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quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Chororô!

Wilalba F. Souza                                                                  07dez2.014


Em 1.937 meu pai, o velho Alceu, ingressou na Polícia Militar, naquele tempo Força Pública do Estado de Minas Gerais. Dez anos depois eu nasci no Hospital da PM. Após breve passagem pela ainda pequenina Antônio Dias fomos para Governador Valadares, onde, já sargento, prestou serviços no “Contingente” e depois no recém instalado 6º BPM, vindo de Belo Horizonte. Em 1.960, na graduação de 1º sargento,“empurrado” pelo famoso coronel Pedro Ferreira, com quem tinha trabalhado, foi cursar o CFOA (Curso para Oficiais da Administração), em BH, levando sua numerosa família. Num  verdadeiro  ato de heroísmo, os vencimentos eram parcos, foi declarado aspirante, sendo classificado em Barbacena, no 9º BPM, onde encerrou sua carreira no posto de capitão, em 1.967. Todo sacrifício valeu a pena. Velhinho, ele faleceu em Governador Valadares no ano de 2.010, aos noventa e três anos de idade.

Alceu trabalhou, desde criança, pelas imediações de Campanhã, região de Belo Horizonte. Ajudou a transportar, em lombo de burros, produtos horti-fruti-granjeiros para o mercado municipal da capital que se formava no início do século passado. Onde hoje é o aeroporto havia muita atividade agrícola, dizia ele. Também foi empregado em açougue até que, inspirado em um soldado amigo e aconselhado por um sargento, seguiu em frente, mesmo porque naqueles anos não era muito fácil conseguir trabalho digno. Por mais que a vida na caserna tenha sido difícil e espinhosa, ele nunca reclamou, preferindo “tocar a vida”.

Ele, meu pai, ainda estava na ativa, quando fui para o Curso de Formação de Oficiais, em 1.966. Peguei minhas coisas, pus numa mala humilde, tendo ele dito, com certo embargo na voz: “-você não vai agüentar! E ele que conhecia o Departamento de Instrução (Hoje Academia de Polícia Militar) tinha razão. Quase desisti, não fosse pelos meus colegas de Barbacena e de Colégio Tiradentes da capital, com quem eu frequentara algumas séries do 2º grau. – Se eles vão em frente, porque eu também não poderia ir? Se como PM da ativa fiquei, por apenas um ano com meu pai ao meu lado, nós dois, na reserva, convivemos por muitos anos, ele que tinha grande consideração ao seu filho colega de profissão.

E não é que, para minha surpresa, eu que nunca influenciei filhos para escolher seus caminhos, evidentemente feliz da vida, vi meu filho Rafael Meneghin de Souza ser convocado, após duro concurso, para o mesmo desafio experimentado por mim e por seu avô. Eu que o vi sofrer até se adaptar ao ritmo pesado das exigências acadêmicas e militares, igualzinho ao que acontecera comigo. Assim que se apresentou para matrícula, me telefonou e perguntou pelo meu sabre. – Sabre? Eu não tenho sabre, tenho a espada da minha formatura e que me acompanhou por todos os cantos como oficial! – É isso mesmo pai! Depois eu a apanho, encerrou.

Bem, dia 26 de novembro eu e minha família fomos à sua formatura e eu tive a honra de colocar sua  platina (ou passadeira) com a estrela solitária do aspirantado e, mais que isto, entregar-lhe, oficialmente, aquele sabre, digo, aquela espada que ainda vai ficar na ativa por muitos anos, se Deus quiser, honrando uma história que começou lá em 1.937. Cá pra nós: é muito chororó!!!


            

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