O caderno explicativo das solenidades do Dia do Pessoal da Reserva e Reformado da Polícia Militar de Minas Gerais, deste ano, nos apresenta, como sempre, os históricos das medalhas comemorativas “Coronel Fulgêncio de Souza Santos” e “Dever Cumprido”. O patrono da primeira morreu em combate lá mesmo, no túnel famoso, contribuindo para a vitória das forças mineiras em 1.932, sobre os paulistas, na Revolução Constitucionalista, assim por eles batizada e comemorada, mesmo após a derrota. Eram tempos de vigorosas disputas pelo poder nacional. Eram tempos de Getúlio Vargas. Eram tempos de batalhas fratricidas. A segunda medalha, criada em 1.990, homenageia companheiros que depois de servirem por trinta anos na Corporação, completam mais trinta na reserva.
Com muita felicidade a União dos Militares de Minas Gerais transcreveu, no mesmo caderno, uma belíssima crônica de Drummont, intitulada “O soldado do Túnel”, com mais que interessante narrativa de sua inspiração, sob o prisma de quem esteve lá, bem pertinho. Na realidade, talvez por eu ter feito uma pesquisa rápida e superficial, não tenha logrado êxito em encontrar alguma indicação de que ele, uma das maiores figuras da literatura brasileira, tivesse comparecido fisicamente àquelas frentes de batalha, na divisa de Minas com São Paulo, na Serra da Mantiqueira, conforme a história designa. Assim, que tal darmos um passeio pela sensibilidade ímpar e pelo talento imbatível de um mineiro interiorano universal, lendo e apreciando seu rico texto, em homenagem ao soldado, retratando a figura do soldado mineiro, do soldado da Força Pública de Minas Gerais, do soldado da Polícia Militar de Minas Gerais, enfim?
O soldado do túnel
Carlos Drummond de Andrade
“Não tendo o hábito nem o prazer dos discursos, transmitirei apenas, pelo microfone, uma imagem de trincheira, colhida nas linhas do sul. Quero oferecê-la à sensibilidade e meditação dos meus patrícios. Eu estive diante do Túnel e vi o soldado lutando.
E o soldado não me viu, porque estava lutando. Estava integralm,ente lutando. Com o corpo dentro da terra, tal um bicho inferior, sua cabeça alçava-se à superfície e era como um acontecimento humano na paisagem da serra. Corpo, cabeça, e fuzil faziam um só indivíduo e acusavam uma só decisão.
A princípio meus lhos não distinguiram bem, porque da luminosidade da serra havia passado para a escura e silenciosa trincheira. Percebia a terra cortada de fresco, os torrões ainda se esboroando, os degraus improvisados, os ramos secos e as vigas suspensas sobre nossas formas tateantes. Caminhávamos, tropeçávamos. E onde a luz não guiava, porque era ausente, guiou-nos o ruído seco, metálico, pontuado, das armas que detonavam. Foi então que eu vi o soldado – que eu senti o soldado, desenhando-se vagamente na estreita fita de luz coada pela abertura, onde havia a paisagem e havia o cano da arma.
Aproximei-me daquela coisa grave e serena. Ele não percebeu. O olho na alça de mira, o pensamento no alvo, o mundo para ele era o morro fronteiro, mancha verde, onde devia haver uma trincheira espiando; a vida estava inteira naquele instante, e não havia nem marchas passadas nem caminhadas futuras. Havia um fuzil, um alvo, um homem e um morro. Tudo era extremamente simples, nenhuma estilização, nenhuma contingência e nenhum cálculo. O soldado estava lutando, estava sinceramente, profundamente lutando.
Rocei-lhe com as mãos o caqui dos braços, inclinei o rosto sobre seu ombro esquerdo e vi o Túnel. A 500 metros de distância, a boca negra dormitava na base da colina, entre colinas que fechavam o horizonte e das quais saiam fogos. A presença humana denunciava-se naquelas alturas pelo zzz capcioso das balas, numa parábola instantânea. Mas na serra enorme eu via apenas um homem, feito de pau, de ferro, de substâncias indiferentes, um ser sem necessidades e sem desvios, agindo certo, visando reto, atirando firme. Eu via o soldado lutando.
Cá embaixo, estavam as linhas menos batidas pela artilharia, estava o repouso nas barracas, alegrias noturnas do bar, vida multiforme dos dias comuns, dos dias que mesmo neste instante, são possíveis, quando se vide longe da trincheira e não se ouve o zzz de um besouro traiçoeiro, Cá em baixo, estava a rua cheia de músicas e vestidos, estavam também as imagens do amor, uma lâmpada acesa dentro de uma casa e um relógio que marca as horas, e um prato de sopa deixando subir a tranquila fumaça e os olhos ingênuos do filho e os olhos repousados da esposa. Estava a vida, para a qual só há um adjetivo, qualquer que ela seja: maravilhosa. Mas o soldado não via nada disso, porque estava lutando.
Eu desci o morro, trazendo comigo o recorte daquela figura imensa, destacando-se como uma árvore ou uma torre. Eu trouxe para o meu trabalho miúdo e medíocre a admiração daquele soldado perfeito, anônimo e formidável, que lá está lutando na serra e são milhares, e cobrem uma linha que vai do sul ao triângulo e a linha do nosso absoluto dever trouxe-o para que ele enriquecesse o meu espírito e ensinasse o meu caminho. Vendo-o, pensando nele, procurando compreendê-lo, como é fácil viver este momento que o destino traçou a Minas Gerais. Todos os deveres são claros. As responsabilidades são nítidas. Mineiros estão lutando lá longe, nas alturas, aonde não chegam os boatos nem se insinuam as vacilações. E como poderíamos deixar que eles lutassem e fossemos ficando aqui, inertes, ridículos, pequeninos, fazendo o comentário malicioso dos telegramas, tecendo hinos desvirilizados à pacificação, dançando cinicamente o nosso tango ou distribuindo perversamente o nosso derrotismo?
Vamos ser, como esse soldado, diretos e positivos. Se não suportamos todo o peso de seu fuzil nem temos todos a sua pontaria certeira, muita coisa há em nós que se eleva como um heroísmo e se abre como um devotamento. Vamos correr o mesmo risco. Há muitas maneiras de corrê-lo. Nos trabalhos subsidiários da campanha, nos serviços obscuros, na propaganda, na diligência, no fervor e na preocupação de servir nós também podemos lutar pela causa desse soldado. Seremos, é certo, mais humildes, porque do alto da Mantiqueira ele domina todo o Estado de Minas Gerais, e insere, na nossa “geografia cordial”, um ponto de infinita significação humana-mas seremos também soldados e lutaremos também”.
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