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sexta-feira, 6 de maio de 2016

  Sinais dos Tempos

Wilalba F. Souza                                                          06.mai.2016

Recém promovido a segundo tenente, no 6º BPM, sediado em Governador Valadares, isto lá pela década de setenta, normalmente nos eram dadas missões ligadas à seleção e formação de novos integrantes da Corporação, simplesmente denominados recrutas. Bons, mas difíceis tempos para se convencer gente de qualidade a se somar a nós. Costumavam dizer, claro que a grosso modo: “se não serve pra nada, vá ser soldado da Polícia Militar”. Meio exagerada a afirmação que, entretanto, tinha um fundo de verdade. O nível escolar dos candidatos não era dos melhores e pouca gente, “estudada”, se arriscava a enfrentar a caserna exigente, ser muito “explorado” e receber soldos diminutos.

Era corriqueiro muitos dos selecionados, todos de origem humilde, serem excluídos ou pedirem pra ir embora, tendo em vista a não adaptação às exigências regulamentares e ao ritmo dos trabalhos. Entretanto os que ficavam conseguiam fazer uma carreira razoável que lhes assegurava segurança e estabilidade, mesmo ganhando pouco, mas o suficiente para ter sua casinha, sua previdência, assistência à saúde, acima do básico, para ele sua família viverem. Não havia sinais de riqueza ou coisa parecida, mesmo entre oficias, guardadas algumas exceções, dentre aqueles que conseguiam montar um negocio qualquer ou via recebimento de herança.

Mesmo assim, já no meu tempo, podia-se assistir uma evolução e alguma ascensão social dentre os integrantes da PM. O próprio Estado, claro que instado pelo comando, ou pelos comandos, respondia, à medida do possível, às necessidades da Polícia Militar que sempre foi “pau pra toda obra”. A cultura disciplinar e a existência de normas rígidas garantiam pronto atendimento às chamadas dos governadores, comandantes supremos da Corporação. Em tempos de agitação e dissoluções intestinas, lá estavam os “milicos” de prontidão, em condições de resguardar a ordem, e manter a paz. E, se fosse preciso, mesmo em sua simplicidade, iam para o confronto.

Nas eleições municipais de 1.970, oficial muito jovem e inexperiente, fui colocado à prova, na região do baixo-Jequitinhonha, para garantir e policiar eleições de “coronéis/fazendeiros”, numa cidadezinha de nome Bandeira que foi totalmente isolada, e por vários dias, por chuvas torrenciais. Eu e dois pares de soldados e cabos buscamos urnas na comarca de Almenara, transportando-as em lombos de burros e através de riachos, com água até a cintura. De serviço vinte e quatro horas por dia, sem reclamar. Ao fechar a porta de sua casa, um soldado teve decepado um dedo da mão. Sem recurso maior foi ir, até a farmácia, onde fez um curativo no que restou e, no dia seguinte, “partir pra rua”.

Além do orgulho pelo dever cumprido, uma recompensa aguardava os PM mineiros ao fim de seu tempo de serviço, trinta anos depois: manutenção de seus vencimentos equiparados aos do pessoal da ativa; más lembranças, porém melhores recordações de sua atuação nessa atividade e um título que ele levaria até os fins de seus dias: seu posto ou sua graduação.


Os novos tempos estão aí. E nem sei se com a mesma fé e dedicações dos tempos de antanho. Os concursos para ingresso na PM de Minas são concorridos nacionalmente, os salários melhoraram; não sei, também, se em benefício do serviço, acho que não, mas os regulamentos foram adaptados. Ficaram mais “maleáveis”, se é que posso dizer assim; criaram-se muitas facilidades para o servidor militar ser transferido, e muito novo, para a reserva, desfalcando o efetivo, não tendo, o Estado, condições de recompor as necessidades. Enfim, são muitos os atrativos. Para corroborar isto e recentemente, um amigo meu, relativamente bem de vida, levou seu filho, de uns vinte anos, para se apresentar no Curso de Formação de Soldados da PM em Belo Horizonte. O rapaz “trancou”sua matrícula no curso de direito e foi seguir seu destino. Já tem carro, celular de último tipo, roupas de grife, conforto e, se Deus quiser, um bom futuro pela frente.

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