Wilalba
F. Souza 03/Nov/2017
Lá
pelos meados da década de 50 – século passado -, o município de Governador
Valadares, ainda uma promissora cidade do futuro e polo regional, devia ter uns
trinta mil habitantes, nos seus jovens pouco menos de vinte anos de
emancipação. Apesar disso, já era conhecida como a “Princesa do Vale do Rio
Doce”, que ainda não integrara Ipatinga, com sua indústria pesada de aço e de
fabricação de papel, via Cenibra (Celulose Nipo-brasileira), surgidas da década
de sessenta para setenta. Foi um dia desses, mas o acesso confortável às
comunidades ribeirinhas ao falecido rio era feito de trem, pela antiga ferrovia
Vitória-Minas, do competentíssimo engenheiro inglês, Percival Farquhar, nome,
aliás, de uma fundação de ensino daquelas bandas. Bem, Valadares empreendia,
com excelência, o comércio, extraia muita mica (malacacheta), madeira e
expandia a criação de gado, com incentivo de crédito governamental a
fazendeiros e, claro, liberdade descontrolada para vastíssimo desmatamento da
Mata Atlântica. Assim, não temos dúvida, foi alavancado o crescimento da hoje,
não tão famosa como já foi, cidade.
Assisti,
ainda menino, a abertura de bairros, inauguração de praças e o calçamento,
meticuloso, das ruas centrais, antes poeirentas, num clima quente,
característica da região. Mais tarde agradeci e reconheci o valor dos
administradores municipais que se preocuparam com o traçado urbano, com as calçadas,
os passeios, largos e confortáveis. Cheguei a frequentar a Praça de Esportes
Municipal, completa, inclusive com piscina, obra do nosso governador,
Juscelino. Infelizmente, anos depois pagamos caro pelo desmatamento
desenfreado, resultado da imprevidência humana. Sem lugar para se acomodar, as
águas das chuvas vão direto para o rio, levando terra, provocando ligeiro
assoreamento. Daí as fortes enchentes, com as quais convivi, e sofri, a partir
do ano de 1978. Aliás, essas cheias e suas consequências são recorrentes. E,
parece, as pessoas são incapazes de reconhecer as razões desses eventos, sempre
culpando, como se isto fosse possível, a natureza.
Mas,
depois de rodear um pouco, antes de entrar no assunto principal, recordo que,
na mesma época, Governador Valadares era a cidade que mais tinha bicicletas,
proporcionalmente à sua população, no estado e, acho, no Brasil. Toda família
tinha muitas. Um meio de locomoção espetacular, numa urbe bem plana. O
automóvel era pra poucos e inexistia transporte público. No início do dia as
ruas se enchiam das hoje denominadas “bike”.
Senhores, senhoras e jovens não se envergonhavam de pedalar. Em quase
toda esquina existia uma oficina para consertos, remendos de pneus, troca de
correntes e manutenção geral para que as “calangas” não parassem. E não eram
tão baratas. A maioria vinha de fora. Eu gostava de andar na da minha mãe, que
não tinha o “quadro” alto, como a de meu pai. Elas tinha uma cadeirinha na
frente, para os irmãos pequenos. Cheguei a ganhar uma “Monark” infantil,
novinha, num Natal. Já era de fabricação
nacional, mais em conta e comprada “a prestação”!
Das
importadas, a maioria levava a marca Philips, acho que inglesa, muito
resistentes. Com um pouco de sorte ainda podemos ver algumas rodando por aí.
Entretanto a minha preferido, inesquecível até, foi uma tal de Husqvarna, de
fabricação tcheca. Elegante, leve, forte e de pneus mais finos, de fato,
diferente e cara. Sonhava ter uma, mas isto não ocorreu. O tempo vai-se,
rápido, vão-se alguns sonhos, substituídos por outros. As coisas vindas da
Tchecoslováquia, de bicicletas a ferramentas e outros veículos eram de primeira
linha, de alto padrão de qualidade. Em 1993 o país se dividiu em dois,
pacificamente. Surgiram a República Tcheca e a Eslováquia. Motivações internas
de uma terra sobre a qual eu sempre soube pouco, mas que admirava por causa de
suas bicicletas...
Hoje
assisti o filme “Operação Antrophoid”. História interessante sobre a missão de
sete destemidos paraquedistas que, partindo da Inglaterra, saltaram perto de
Praga para eliminar um general alemão que assumira o poder, constrangendo,
amedrontando e submetendo o povo ao jugo da suástica de Hitler. A
Tchecoslováquia tinha sido entregue, de bandeja, para os nazistas, pelos
aliados, em 1939. Então, para mim, a admirada Tchecoslováquia passa a ter valor
não só por causa da Husqvarna, ou por suas participações, com belíssimo
futebol, há anos passados, em Copas do Mundo, mas por outras qualidades que seu
povo, hoje formando duas novas nações, têm e merecem ser conhecidas. Ah! Vejam
o filme. É muito bom!
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