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domingo, 16 de março de 2014

Desde os tempos do Tostão

                                 Desde os tempos do tostão
 
Wilalba F. Souza

          Lá pelos idos de 1.952, ainda bem moleque, eu morava em Governador Valadares, onde meu pai, sargento, comandava o “Contingente”. Naquele mesmo ano, o 6º bata-lhão se instalaria na Princesa do Vale”, emergente centro regional, vindo de Belo Horizonte, num trem da “Vitória-Minas”, com cerca de trezentas praças e dezesseis oficiais. Esse pessoal ocupou uns barracões de madeira deixados pelo DNER.  (Departamento Nacional de Estradas e Rodagens) que construíra a “Rio-Bahia” – Br 116, no outro lado do Rio Doce, logo após a ponte,  batizada pelo povo de São Raimundo, por causa do bairro de mesmo nome que ali se formava. Aliás, lá, curioso, fui apresentado a um grampeador na “sargenteação”. Grampeei meu dedo. Com dores atravessei a ponte e corri para casa.

       Minha família residia mais para o centro, na rua Quintino Bocaiúva, de terra batida e poeirenta, em uma morada simples, construída, com muito sacrifício,  pelos meus pais. O calor intenso obrigava-me, também aos meus irmãos e colegas vizinhos, a andar sempre descalço e de calção apenas, sem camisas, pra cima e pra baixo, a qualquer hora do dia, pois não havia muitos veículos, a não ser um trator da prefeitura que, rebocando uma espécie de carroça, recolhia o lixo das casas pela manhã, embora ainda não existisse rede de esgoto, sendo comuns as fossas negras residenciais.

           Na esquina dessa rua com a Afonso Pena havia uma “venda” – assim eram denomi-nados os armazéns que tinham de tudo a granel - onde se amontoavam os homens e seus surrados chapéus, nos finais das tardes, para tomar alguns aperitivos, pegar outros mantimentos, geralmente com anotações em cadernetas e pagamento posterior. Só depois iam para suas casas. Quem foi criança naqueles anos deve, ainda, se lembrar, do cheiro todo característico das vendas. Algo indescritível, mas identificável pelo nosso olfato. Aquelas que se prezavam tinham fumo de rolo, querosene, cachaça, lingüiça defumada e um ou dois cavalos “amarrados” nas imediações.

          A moeda era o cruzeiro, com suas frações. Como hoje, o menor valor era de um centavo. Seu apelido era tostão que, me parece, fora herdado culturalmente de tempos passados. Assim, consideravam tal tostão, pela sua capacidade de compra, se é que podemos assim dizer, algo menor, de pouca valia. Aliás nosso centavo hoje recebe o mesmo tratamento, embora o Real esteja em alta. Ainda é comum se ouvir por aí: “Fulano não vale um tostão” ou, “aquele carro não vale um tostão furado”. Quer dizer, conseguiram desvalorizar ainda mais o tal de tostão. Apesar disto o centavo do Cruzeiro era  cunhado com o rosto ( com a esfinge? ) de Getúlio Vargas, velho ditador que, por coincidência, ocupava a presidência, eleito que fora pelo voto direto, mas que viria cometer suicídio pouco depois.
      
         Eu descobrira, e rapidamente, que aqueles freqüentadores da venda sempre perdiam, lá pelas tantas horas, alguns  tostões em suas saídas, devido a alguns goles a mais e principalmente  à precária iluminação, gerada por motores a óleo diesel. Assim, embora muito menino, eu pulava da cama bem cedo e ia “garimpar” os tostões pelos cantos empoeira-dos próximos daquele comércio. Dificilmente perdia a viagem, aproveitando as moedi-nhas  para comprar balas, lá mesmo na venda. Assim, o tempo foi  passando, os costumes mudaram, mas o tostão continuou em uso, até hoje, geralmente para identificar pequena quantidade, tamanho diminuto, e até pancada em disputas futebolísticas.

       No início da década de sessenta apareceu, jogando futebol de salão no Conjunto IAPI, em Belo Horizonte, perto da Lagoinha, onde eu já estava morando, um garoto baixinho de nome Eduardo Gonçalves de Andrade que, no meu humilde entendimento, tem dado outro enfoque ao defasado tostão. Certamente devido à sua baixa estatura física, Eduardo recebeu o apelido Tostão, que hoje se escreve com letra maiúscula quando se refere a ele. Aliás, passado tanto tempo, nossa gente tem assimilado o vocábulo quase que especificamente para se referir ao cronista, famoso em todo Brasil, cidadão dotado de alto nível de conscientização.

      Campeão do Mundo pelo Brasil em 1.970, Tostão encerrou sua brilhante carreira de atleta prematuramente em razão do descolamento da retina de um dos olhos. Formado, posteriormente, em medicina, clinicou por pouco tempo, passando a escrever crônicas esportivas, sendo admirado e respeitado por colegas de peso em todo Brasil. Jogando pelo Cruzeiro e em seus melhores momentos, me fez penar muitas vezes, eu na condição de atleticano, mesmo tendo no time o Dario Peito de Aço. Eu o perdoo porque grandes craques, independentes de seus times, têm, sim, fãs e admiradores.

       Do Tostão maiúsculo, transcrevo parte de sua crônica publicada em “O Tempo”, há uns dois anos.

      “Na semana passada, o brilhante jornalista André Trigueiro mostrou, em uma reportagem para o programa Cidades e Soluções do Globo News, o grave problema da poluição, de todos os tipos, nas grandes cidades brasileiras.
     
      Além disso crescem a violência, o barulho e o desrespeito aos cidadãos e às leis, Cometer infrações tão comuns como jogar papel  nas rua, estacionar em fila dupla são início para problemas muito mais graves, como a corrupção.
      
       O Brasil tem a sexta economia do mundo e está em 84º lugar no Indice de Desenvolvimento Humano (IDH), que é mais importante. Melhoram a economia e agravam-se os problemas sociais.”

        Diria pra nós a maioria: - E daí? O que o Tostão fala é o óbvio!É que nós não nos indignamos mais sobre estas constatações. Mais de 40/50 % dos municípios de hoje estão, como a Valadares de 1.952, sem esgoto; não há mais jeito ou disposição do poder público em combater quem suja o passeio e quem comete “pequenas” infrações de trânsito, o excesso de barulho, etc. E como a população joga sacos de plástico nos esgotos e nos cursos d`água, proíbem o comércio de fornecer embalagens. Ah, e se a estrada não cabe mais veículos e está esburacada, instalam radares,quebramolas e outras armadilhas similares.

      Recentemente descobriram que as estatísticas criminais mineiras não estavam corretas. Segundo a imprensa os órgãos integrantes da Secretaria de Defesa Social maquiavam os números, de forma a reduzir os índices de violência no Estado. O governador achou logo o culpado (não sei se pela maquiagem ou pelos altos índices da criminalidade...) Ah, pelos dois fatos?  Assim, do dia pra noite, exonerou seu secretário que deve ter ido maquiar dados na condição de  líder do governo na Assembleia Legislativa!!! Quer dizer... parece que uma solução foi dada às nossas necessidades de segurança. Assim, se referindo ao assunto, diria o “Nerso da Capitinga”: “PRA NOSSO DE-LEI-TE, POBREMA RE-SOR-VI-DO !”

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