Wilalba
F.
Souza
08/06/2018
Na décadas de quarenta, cinquenta, e
mesmo sessenta, do século passado, o Brasil era um país de característica
eminentemente rural, pois sua população, em grande maioria, lá habitava. A
produção, no campo, pequena e até
insipiente, se apresentava pobre em tecnologia e muito convencional,
ultrapassada. A ocupação do território nacional, embora definida, ainda tinha
muitas áreas a serem desbravadas e cultivadas. Só pra diminuir esse universo,
prefiro focalizar o leste e o nordeste mineiro, onde vivia, criança, num mundo
especial. A mata Atlântica, preservada,
os rios límpidos e os corredores de transporte, mesmo que deficitários, eram
rasgados por ferrovias, eis que as vias asfaltadas iniciavam suas construções
pelo Brasil.
Juscelino, inesquecível presidente, após
governar Minas Gerais, arregaçou as mangas e transformou o país em um grande
canteiro de obras. Nesse conjunto de realizações trouxe, para cá, a indústria automobilística, as fábricas de
caminhões de nações desenvolvidas e industrializadas. As precárias vias
terrestres receberam os veículos. Superando dificuldades, as cargas de pequena distância chegavam com
maior rapidez. E, dessa maneira, o processo econômico privilegiou os
automóveis, os veículos médios e os caminhões. Então, e por isto, as ferrovias
desenvolvidas do final do século dezenove, ao vinte, literalmente se atrofiaram.
Setenta, oitenta anos depois, somos um
país de enormes dimensões, movido a gasolina e óleo diesel, com pequena ajuda
de etanol e biodísel, pois o biogás não decolou, até por existir pequena oferta
e, me parece, menor desempenho nos motores que o recebem. E, nesses anos todos,
experimentamos e vivenciamos uma economia troncha, torta, equivocada até. A
frota de veículos pesados cresceu, as estradas pioram, as ferrovias dispensadas e nos transformamos no país dos
“bitrens”, dos doze eixos, das grandes pranchas, necessárias e imprescindíveis
para levar progresso e riquezas, embora continuemos pobres, sem tratamento de
esgoto, sem assistência à saúde, sem ensino ao menos razoável, e com aumento
crescente das diferenças sociais, experimentando um dos maiores, senão os maiores, índices criminais do mundo,
onde nada funciona a contento, nem mesmo a Justiça, em todos os níveis, que
ainda recebe salários muito acima da média do povo brasileiro.
A partir de 2014, tendo em vista a
condução equivocada da economia nacional, a recessão se apresentou
fantasmagórica. E é simples, a atividade econômica levou um baque, o desemprego
foi a inimagináveis 14
milhões de pessoas, os gastos públicos
cresceram, cessaram-se os investimentos e agigantou-se o déficit público. E
isto é simples: temos mais dívidas que dinheiro para cobri-las. E, com uma
frota enorme de caminhões e seus caminhoneiros, incluídas as empresas do ramo,
a oferta cresce e... o preço dos fretes cai. Simples assim. E não temos outras
saídas, outra opção. Ainda não produzimos todo o petróleo que precisamos,
exportamos algo que nos sobra, possivelmente gasolina e óleo bruto e importamos
o óleo diesel, pois não há refinarias suficientes por aqui. Ainda mais que,
“desmontada” a Petrobras, pelo governo, ou governos, como investir em
melhorias?
Interrompida a interferência na estatal
– a maior empresa brasileira – passou ela a recuperar-se, acompanhando os
preços internacionais, até porque ela possui ações no mercado internacional.
Depende de investidores. Sem fretes compensadores - oferta maior que procura –
decidiram que a culpa era de quem vendia o combustível, muito caro, e dos
pedágios, que aumentavam as despesas dos nossos transportadores. Logo,
convocaram uma greve nacional: - “Vamos parar tudo!”. E pararam, até com
piquetes violentos e apoio popular, eis que a gasolina e o etanol têm preços
altos! Interromperam o fluxo sanguíneo do corpo, numa “apnéia” suicida, até que
a respiração ficou difícil: doentes sem assistência, polícia e bombeiros com
viaturas paradas, criações morrendo, oferta
alimentos diminuindo, fogões “entupidos”, recessos decretados, enfim,
uma bagunça total, pela qual todos nós vamos pagar. A “bolsa caminhoneiro” tem
um preço. E eles têm suas razões, mas tabelamento, pra cima ou pra baixo, têm
custos. E como!
As discussões, de como atender os
transportadores, estão cada vez mais complicadas. Numa economia de mercado, com
preços livres, trata-se de um engano primário, uma saída emergencial pra jogar
o problema pra frente. Digo que, mesmo dando diesel de graça, o impasse
continuará. Sempre haverá quem cobre menos, pra ganhar o carreto. É lei da
economia, que quando maltratada, devolve a agressão com coices muito fortes.
Cometemos um “harakiri coletivo” quando dissemos para os grevistas: - Oh, nossa
gasolina também está muito cara, logo podem parar, pois não preciso andar de
carro, de ônibus, de fazer comida, tratamento de água na cidade, coleta de
lixo, hospital, água pra beber, suprimentos... e daí por diante e, quem sabe,
esses políticos e o governo caem, o Exército assume tudo e resolve a questão?
Pois é, o nosso pessoal do transporte vai continuar lutando por melhorias, a
conta vai ter de ser paga, o combustível não vai baixar de preço tão cedo, o
tal de PIB teve alteradas as previsões, sem que Brasília deixe de ter à sua
frente a mesma liderança política, pelo menos até as eleições decidirem o que
queremos.
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