Wilalba
F. Souza
23/Jan/17
Nós brasileiros somos chegados a um
puxadinho. Mesmo quando os tempos favorecem, há quem prefira acrescentar à sua
casa mais um cômodo, aproveitando a laje, fazendo um remendo qualquer,
adaptando banheiro ou cozinha, até que transforme sua morada em arremedo de obra,
sem organização ou planejamento.
Moleque, na bela e ainda jovem cidade de
Governador Valadares, ainda inocente garoto, vivia rodeando a Cadeia Pública, construída
na década de 30, perto de onde morava, aproveitando também que meu pai era comandante
do Contingente Policial Militar, encarregado de cuidar do complexo, quartel,
delegacia e prisão.
As coisas eram mais simples e a maioria
dos presos constituída por ladrões de animais, homicidas eventuais e, às vezes,
um ou outro pistoleiro, denominação dada a quem matava mediante encomenda.
Havia quatro xadrezes, com umas seis camas beliches cada. Nos fundo, um pequeno pátio, onde o pessoal era levado
para tomar “banho de sol”, sob a guarda de dois, ou três soldados. Um cabide de
armas ficava à vista, em uma sala grande, à entrada, com vários fuzis e
revolveres grandes, calibre 45.
Interessante é que não havia detentas.
Depois de uns dez anos fora da cidade, voltava eu para Governador Valadares,
como aspirante. A Cadeia Pública era a mesma e, na contra esquina, num pequeno
sobrado, funcionava a Delegacia de Polícia, tendo à frente um Oficial de
Polícia. O número de presidiários aumentara, e o “aperto” também! Estávamos em 1.969.
Em 1.978, ou 1.979, como 1º tenente, fui
nomeado Delegado Especial de Polícia para atuar junto à Delegacia Regional de
Segurança Pública. Trabalhei, por dois anos, com três ou quatro delegados da
Polícia Civil. A Cadeia Pública era a mesma. Fizeram, nos cinqüenta anos de
existência daquele estabelecimentos prisional, algumas intervenções mínimas, nada mais que puxadinhos, nas
laterais do pátio, improvisados como “celas” para gente menos perigosa e
algumas mulheres que passaram a habitar o local. E, anexo ao novo prédio da
Delegacia Regional, no bairro de Lourdes, mais precisamente nos fundos, havia,
também, xadrezes, denominados correcionais, onde se colocavam bêbados, pequenos
ladrões e arruaceiros, em grande número, resultados do trabalho das patrulhas
no fim de semana. Ficavam apenas em roupas íntimas, para evitar algum
incidente.
Levadas por motivos vários, as pessoas ficavam trancados, a não ser que aparecesse um
“habeas corpus” qualquer, para a triagem na segunda cedo, presentes detetives, delegados e soldados da
PM lá lotados. Daí o nome dado à equipe de policiais/detetives que trabalhavam
na rua apurando furtos e crimes contra a pessoa. Era a turma da “Tiragem”, ou,
na verdade, da triagem, feita às segundas feiras bem cedo.
Os condenados pela justiça a penas
transitadas em julgado eram mandados cumprir penas no Complexo Penitenciário de
Neves, antes um ambiente de recuperação prisional agrícola. Só que a demanda
estadual aumentou demais e, depois de adaptações feitas por todas as Minas
Gerais, tiveram que construir as penitenciárias atuais, espalhadas por todos os
lados, até mesmo lá perto da Princesa do Vale, na localidade de Periquito,
município de Açucena! Só que a bandidagem aumentou demais, a violência
proliferou e complicou-se o trabalho de recuperação dos “pacientes”. E os
estabelecimentos penais construídos são insuficientes ao atendimento da demanda,
pois entra mais gente do que sai.
A Polícia Militar, antes encarregada da
segurança nas cadeias e penitenciárias, foi substituída por um segmento de
guardas penitenciários, em serviço efetivo há alguns anos. E as dificuldades só
têm aumentado, à medida que proliferam malfeitores, em todos os níveis, ficando
constatado que a justiça brasileira não dá conta de proceder à crescente gama
de julgamentos, o que provoca a superlotação dos estabelecimentos penais,
integrados por todas as mazelas que hoje assistimos pela mídia em geral. Processos
até simples se acumulam pelas prateleiras dos fóruns de todo o Brasil, mantendo
em promisquidade pequenos e grandes delinquentes, o que, convenhamos, só serve
para deteriorar o sistema.
O sistema prisional brasileiro é
ineficiente, caro e inepto. Não se trata de uma notícia muito nova. Os administradores
vão “jogando” os problemas para frente, até que o “balde entorne”, como no
Amazonas, em Roraima e no Rio Grande do Norte. E essa “praga” prolifera. Hoje a
ocorrência é nos estados citados. Amanhã, certamente, esse tumor estourará por
todos os lados. Não se pode colocar a culpa na legislação. Ela é perfeitamente
viável, desde que as ações sejam coordenadas pelos três poderes
constituídos. Repassar
responsabilidades, construir puxadinhos e “passear” com chefes de quadrilhas
pelo território nacional vai adiantar pouco... ou nada!!!
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