Wilalba F. Souza 13/Out/15
Meu pai, Alceu de Souza, teve dois
irmãos. O mais velho, José Cesário, nascido em 1897, foi motorista e
agricultor. Homem rude, sério e de sorriso difícil, praticamente criou os mais
novos, na ausência de seus pais, dos quais nunca tivemos muitas notícias.
Cesário trabalhou de empregado em culturas de hortaliças, comuns no local , ocupado
hoje pelo Aeroporto da Pampulha, de onde se abastecia o antigo Mercado
Municipal de Belo Horizonte. A produção vinha até a jovem capital no lombo de
burros. Com muito sacrifício, tempos depois, conseguiu comprar um pequeno sítio
em Vespasiano, na beira da estrada, continuando a calejar suas mãos para
sobreviver. De vida exemplar, sempre o admirei pela sinceridade e honestidade,
predicados hoje em dia meio difíceis de encontrar nas pessoas.
Quando me mudei para Belo Horizonte, em
mil novecentos e sessenta e seis, para fazer o Curso de Formação de Oficiais da
Polícia Militar, ia com frequência à sua casa e, não poucas vezes, o ajudava a
separar verduras, amarrá-las para, em seguida, colocá-las em caixas engradadas
que um caminhão pegava, de madrugada. Vespasiano ainda guardava um aspecto bucólico,
tranqüilo, e dava muito prazer em ficar por lá um ou dois dias. Nos fins de
semana, ao sábado, Cesário ia para a ”cidade”, a pé. Eu às vezes o acompanhava.
Primeiro visitava à barbearia pra “desfazer a barba”; após, comprava carne de
boi. Na volta passava, só para cumprimentar, alguns sobrinhos “adotados” e um
ou outro amigo bem antigo. Hoje Vespasiano não tem mais graça. É um lugar como
outro qualquer. Não poucas vezes, e anos adiante, como tenente, ia visitá-lo e
à minha madrinha Ilda. Não tiveram filhos, mas ajudaram muitas crianças a
crescer. Costumava levá-los, no meu Karmann Ghia, para comprar pão em Belo Horizonte.
Pessoas simples, adoravam fazer aquela “viagem”. Os dois
faleceram em paz, lá mesmo em Vespasiano. Foram felizes. E como!!!
Alceu, meu pai, o admirava muito. Meio
perdidão em Belo
Horizonte, depois de passar por alguns serviços, em tempos do
governo Getúlio, resolveu, por sugestão de um conhecido membro da Força Pública
de Minas, ingressar na “gloriosa”, como a chamamos. Isto foi lá pelos anos de
mil, novecentos e trinta e sete. Depois de servir no Batalhão de Guardas
peregrinou por uns Distritos Policiais até ser destacado no interior. Esteve em Conselheiro Pena,
Itanhomi e outras localidades do Vale do Rio Doce, até ser promovido a sargento
e, após o curso em Belo
Horizonte, retornou ao Vale, não sem antes comandar o
Destacamento em Antônio Dias.
Governador Valadares foi seu destino, no final da década de
quarenta, com a mulher e três filhos. Fez, na “Princesa do”Vale” , uma bela
carreira de praça, até mil, novecentos e sessenta, quando foi convocado para
cursar o oficialato. Transferido para a reserva em sessenta e sete, após
cumpridos quatro anos no 9º BPM de Barbacena, retornou para Valadares, no posto
de capitão, onde morou até o final de seus dias.
Em plena Segunda Guerra Romeu, o mais
novo, foi servir o Exército em Juiz de Fora, a Manchester
Mineira. Terminado seu tempo, também entrou para a Polícia Militar. Ainda
garoto, lembro bem, ele chegou com sua família, acho que já tinha umas quatro
das sete filhas que conheci. Foi morar em frente de nossa casa, na rua Belo
Horizonte, da calorenta Valadares. Ele e sua mulher, tia “Totonha”, e as filhas
eram diversão pura. Ela, bem mais alta que ele, dava as ordens. É o que diziam.
O Cabo Romeu, por um bom tempo, foi encarregado do trânsito na cidade e
muitíssimo competente naquilo que fazia. Anos depois o comando o transferiu
para Ipatinga, onde, sargento, foi organizar o setor municipal de trânsito, sob
as ordens do major Klinger Sobreira de Almeida, primeiro comandante do 14º Batalhão
da progressista cidade industrial. Terminou
seus dias por lá mesmo, depois de criar suas sete filhas e seu único filho,
Romeuzinho.
Romeu, atleticano daqueles mais
conhecidos na cidade do aço, era muito assediado por amigos e conhecidos em
razão de sua preferência clubística. Diferente do meu pai, também atleticano,
ele fazia muito “barulho” após os jogos.
Um de meus irmãos, Valuce, morou com ele quando empregado na Usiminas. Dele
guarda muitos e inesquecíveis momentos da família que o ajudou na vida. Minha
irmã Déia nos contou que Romeu, ainda bem novo, e antes de ir para o Exército,
trabalhava em um açougue no bairro Barro Preto, onde também existiam a tal Casa
de Correição, um presídio estadual e o Campo do Palestra Itália. Em tempos de
guerra, tendo em vista que a Itália de Mussolini se aliara à Alemanha, portanto
sendo considerada inimiga, houve quem caçasse italianos, como nos EUA fizeram
com japoneses. Numa bela manhã, chegando ao seu trabalho, Romeu viu a que a
placa indicativa do comércio sumira. Uma placa grande, por sinal. O Açougue
Cruzeiro ficara sem nome. E não é que os dirigentes italianos do Palestra
Itália tinham “roubado” a placa! Com pressa, cortaram a palavra açougue e
substituíram a antiga, de seu clube, apenas com a palavra “Cruzeiro”, fugindo à
perseguição. Outra inspiração não houve...
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