Wilalba F. Souza 26/03/18
Filho de sargento da
Polícia Militar de Minas Gerais, nasci em Belo Horizonte, no início de mil, novecentos
e quarenta e sete. Pouco tempo depois meu pai foi removido para Governador
Valadares, depois de passar pequena temporada em Antônio Dias, onde comandou o
contingente, até chegar, à promissora cidade, lá pelo ano de mil, novecentos e
cinquenta e dois, ou três, o 6° Batalhão, do “Bravo Torres”. Tempos de heróico
pioneirismo. Não havia estradas asfaltadas, mas a Ferrovia Vitória-Minas já
rasgava a Mata Atlântica, ainda preservada naqueles rincões, margeando o Rio
Doce, ligando as duas capitais (Belo Horizonte/Vitória), embora a missão
principal fosse transportar o minério de ferro das jazidas da Itabira de Carlos
Drummond. A floresta, tesouro ecológico há muito destruído, abrigava muitas
riquezas que foram mal, muito mal exploradas. No rio, límpido e caudaloso,
habitavam surubins, dourados, pitus (lagosta de água doce) e outras espécies. Lá
aprendemos a gostar da moqueca, invento
dos capixabas. O transporte urbano, feito
em charretes e em bicicletas, movimentavam as ruas empoeiradas, sob calor causticante.
Emancipada quinze, ou
vinte anos antes, seus administradores já se preocuparam com o planejamento
urbano, prevendo o progresso, persistindo na construção de uma urbe com ruas
largas e passeios confortáveis. A exploração da madeira, da mica, ou malacacheta,
isolante termo-elétrico usado na indústria nacional, e a expansão das fazendas
de criação de gado bovino, se despontavam como atividades economicamente
gratificantes. Assim, formou-se o importante polo regional, trazendo, juntas,
cobiça e brigas por terras e dinheiro.
Gente de todos os
cantos construiu uma bela e progressista cidade, onde muitos empreendedores se
destacaram, tendo à frente comerciantes, fazendeiros, policiais, militares e
civis, como Altino Machado, o legendário e admirado capitão Pedro Ferreira dos
Santos e o delegado Luís Soares da Rocha, muito ligado à Polícia Militar. Pedro,
homem respeitado no Vale do Rio Doce, claro que com a ajuda de vários
companheiros, desbravou a região, tendo ao seu lado meu pai, o sargento Alceu
de Souza, um de seus leais auxiliares. Contam que ele, em suas investigações,
se vestia como mendigo e mesmo de mulher. Delegado de captura, sua jurisdição
não tinha fronteiras. Menino, o vi enterrando, na porta da Cadeia Pública, uma
carroça cheia de armas brancas e de fogo. Sua maneira de trabalhar influenciou
muitos oficiais e praças.
Naquele tempo o
policial militar, de qualquer posto e graduação, fazia as vezes de conselheiro,
delegado, juiz e o que mais necessário fosse. Muitos morreram nessas missões.
Pelas ruas das comunidades era comum se encontrar cadáveres, resultado de
crimes intrincados, ou de simples desentendimentos. Na zona rural, tudo se
agravava. As estradas, precárias,
limitavam os deslocamentos. A “Princesa do Vale” teve excelentes administradores,
a exemplo de Raimundo Albergaria, Ladislau Sales e Ronaldo Perim, este em fase
mais recente, que se destacaram por suas obras e realizações, resultando numa
das mais belas e urbanizadas cidades de Minas, na verdade um modelo a ser
copiado.
Depois de alguns anos
fora, voltei lá como aspirante a oficial, em mil, novecentos e sessenta e nove.
O Batalhão tinha uns trezentos e quarenta destacamentos e efetivo de mais de
três mil homens, coisa impensável nos dias de hoje. Era comum homens destacados
não irem à sede da unidade por vinte anos, ou mais. Muitos não conheciam
oficiais, muito menos seus comandantes. Às vezes citavam nomes de antigos
chefes, até já falecidos, julgando ainda estarem em atividade. Aprendi muito na
região, e conheci muita gente interessante. Uma delas, apaixonada por aviação.
O
soldado Chicão, vamos chamá-lo assim, já cultivava uma nada invejável barriga e
trabalhava no policiamento do mercado municipal. Bonachão, tinha sua feira sempre
garantida. Contou-me ele que, quando mais novo na PM, tirava plantão no
aeroporto, no campo de aviação, localizado onde é hoje o Bairro de Lourdes, isto
no final da década de cinqüenta, aliás, muito perto da novíssima sede do 6°
BPM, talvez uns trezentos metros, no máximo. Os pilotos de pequenas e frágeis aeronaves,
ditos ”teco-tecos” ou “Paulistinhas”, sempre levavam Chicão em seus vôos
panorâmicos. Cobertos por lona encerada, eram muito comuns por lá. Na realidade
o aparelho dispunha de acelerador e manche, que lhe dá altitude e direção e uns
poucos equipamentos aviônicos de orientação, além de pedais para o leme e conduzibilidade
no solo. O rádio mais chiava que falava. Em certa manhã, Chicão, chegando para
seu plantão, encontrou um desses aviões já ligado, pronto pra voar. O piloto
teria dado uma saída não se sabe porquê. Decidiu: entrou no aeroplano e fez seu
primeiro, e último, vôo solo. Cabeça da pista, aceleração, soltura dos freios
e..., lá se foi o neófito e irresponsável milico para os céus. O funcionário do
aeroporto, e o dono do avião, quando deram por si, já era tarde. Correram para
o batalhão apavorados, pois o telefone não funcionava. Resultado: a tropa
todinha invadiu a pista de terra. Relatou-me, Chicão, que, lá do alto, viu
aquele punhado de colegas, parecendo formiguinhas saltitantes a acenar,
certamente para ele descer. Então pensou: - Já que estou “ferrado” mesmo, vou
dar um giro até Brejaubinha – distrito ali perto -. Depois, contornando o pico
da Ibituruna, fez um pouso perfeito, aliás uma das manobras mais difíceis,
segundo relatam os especialistas. Ao apear da “boléia”, segundo ele, foi
cercado pelos sorridentes colegas de farda, tendo à frente um sisudo major
bigodudo que decretou: “Teje” preso!!!