Desde os
tempos do tostão
Wilalba F. Souza
Lá pelos idos de 1.952, ainda bem moleque, eu morava em Governador Valadares,
onde meu pai, sargento, comandava o “Contingente”. Naquele mesmo ano, o 6º bata-lhão
se instalaria na Princesa do Vale”, emergente centro regional, vindo de Belo
Horizonte, num trem da “Vitória-Minas”, com cerca de trezentas praças e
dezesseis oficiais. Esse pessoal ocupou uns barracões de madeira deixados pelo
DNER. (Departamento Nacional de Estradas
e Rodagens) que construíra a “Rio-Bahia” – Br 116, no outro lado do Rio Doce,
logo após a ponte, batizada pelo povo de
São Raimundo, por causa do bairro de mesmo nome que ali se formava. Aliás, lá,
curioso, fui apresentado a um grampeador na “sargenteação”. Grampeei meu dedo.
Com dores atravessei a ponte e corri para casa.
Minha família residia mais para o centro, na rua Quintino
Bocaiúva, de terra batida e poeirenta, em uma morada simples, construída, com
muito sacrifício, pelos meus pais. O
calor intenso obrigava-me, também aos meus irmãos e colegas vizinhos, a andar
sempre descalço e de calção apenas, sem camisas, pra cima e pra baixo, a
qualquer hora do dia, pois não havia muitos veículos, a não ser um trator da
prefeitura que, rebocando uma espécie de carroça, recolhia o lixo das casas
pela manhã, embora ainda não existisse rede de esgoto, sendo comuns as fossas
negras residenciais.
Na esquina dessa rua com a Afonso Pena havia uma “venda” –
assim eram denomi-nados os armazéns que tinham de tudo a granel - onde se
amontoavam os homens e seus surrados chapéus, nos finais das tardes, para tomar
alguns aperitivos, pegar outros mantimentos, geralmente com anotações em
cadernetas e pagamento posterior. Só depois iam para suas casas. Quem foi
criança naqueles anos deve, ainda, se lembrar, do cheiro todo característico
das vendas. Algo indescritível, mas identificável pelo nosso olfato. Aquelas que
se prezavam tinham fumo de rolo, querosene, cachaça, lingüiça defumada e um ou
dois cavalos “amarrados” nas imediações.
A moeda era o cruzeiro, com suas frações. Como hoje, o menor
valor era de um centavo. Seu apelido era tostão que, me parece, fora herdado
culturalmente de tempos passados. Assim, consideravam tal tostão, pela sua
capacidade de compra, se é que podemos assim dizer, algo menor, de pouca valia.
Aliás nosso centavo hoje recebe o mesmo tratamento, embora o Real esteja em alta. Ainda é comum se
ouvir por aí: “Fulano não vale um tostão” ou, “aquele carro não vale um tostão
furado”. Quer dizer, conseguiram desvalorizar ainda mais o tal de tostão.
Apesar disto o centavo do Cruzeiro era
cunhado com o rosto ( com a esfinge? ) de Getúlio Vargas, velho ditador
que, por coincidência, ocupava a presidência, eleito que fora pelo voto direto,
mas que viria cometer suicídio pouco depois.
Eu descobrira, e rapidamente, que aqueles freqüentadores da
venda sempre perdiam, lá pelas tantas horas, alguns tostões em suas saídas, devido a alguns goles
a mais e principalmente à precária iluminação,
gerada por motores a óleo diesel. Assim, embora muito menino, eu pulava da cama
bem cedo e ia “garimpar” os tostões pelos cantos empoeira-dos próximos daquele
comércio. Dificilmente perdia a viagem, aproveitando as moedi-nhas para comprar balas, lá mesmo na venda. Assim,
o tempo foi passando, os costumes mudaram,
mas o tostão continuou em uso, até hoje, geralmente para identificar pequena
quantidade, tamanho diminuto, e até pancada em disputas futebolísticas.
No início da década de sessenta apareceu, jogando futebol de
salão no Conjunto IAPI, em
Belo Horizonte, perto da Lagoinha, onde eu já estava morando,
um garoto baixinho de nome Eduardo Gonçalves de Andrade que, no meu humilde
entendimento, tem dado outro enfoque ao defasado tostão. Certamente devido à
sua baixa estatura física, Eduardo recebeu o apelido Tostão, que hoje se
escreve com letra maiúscula quando se refere a ele. Aliás, passado tanto tempo,
nossa gente tem assimilado o vocábulo quase que especificamente para se referir
ao cronista, famoso em
todo Brasil, cidadão dotado de alto nível de conscientização.
Campeão do Mundo pelo Brasil em 1.970, Tostão encerrou sua
brilhante carreira de atleta prematuramente em razão do descolamento da retina
de um dos olhos. Formado, posteriormente, em medicina, clinicou por pouco tempo,
passando a escrever crônicas esportivas, sendo admirado e respeitado por
colegas de peso em
todo Brasil. Jogando pelo Cruzeiro e em seus melhores
momentos, me fez penar muitas vezes, eu na condição de atleticano, mesmo tendo
no time o Dario Peito de Aço. Eu o perdoo porque grandes craques, independentes
de seus times, têm, sim, fãs e admiradores.
Do Tostão maiúsculo, transcrevo parte de sua crônica
publicada em “O Tempo”, há uns dois anos.
“Na semana passada, o brilhante jornalista André Trigueiro mostrou, em uma reportagem para o programa Cidades e Soluções do Globo
News, o grave problema da poluição, de todos os tipos, nas grandes cidades
brasileiras.
Além disso crescem a violência,
o barulho e o desrespeito aos cidadãos e às leis, Cometer infrações tão comuns
como jogar papel nas rua, estacionar em
fila dupla são início para problemas muito mais graves, como a corrupção.
O Brasil tem a sexta economia do mundo e está em 84º lugar no Indice de
Desenvolvimento Humano (IDH), que é mais importante. Melhoram a economia e agravam-se os problemas sociais.”
Diria pra nós a maioria: - E daí? O que o Tostão fala é o
óbvio!É que nós não nos indignamos mais sobre estas constatações.
Mais de 40/50 % dos municípios de hoje estão, como a Valadares de 1.952, sem
esgoto; não há mais jeito ou disposição do poder público em combater quem suja
o passeio e quem comete “pequenas” infrações de trânsito, o excesso de barulho,
etc. E como a população joga sacos de plástico nos esgotos e nos cursos d`água, proíbem o
comércio de fornecer embalagens. Ah, e se a estrada não cabe mais veículos e está
esburacada, instalam radares,quebramolas e outras armadilhas similares.
Recentemente descobriram que as estatísticas criminais
mineiras não estavam corretas. Segundo a imprensa os órgãos integrantes da
Secretaria de Defesa Social maquiavam os números, de forma a reduzir os índices
de violência no Estado. O governador achou logo o culpado (não sei se pela
maquiagem ou pelos altos índices da criminalidade...) Ah, pelos dois fatos? Assim, do dia pra noite, exonerou seu
secretário que deve ter ido maquiar dados na condição de líder do governo na Assembleia Legislativa!!!
Quer dizer... parece que uma solução foi dada às nossas necessidades de
segurança. Assim, se referindo ao assunto, diria o “Nerso da Capitinga”:
“PRA NOSSO DE-LEI-TE, POBREMA RE-SOR-VI-DO !”