povo tudo aquilo que o tirano dele retirara. É uma história muito bonita, onde o mal sucumbe às vontades dos homens de bem. Robin retoma sua dignidade, se casa com a princesa  sob as bênçãos do Rei Ricardo Coração de Leão que retornara pra seu país.

Assim, com o passar dos anos, fomos muito ao cinema. E que não se lembra dos “Três Mosqueteiros” e sua luta pelo bem, do Rei Arthur e dos “Cavaleiros da Távola Redonda”. Na mesma linha, e às vezes com o mesmo ator, Errol Flynn, dos filmes de capa e espada, onde bandidos viravam heróis, bravos guerreiros em favor do povo oprimido. Em suma, houve uma época que o cinema era, de fato, uma casa de sonhos, de entretenimento puro, onde o bem obrigatoriamente tinha que prosperar, sob pena dos assistentes saírem insatisfeitos, reclamando e lamentando pelo final infeliz.

O que se percebe é que nós humanos sempre nos apegamos a líderes, heróis e super-heróis que mexam com nossa imaginação. Nos Estados Unidos do início do século passado, exatamente em razão do “crash” nas bolsas e das guerras que eclociam, surgiram outros “Robin Hood” mais tungados. Super Homem, Capitão Marvel, do Billy Batson que gritava “shazam” e se transformava num outro homem, de aço e com poderem extraordinários, a exemplo de mais alguns que se seguiram, como o “homem aranha”, um personagem que faz sucesso até hoje.

E a história nos revelou muitos heróis, de conduta ilibada, como Winston Churchill, na Inglaterra, Charles de Gaule, na França, Douglas MacArthur, Harry S. Truman nos Estados Unidos. Homens que conduziram seus países quando a efervecência econômica e social eram perturbadas, ainda, pelas desavenças doutrinárias entre as maiores nações  num mundo de Lênin, Stalin, Hitler, Mussolini, Ho-chi-minh, todos revolucionários e estadistas, por incrível que pareça, considerados pela história líderes do mal que foram!

O nosso Brasil sempre exerceu um papel secundário nos eventos globais. País com população rural insipiente e sedento de progresso até que, lá pelos anos cinquenta, depois da era Getúlio, principalmente por obra e graça de Juscelino Kubitschek, iniciou-se uma era de industrialização portentosa, acompanhada da instalação de hidrelétricas de porte para manter o crescimento de uma nova nação,  de futuro promissor. Mais tarde, no governo militar,  assistimos um fantástico impulso do agro-negócio, hoje o ponta de lança do comércio exterior.

De qualquer maneira, a exemplo de outros países, nós também temos nossos “Robin Hood”. Embora em outros tempos, como povo mais humilde, mais simples no seu sentido de viver, tenhamos cultuado heróis e baluartes. Entretanto, nossa safra de bons dirigentes fracassou. O último “Hobin Hood”, que prometeu mundos e fundos para os mais pobres, se perdeu entre seus ideais de homem de origem pobre e sua sede de riqueza e poder. Lamentáveis os rumos que as coisas estão tomando, de total descontrole, insensibilidade. Assuntos de interesse de nossa população estão sendo relegados a segundo plano, enquanto todos nós rogamos por um ou mais “Robin Hood” de verdade, cujo cérebro, ou cérebros, funcionem um pouco melhor do que os dessas lideranças que estão perdidas por aí, debruçadas sobre montes de dinheiro que eles mesmos juram, de joelhos, não saber de onde veio. Parafraseando a letra da canção de Cazuza, podemos afirmar que “nossos Robin Hood” tupiniquins morrerão de over dose”!!!