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terça-feira, 30 de agosto de 2016

O barulho do Wesley Safadão

O barulho do Wesley Safadão

Wilalba F. Souza                                   17/08/2016

Confesso que, possivelmente por ter convivido mais com as baladas de Roberto Carlos, a bossa nova de Toquinho, Vinícius e Tom Jobim, as canções de Gonzaguinha, Ivan Lins e os boleros de Gal Costa, Elizete Cardoso e Dorival Cayme, para citar os que me vêm à memória, dentre as centenas de artistas que povoaram minha existência, juntamente com  incontáveis estrangeiros, ganhadores de nossa admiração, não ouço, com freqüência, a música sertaneja, tal qual ela é executada hoje, miscigenada a ritmos exóticos.

Há uns dois anos fui pego de surpresa quando, com certa comoção, os meios de comunicação noticiaram o falecimento do cantor sertanejo Cristiano Araújo, pra mim desconhecido até aquele momento. Disseram que ele era um artista emergente, com excelentes possibilidades. Uma morte acidental ceifou-lhe a vida, sua trajetória de sucesso e levou, junto, sua namorada, que viajava com ele, lá pelos Goiás, fonte inesgotável de cantores famosos, da mesma linha melódica.

Um apresentador da Rede Globo, este sim eu já conheço pela telinha há muito tempo, fez, com muita espontaneidade, um comentário sobre o tal acidente e revelou não conhecer Cristiano, o que foi suficiente para ele levar “cacete” de todos os lados. É que há, pra todo canto, um verdadeiro  culto às duplas, e mesmo aos solos inspirados nos antigos duetos, ditos caipiras. Essas sim, mais simples, coadjuvadas, às vezes, por um violão e uma viola, ou nem isto.

As apresentações dos sertanejos de hoje são sofisticadas e caras. Carregam toneladas de equipamentos e animam festas de todos os tipos, principalmente exposições agropecuárias de norte a sul. Geralmente esses artistas são contratados a peso de ouro pelas prefeituras e, sem entrar no mérito, na legalidade ou não desses patrocínios, penso que “rola” dinheiro demais nessas empreitadas, num país cheio de demandas sociais. Mas, como dizem os artistas, os intelectuais, “o show tem que continuar”, ou que “o povo quer pão e circo”!

Na mesma “balada”, aparecem os artistas do norte/nordeste. Misturaram tudo: o tal de axé baiano, de Daniela Mercury e Ivete Sangalo e de cantores como Wesley, dito Safadão, um fenômeno parecido com Cristiano, cujas apresentações custam valores acima de R$400.000,00 (quatrocentos mil reais) e mostram canções com ritmos caribenhos abrasileirados pela criatividade tupiniquim, embalados por um sentimento denominado sofrência, algo como “dor de cotovelo”, penso eu!

Um desses contratos, do Safadão, muito noticiado, foi o embargado, pela Justiça, em Caruarú, me parece, contra o altíssimo valor cobrado por um show que seria pago pelos cofres públicos, certamente combalidos, da urbe pernambucana, por um juiz que considerou absurda a tal despesa. Mas, posteriormente, a decisão judicial seria derrubada, em outra instância, certamente por um julgador com maior afinidade musical ao rapaz, e o “astro” recebeu seu “cachê” milionário.

Atualmente essas artimanhas estariam sendo controladas e  acompanhadas, de perto, pelos órgãos encarregados da fiscalização afim. A tal “Lei Ruanet” serviu de estratégia para captações miliardárias, em grandes empresas, existindo indícios de “mutreta”. E ainda havia quem, mesmo assim, cobrasse ingresso. Uma farra com dinheiro público, evidentemente! Claro que a reação da elite artística abastada foi imediata, contra o governo de plantão (?) do senhor Temer! Foi, mal comparando, como bulir na ração de animal feroz.

Fiquei conhecendo melhor a gana de Safadão – e que nome sugestivo para um artista admirado pelos nossos jovens – sábado passado, quando,  precisando trocar meu aparelho telefônico, desloquei-me até o centro da cidade e percebi que, por iniciativa da prefeitura, comerciantes, que antes ligavam seus sons em altíssimos decibéis, estavam bastante educados. Davam seu recado sem prejudicar os transeuntes e moradores. Já dentro da loja, conversando com a atendente, fomos interrompidos pelo infernal barulho do som de um caminhão equipado, “até os dentes”, com potentes caixas! Incomodado, e como, pela barulheira, concluí rápido, a negociação. Ao sair, lá estava veículo da troupe do artista que iria se apresentar, à noite, no Parque de Exposição, certamente com dinheiro do município. Realmente um abuso, a bagunça provocada pelo tal Safadão, com indicativos de que o que mais importa é faturar! De resto, temos que aturar, num país onde a cultura do “os incomodados que se retirem”, prevalece!

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