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sexta-feira, 12 de outubro de 2018

O sargento barrigudo



Wilalba F. Souza                                             11/out/18

Votei pela primeira vez, me parece, em 1966. Exatos dois anos depois da comentada revolução que teria levado os militares ao poder, no período ditatorial, segundo comentários de quem viveu à época. Era meu primeiro ano como aluno do DI (Departamento de Instrução da Polícia Militar de Minas Gerais) situado no Bairro do Prado, em Belo Horizonte, hoje denominado Academia de Polícia Militar, onde são formados os oficiais da Corporação. Naquele tempo, ainda pós adolescentes, ficávamos, nós alunos, divididos entre as informações curriculares estudantis e militares, e as advindas das movimentações politico-partidárias. Soa meio estranho, num pós-golpe militar, o governo convocar eleições. Não para presidência, mas para governadores de estado, câmaras e assembleias. As capitais eram dirigidas por políticos nomeados, sei lá como, acho que pelo general presidente.

Pra falar a verdade, embora tivesse idade para tal, não me lembro se votei. O ambiente de normalidade era, às vezes, subvertido por estudantes de cursos superiores, em manifestações pelas faculdades espalhadas pela capital. Não poucas vezes, suspendiam nossas aulas e nos comandavam para garantir a ordem nas imediações dos movimentos. Sem armas, evidentemente, pois mal tínhamos saído da proteção e vigilância de nossos pais. Então, tudo era novidade, quase inocente, tanto do lado dos manifestantes, quanto da polícia. Interessante é que, como estudantes, fazíamos parte da União Estudantil. Localizei minha carteira, com fotografia e tudo, dia desses. Inesquecível, num dos empenhos operacionais, fato ocorrido perto da FAFI-BH (filosofia): perto da faculdade, os estudantes gritando palavras de ordem; bem afastados, os Policiais Militares. No comando, um tenente alto, gordinho, muito querido por nós. Todo mundo sério, até que um estudante gritou: - Tira esses milicos daí, ô sargento barrigudo! Claro, não contivemos o riso!

E as eleições? Davam trabalho. Passávamos a noite em claro, nos locais de votação, “vigiando” as urnas, ainda virgens. Nelas ninguém tocava, até que o casamento fosse realizado pelos mesários, cedo, com os eleitores. Eu, ao longo dos anos, claro, sei que houve, há e haverá exceções, mas constatei que chances de fraude são pequenas. Após a votação ficavam os representantes partidários de olho na(s) “criança(s)”, sem arredar pé. Depois, uma trabalheira louca para a contagem dos votos. E isto demorava dias, muitos dias. Acho que as eleições sempre foram, e ainda são, uma das paixões de nosso povo. Nas realizadas 1970, como delegado especial de polícia de uma minúscula cidade do nordeste mineiro, de nome Bandeira, tive que, juntamente com soldados e cabos, levar urnas eleitorais de Almenara, sede da comarca, para lá. E chovia muito. Sem estradas, transporte, atravessando cursos d`água e rios com elas nas costas. E, terminado o certame, as escoltamos de volta, pelo mesmo caminho. Tudo sem ocorrência de violência ou coisa semelhante.

            Claro que, por causa de política e poder, nossa história é recheada de registros negativos e crimes cometidos em seus nomes. Nas localidades mais afastadas, desprovidas de segurança e comunicações, ocorreram, ao longo dos muitos e muitos anos, horrores, patrocinados pela força do dinheiro e da prevalência autoritária dos antigos coronéis interioranos. Mas vale a pena insistir na participação do cidadão. Aliás é a única forma de alternar, nos altos cargos da república, nossos representantes incumbidas dessa forma, de coordenar a vida de milhões de brasileiros, com progresso, desenvolvimento humano, mais igualdade e… paz.

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