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terça-feira, 2 de julho de 2019

Galinha de Angola

Wilalba F. Souza                             01/Jul/2019        

Há bastante tempo não compareço neste espaço, que me foi reservado para escrever, anotar e comentar sobre assuntos diversos. Por ser reformado da Polícia Militar de Minas Gerais tenho me arriscado mais nessa área, ligada à segurança, mas me faço presente em outras searas, como a política, especificamente naquilo que nos causa mais temor, que é o radicalismo, produtor de ameaças ao andamento democrático e pacífico de uma transição de governo, de uma linha doutrinária para outra, como é o caso do Brasil. Bolsonaro venceu as eleições e encontra dificuldades enormes para que prevaleçam suas promessas de campanha. O Congresso, cheio de boas, excelentes e prestimosas intenções, mantém, em suas “fileiras”, quem transporte maus, péssimos e terríveis objetivos. A divisão de ideias e propósitos, nas “casas do povo” se escancarou. Sejam elas da parte dos governistas ou oposição. O mesmo acontece no seio dos mandatários. Os organismos de imprensa, que deveriam manter imparcialidade, aboliram esse conceito básico do jornalismo. Logo, tudo se apresenta, sempre, muito difícil. Aliás, nem o futebol, em tempos de ”Copa América” entusiasma. Por esta razão entrei numa fase mais leve de existencialismo. Aliás, já era tempo.

No mês passado, a convite de um amigo e a esposa, comprei um pacote de viagem para Portugal. E lá fomos, eu, minha mulher e o casal amigo. É uma jornada bastante pesada: saída de Barbacena, numa van de turismo às 10 da manhã, chegada em Confins às duas da tarde.  Entre “check-ins” e despachos de bagagens, para embarque às cinco e meia da tarde, numa aeronave da TAP (Transportes Aéreos Portugueses), sete horas e meia! Bem, entrando no avião, adiantamos nosso relógio quatro horas, diferença do fuso horário daqui, pra lá. Eram, então, 21.30 hs, na Pátria Mãe. Oito horas de voo, a bem da verdade tranquilo, sem turbulência, com aquelas comidas de bordo, acompanhadas, ainda bem, com algumas taças de vinho… português, que é bom. Mas dormir, mesmo, que é bom, nada, a não ser um cochilo, e outro, com o pescoço pendurado… até pousarmos no bravo aeroporto de Lisboa, às seis horas da manhã. O desembarque foi mais que tortura: meio mundo correndo pra enfrentar a fila de duas horas, até passar pela polícia e apresentar os passaportes, e encontrar o “guia” que nos levou até o hotel, muito bom, D. Pedro. Aí começava nosso “tur” pela terra de Cabral, aliás não muito festejado por lá. Depois falo sobre essa viagem, num país tão tranquilo, quanto carente.

Dias depois da cansativa estadia em Portugal, pois visitamos quase tudo, inclusive as principais cidades e atrações turísticas em dez, doze dias, fizemos o caminho inverso, constatando que todos os aeroportos movimentados têm fila, até o de Confins, que a gente pensava ser tranquilo. Com tudo incluído, em matéria de transportes, de Lisboa a Barbacena, gastamos módicas 22 horas, nos “entra e sai” de carros e avião e nos bloqueios propositais da Polícia Rodoviária Federal, em Congonhas, na Br 040. Milhares de motoristas e passageiros prejudicados porque, não se sabe em nome de que, no posto inerte, pela falta de policiais, todas as sextas- feiras afunilam a via, permitindo a passagem de um veículo apenas, provocando um engarrafamento gigantesco. Coisas de Brasil.

Dia 20 de junho, quinta feita, feriado, dedicado a “Corpus Christi”, precisei ir a Governador Valadares, pois assinaria uns documentos de interesse da família na sexta. Qual o melhor itinerário? Me responderam que passando por Leopoldina, seguindo direto pela BR 116. E lá fomos, eu e a minha mulher. Pelamor de Deus! Ô estrada sem recursos! Ô irresponsabilidade dos motoristas, pelo menos de boa parte deles. É muito risco. E ainda tem gente que acha avião perigoso. É, deveras uma aventura. E eu a encarei, assistindo essas caminhonetes maiores fazendo absurdos, ultrapassando nas faixas duplas, sem visibilidade e, quando se viam em dificuldade, jogavam seus veículos em cima de quem trafegava prudente e corretamente. Mas, fazer o quê? Correr o risco, pois polícia mesmo não havia. Por alguns quilômetros ficamos atrás de uma viatura da PM, que nada tinha a ver com o policiamento do trecho, e todo mundo procedeu bem. Foi só desaparecer, começou a loucura. Em suma, lombada eletrônica nada resolve. A polícia tem que se fazer presente, ser ostensiva. Aí os machões do volante se aquietam! Sugestão: recrutem policiais, já!

Sãos e salvos, chegamos a Governador Valadares, depois de uns oito anos sem visitá-la. Tendo em vista o início de inverno, a temperatura estava agradável. Nos hospedamos em um hotel do centro, descansamos um pouco e, lá pelas dezoito horas, resolvemos sentar numa pracinha, onde vendiam refrigerantes, caldo de cana geladinho e pastéis. Uma beleza. Uma tranquilidade, permitindo-nos relembrar um ambiente que habitamos, por muito tempo, há alguns anos, mesmo com alterações promovidas pelo tempo. Mas a contemplação mudou, e a conversa tomou outro rumo, quando uma ave, de cor clara, alçou voo a uns trinta metros de nós. - Que ave é aquela, perguntou minha mulher! Parece ser uma garça, ou algo parecido, pois o rio corre aqui perto, respondi, voltando atenções para o delicioso pastel, que degustamos em minutos. Mas, alí perto, num cantinho, existe a praça denominada do vigésimo, onde há um monumento aos vinte anos de emancipação do município, inaugurado em 1958. Eu era menino e assisti, há mais de sessenta anos. Vamos lá tirar uma foto, falei com minha parceira. Levantamos e fomos.


Depois das fotos, e olhando para cima, vislumbramos o tal pássaro pousado na ponta do poste maior. Um senhor passou e, dirigindo-se a nós, informou que ele tinha aparecido por ali havia uns dias, parece que depois de cair da carroceria de um caminhão. Mas que bicho é este, perguntei! Uma mulher se aproximou e a identificou como sendo uma galinha de angola. - Mas galinha nenhuma voa, nem mesmo a cocá, retruquei! - Pois é, mas é galinha de angola sim, insistiu! Encerramos o “bate-boca”, nos despedimos e, não sem antes bater uma foto, seguimos em frente, pois havia um compromisso inadiável com minha irmã! Mas fomos,“encucados’.


Onze horas do dia seguinte, sexta feira, passando próximo à Praça do Vigésimo, de carro, e ao lado, assistimos um bando de pombos comendo milho. E com eles, a galinha de angola, dando mostras de que estava perfeitamente ambientada. E os transeuntes passavam ao largo, deixando as aves em paz. Seguimos caminho mas, na parte da tarde, depois de passear bastante pela bela cidade, denominada a “Princesa do Vale do Rio Doce”, urbe de passeios largos e comércio agitado, resolvi visitar aquela pracinha dos pombos. E fiquei mais surpreso: num fio de luz, ou de telefone, ao lado de vários “colegas”, e empoleirada, em perfeito equilíbrio, estava a galinha de angola, da Angola que já foi portuguesa, na maior paz, curtindo sua nova comunidade, em pleno centro urbano.


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