Wilalba F. Souza
29/Out/2018
Quando menino, esse dia
não era comemorado. Simplesmente não existia. Mas minhas lembranças recuam até
a década de cinquenta, no Natal, a data mais importante e significativa de país
“dominado” pelo catolicismo, sua religião oficial. O ano, 56 ou 57. Ganhei de presente
uma bicicleta pequena, Monark, “zero Km”. Incrível exceção em meio aos outros
sete irmãos. Mais que um sonho, depois vim a entender a razão: meus pais diziam
que eu era muito estudioso, e merecia. Meio exagerado, achei, mas, fazer o quê?
Pedalar!
Antes disso, o que eu
gostava mesmo era de fazer caminhõezinhos com caixas de fósforos recolhidas
pelas portas de bares e vendas, onde pegava, também, tampinhas de garrafas, as
rodas. Pronto o insólito brinquedo, puxava a frota pelas ruas quentes e empoeiradas
de Governador Valadares, a Princesa do Vale do Rio Doce. Para brincar, fazia
funcionar a criatividade, em tempos simplórios, difíceis, mas de grande e
inocente felicidade. Nossas necessidades eram bem pequenas.
Voltando à “Monarquinha”,
“noprinha” (novinha), como a molecada falava “nos antigamentes”, pedalei, com
desenvoltura, e muito cuidado, até a casa de meu saudoso tio Eugênio, casado
com tia Sebastiana, sorridente. mas brava mãe do Natalino, meu primo, para
“desfilar” a ele minha novidade, coisa de rico, mesmo. O Natalino, compridão,
logo cobrou algo parecido dos pais. O bonachão, tio Eugênio, com suas costas
das mãos tatuadas de pontinhos, puxou-me para seu lado, carinhosamente, e
comentou, como que querendo prever: - não demora muito estará destruída. Volta
aqui, com ela, daqui a três meses, concluiu.
Ihh, ele queimou a língua,
fui lá com o “camelinho” por muitas e muitas vezes e ele jamais se lembrou de
sua previsão. Não me esqueço disto porque, em 1960, mudamos para Belo Horizonte
e meu pai vendeu a Monarquinha, comprando material escolar para a meninada. Por
outro lado, eu tinha crescido bastante e mamãe não deixava a gente andar de
bicicleta em Belo Horizonte. -Muito perigoso, chegava a lamentar! De minha
parte, achei tudo natural, mesmo porque já tinha feito amizades na escola e com
vizinhos, sendo o foco, daqueles “capitalistas”, idas ao Parque Municipal,
andar de barco, jogar benti-altas, isto mesmo, ou futebol no Campo do Tremedal.
Sei que não é novidade
dizer isto, mas todos os dias são dia da criança. E lamento, às vezes, embora
entendendo ser sinal dos tempos, quando procuram interferir, de maneira a
agilizar, no amadurecimento dos pequeninos, impedindo que eles aprendam ser
livres naturalmente, razão pela qual, penso eu, ao atingirem, na adolescência,
maior grau escolar e universitário, muitos se tornem excessivamente explosivos,
indulgentes e contestadores. Será que é porque nunca fizeram carrinho de caixa
de fósforo, soltaram pipa, nadaram em córregos, cortaram o pé com caco de vidro,
ou jogaram pelada no Campo do Tremedal?

CARO PRIMO VILAUBA. QUANTO TEMPO!!!!! FIQUEI MUITO EMOCIONADO AO LER ESTA LEMBRANÇA DE UM PEDAÇO DE NOSSA HISTÓRIA . EU TE AGRADEÇO POR PUCHAR A MINHA MENTE.ABRAÇO A TODOS , DEUS TE ABENÇÔE. AMEM, AMÉM.
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