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terça-feira, 17 de novembro de 2015

Pesadelo



Wilalba F. Souza                                                                                     17nov2.015

Nos anos 50, morador da jovem Governador Valadares, ainda me lembro, pendurado nos ombros de meu pai, retomando de visita à casa de amigos, com um capote de feltro a proteger os dois da chuva que caia forte, transformando a rua Afonso Pena, ainda sem pavimentação, num pequeno córrego bem raso. O velho Alceu, com as calças arregaçadas, seguia firme até nossa casa, ali perto, ainda se divertindo com a situação , naquela via mal iluminada. A uns mil metros, com as margens bem protegidas pela ainda vasta vegetação, corria, majestoso, o Rio Doce, de tão doces lembranças, verdadeiro protetor da vida por aquelas plagas. Ele que, mais tarde, fiquei sabendo, nascia em Ressaquinha, região das vertentes, a partir do Rio Piranga, pequeno mas importante curso d`água aqui pertinho de Barbacena.

No Mercado Municipal era grande a oferta de peixes nobres, como o Dourado e mesmo o Surubim, reis absolutos daquelas águas quase virgens, celeiro dos ribeirinhos, de vida bem simples e ingênua, que ficavam, prá lá e prá cá em seus compridos caíques, herança da cultura indígena, feitos em peça de madeira única e de muita fartura na Mata Atlântica ainda preservada. Infelizmente nós sempre desdenhamos o fato de que as correntes de água são mais que vida para todos.  Só que cada um quer pegar o que julga ser seu e o resto... o resto é resto. E a desídia em relação às mudanças climáticas, agravadas pelo descaso de todos nós, cobra, sempre, um preço bem alto, impagável. Nós somos da natureza e ela viverá sem humanos, se for o caso!

Minas e São Paulo, principalmente, têm sentido a escassez de água por todos os lados. Os rios São Francisco, Doce, Mucuri e Jequitinhonha estão na pindaíba há tempos. Dizem que é tudo culpa do tal de "El Niño". Só que nos últimos 60, 70 anos, destruímos a Mata Atlântica. E nem foi só para explorar madeira! O gado precisou de espaço e uma incomensurável área por todo o Brasil foi simplesmente queimada, junto com o cerrado, mais ao norte do estado. A exploração agrícola descontrolada e os grandes fornos das usinas colaboraram. Eu vi nossas florestas evaporando lá no leste mineiro. Eu vi, estática e insensivelmente, desaparecerem muitas espécies da flora e da fauna. Nunca fomos educados para conviver a questão ambiental.

Eu assisti o Rio Doce (e a maioria dos rios brasileiros) ser transformado em um grande sumidouro de esgoto e rejeitos industriais. Eu senti o mal cheiroso odor da fábrica de papel Cenibra (nipo-brasileira) a 50, 60 quilômetros de distância de Valadares. Eu me vi, por isto mesmo, proibido de usar o rio como lazer. E, há anos, a vida do doce rio vem desaparecendo. Assoreamento constante, inexistência de mata ciliar, destruição dos pequenos e médios afluentes de uma das maiores bacias hidrográficas brasileiras. E eu também não fiz nada. Deixei correr. Mesmo porque, e além de tudo, este gigante adormecido não trata seus cocôs. E, pra tomar água, cada vez mais teremos que separar as imundícies que todos, sem exceção, jogam lá!

Assim, e assistindo o povo e o mundo injuriado com a Samarco, empresa que processa minério em Mariana e que represa os rejeitos excluídos do processo produtivo, e com a Vale (ex-Vale do Rio Doce), não posso me calar sobre a permissividade dos políticos e da população local enquanto tudo vai bem. Emprego, impostos, comércio, progresso, até que, após o acidente, nomeiam a "Geni". O resto é "inocente". Eu, o presidente, o governador, o prefeito, o dono da loja, do restaurante, da pousada, o morador, o agricultor, o dono do supermercado, da venda, do motel, do boteco, somos só "pobres vítimas", juntamente com os funcionários públicos, os policiais, agentes do Ibama e da Funai...todos pobres e ingênuos inocentes!!!

Assim, há alguns dias, tive um pesadelo: O "Velho Chico", da transposição, vejam só, secara. O orgulho brasileiro fôra pras cucuias. O Jequitinhonha, das lavadeiras cantadeiras de Araçuaí, Almenara e Itaobim perdera vitalidade e o Rio Doce, da Vale, dona da ferrovia construída por Percival Farqhuar em 1800/1900, a antiga Vitória/Minas, já não poderia ofertar, e graciosamente, uma das mais belas paisagens desse Brasil Varonil, por culpa de todos nós. Despejamos nele, de uma "vezada" só, uma montanha de barro poluído que matou gente, animais e a vegetação. Algo indescritível. Como  empresas não têm vontade própria e nós somos quem as dirige, para o bem... e para o mal, a culpa é nossa! E nada de escapismo tolo dessa cultura pendenga, cambeta! E, não só para minha tristeza, mas para a de todos brasileiros, tão cedo não acordaremos desse insano pesadelo!
                               

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