Primeiro Ato
Wilalba F. Souza 16/05/2020
Meu pai, já falecido há dez anos, era sargento, no
início da década de 50 do século passado, e esteve em missão, na Região do
Contestado, pelas bandas do município de Mantena, fronteiriço ao Estado do
Espírito Santo. Me lembro dele ter ficado longe de casa, nessas diligências,
por duas, ou três vezes. A gente morava em Governador Valadares.
O velho capitão Alceu nunca nos relatou qualquer
passagem sobre aqueles fatos, inda mais que éramos crianças. Mas, na nossa
inocência, sempre ouvíamos algo sobre "A guerra do Contestado", entre
Minas e os vizinhos, sem relatos de combates e mortes.
Depois de formados aspirantes, eu e mais sete
colegas fomos classificados no 6º BPM, sediado na Princesa do Vale. E lá,
rapidamente, nos entrosamos com a oficialidade. Existia um armazém
reembolsável, chamado de Subsistência, para apoio à família militar. Ali, na
chefia, conhecemos o capitão Bernardo (nome fictício), um baixinho moreno,
gente boa pra danar, veterano na ativa, modelo Nélio Lisboa (baixinho da nossa
turma de aspirante PM/1969). Gostava, o oficial, e como, de uma pinguinha, sem
que isto interferisse em suas atribuições.
Ele, ainda soldado raso, nos anos 50, integrou um
dos destacamentos que se revezavam na fronteira. Mesmo pequetito, raquítico,
lhe "pagaram", no grupo de combate, uma metralhadora de tamanho médio
e peso considerável. Bom, assim contaram, pra nós, os PM mais antigos. E,
durante o deslocamento de sua patrulha, na subida de uma colina, próximo da
crista ainda arborizada, o jovem soldado tropeçou, caindo com sua metralhadora
que disparou em longa e perigosa rajada.
A tropa, assustada, rolou pelo chão, desorientada,
mas ainda conseguiu ver, literalmente despencando, de duas árvores a uns cem
metros de distância, um grupo de soldados "inimigos" que bateu em
retirada, com todos apavorados e gritando: - Aqueles mineiros são doidos!!!
Os mineiros voltaram exultantes, e ligeiro, pro
acampamento, contando todas ações e vantagens do entrevero, aumentadas, claro,
nos relatórios elogiosos à tropa, engrossados, em especial destaque, pelo heroico
feito do soldado atirador, que pôs os capixabas pra correr. Daí a alguns dias
ele teria sido promovido a cabo, por ato de bravura! Era o início de uma bela
carreira, resultado de interessante relato daquela disputa territorial entre
Estados irmãos.
Segundo Ato
”
ZÉ DA PORCA E A GUERRA DO CONTESTADO”
por:
José Mário Vieira – Advogado
Carlos Augusto da Costa - Coronel PM-ES
Carlos Augusto da Costa - Coronel PM-ES
Certa feita, já faz algum tempo, contou-me meu pai
que durante a “Guerra do Contestado” - conflito militar Espírito Santo e Minas
Gerais (que durou cerca de 50 anos, findando-se em 1963), o número de soldados
mineiros era muito superior aos militares capixabas.
Em que pese, uma heroica e valente tropa capixaba,
segurar o avanço inimigo pelo flanco noroeste do Estado, a situação estava
ficando insustentável.
A supremacia bélica e numérica do inimigo era
flagrante e seus soldados avançavam perigosamente sobre o nosso território, o
que obrigou ao Governador Capixaba, convocar civis, num ato final quase que
desespero de guerra.
Que tal seleção se daria de forma emergencial e
compulsória devendo se dar preferência aos civis, em especial os mais jovens,
saudáveis e corajosos.
Cumprindo a ordem emanada da autoridade maior, um
combatente Tenente da milícia local, mandou estacionar um caminhão na Praça, no
coração da cidade, dando início ao recrutamento de guerra.
Depois de uma breve preleção e um básico
treinamento, o civil recebia seu cantil, seu fuzil e meio que ainda que confuso
e assustado fazia o “sinal da cruz” e na viatura embarcava.
E, foi nesta toada, que do nada surgiu a
enigmática figura de “ZÉ CAPETA”, um sujeito forte e grosseirão que deu um
grito de guerra e foi logo afirmando: “SOU O TEMIDO ZÉ CAPETA, E O MINEIRO QUE
QUISER VIVER, QUE SE ESCONDA”.
Apanhou o fuzil e num salto acrobático subiu na
boleia, deixando todos os demais perplexos e admirados, com tamanha bravura. Feita
a chamada, o comboio de “voluntários de Ortiz” seguiu viagem para aquela que
talvez fosse sua última primeira e última missão.
Após muitas horas de viagem, léguas e léguas de estrada
de chão, já lá pelas bandas de Barra de São Francisco, a tropa fez parada.
O intrépido Tenente, mais que diligente, foi logo
perguntando: “Quem é voluntário para ser a sentinela avançada, para arriscar
sua vida pela tropa que jaz faminta e cansada? Para fazer soar o alarde em caso
de ataque?
E, antes que alguém murmurasse, irrompeu o tal “Zé
Capeta”, afirmando: “Deixa comigo seu Tenente até 10 (dez) mineiros eu mesmo
resolvo, se passar disso venho buscar mais gente”.
Montado o acampamento de campanha, todos se
recolheram para o merecido e necessário descanso. Ao raiar do dia, a batalha
seria eminente. Já era madrugada e quando a tropa cansada já dormia que
aconteceu o inusitado. “Zé Capeta” aos berros e desesperado no acampamento
surgia, gritando: “FOGE! FOGE! SALVE-SE QUEM PUDER” SÃO MAIS DE MIL MINEIROS,
NINGUÉM VAI FICAR DE PÉ.
A tropa se recompôs rapidamente e “armados, até os
dentes”, avançaram em direção ao inimigo, para uma guerra de vida e de morte.
Avança daqui, avança de lá, revira daqui, revira de lá, rasteja daqui, rasteja
de lá. E, com muita habilidade e destreza os bravos guerreiros conseguiram o
posto avançado alcançar.
Acontece, que que para surpresa e indignação geral
da tropa, ao invés de milhares de mineiros, o que os voluntários encontram no
local, foi “UMA PORCA DO MATO, COM 03 FILHOTES”, fuçando o mato.
Ocorreu que o tal “Zé Capeta”, na verdade, estava
com tanto medo, que a primeira moita que viu balançar, fugiu do seu posto, sem
sequer um tiro disparar.
Passado o susto, e depois de muito “gargalhar” os
guerreiros capixabas (segundo meu pai, ele estava lá), resolveram, então, o Zé
rebatizar. Ao invés de “Zé Capeta” de “ZÉ DA PORCA”, todos iriam lhe chamar.
Gostaram da estória?
Pois, bem, não sei se é verdadeira, mas meu pai viveu esta
época.
Seja como for, me sinto um privilegiado. Cresci ouvindo meu
pai estes causos contar.
Nenhum comentário:
Postar um comentário