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domingo, 17 de maio de 2020

Sobre Contestados, Heróis e Lendas - ( Relatos de autores diferentes, em dois atos)


Primeiro Ato

Wilalba F. Souza      16/05/2020

Meu pai, já falecido há dez anos, era sargento, no início da década de 50 do século passado, e esteve em missão, na Região do Contestado, pelas bandas do município de Mantena, fronteiriço ao Estado do Espírito Santo. Me lembro dele ter ficado longe de casa, nessas diligências, por duas, ou três vezes. A gente morava em Governador Valadares.
O velho capitão Alceu nunca nos relatou qualquer passagem sobre aqueles fatos, inda mais que éramos crianças. Mas, na nossa inocência, sempre ouvíamos algo sobre "A guerra do Contestado", entre Minas e os vizinhos, sem relatos de combates e mortes.
Depois de formados aspirantes, eu e mais sete colegas fomos classificados no 6º BPM, sediado na Princesa do Vale. E lá, rapidamente, nos entrosamos com a oficialidade. Existia um armazém reembolsável, chamado de Subsistência, para apoio à família militar. Ali, na chefia, conhecemos o capitão Bernardo (nome fictício), um baixinho moreno, gente boa pra danar, veterano na ativa, modelo Nélio Lisboa (baixinho da nossa turma de aspirante PM/1969). Gostava, o oficial, e como, de uma pinguinha, sem que isto interferisse em suas atribuições.
Ele, ainda soldado raso, nos anos 50, integrou um dos destacamentos que se revezavam na fronteira. Mesmo pequetito, raquítico, lhe "pagaram", no grupo de combate, uma metralhadora de tamanho médio e peso considerável. Bom, assim contaram, pra nós, os PM mais antigos. E, durante o deslocamento de sua patrulha, na subida de uma colina, próximo da crista ainda arborizada, o jovem soldado tropeçou, caindo com sua metralhadora que disparou em longa e perigosa rajada.
A tropa, assustada, rolou pelo chão, desorientada, mas ainda conseguiu ver, literalmente despencando, de duas árvores a uns cem metros de distância, um grupo de soldados "inimigos" que bateu em retirada, com todos apavorados e gritando: - Aqueles mineiros são doidos!!!
Os mineiros voltaram exultantes, e ligeiro, pro acampamento, contando todas ações e vantagens do entrevero, aumentadas, claro, nos relatórios elogiosos à tropa, engrossados, em especial destaque, pelo heroico feito do soldado atirador, que pôs os capixabas pra correr. Daí a alguns dias ele teria sido promovido a cabo, por ato de bravura! Era o início de uma bela carreira, resultado de interessante relato daquela disputa territorial entre Estados irmãos.

Segundo Ato

” ZÉ DA PORCA E A GUERRA DO CONTESTADO”

por: José Mário Vieira – Advogado
       Carlos Augusto da Costa - Coronel PM-ES
 
Certa feita, já faz algum tempo, contou-me meu pai que durante a “Guerra do Contestado” - conflito militar Espírito Santo e Minas Gerais (que durou cerca de 50 anos, findando-se em 1963), o número de soldados mineiros era muito superior aos militares capixabas.
Em que pese, uma heroica e valente tropa capixaba, segurar o avanço inimigo pelo flanco noroeste do Estado, a situação estava ficando insustentável.
A supremacia bélica e numérica do inimigo era flagrante e seus soldados avançavam perigosamente sobre o nosso território, o que obrigou ao Governador Capixaba, convocar civis, num ato final quase que desespero de guerra.
Que tal seleção se daria de forma emergencial e compulsória devendo se dar preferência aos civis, em especial os mais jovens, saudáveis e corajosos.
Cumprindo a ordem emanada da autoridade maior, um combatente Tenente da milícia local, mandou estacionar um caminhão na Praça, no coração da cidade, dando início ao recrutamento de guerra.
Depois de uma breve preleção e um básico treinamento, o civil recebia seu cantil, seu fuzil e meio que ainda que confuso e assustado fazia o “sinal da cruz” e na viatura embarcava.
E, foi nesta toada, que do nada surgiu a enigmática figura de “ZÉ CAPETA”, um sujeito forte e grosseirão que deu um grito de guerra e foi logo afirmando: “SOU O TEMIDO ZÉ CAPETA, E O MINEIRO QUE QUISER VIVER, QUE SE ESCONDA”.
Apanhou o fuzil e num salto acrobático subiu na boleia, deixando todos os demais perplexos e admirados, com tamanha bravura. Feita a chamada, o comboio de “voluntários de Ortiz” seguiu viagem para aquela que talvez fosse sua última primeira e última missão.
Após muitas horas de viagem, léguas e léguas de estrada de chão, já lá pelas bandas de Barra de São Francisco, a tropa fez parada.
O intrépido Tenente, mais que diligente, foi logo perguntando: “Quem é voluntário para ser a sentinela avançada, para arriscar sua vida pela tropa que jaz faminta e cansada? Para fazer soar o alarde em caso de ataque?
E, antes que alguém murmurasse, irrompeu o tal “Zé Capeta”, afirmando: “Deixa comigo seu Tenente até 10 (dez) mineiros eu mesmo resolvo, se passar disso venho buscar mais gente”.
Montado o acampamento de campanha, todos se recolheram para o merecido e necessário descanso. Ao raiar do dia, a batalha seria eminente. Já era madrugada e quando a tropa cansada já dormia que aconteceu o inusitado. “Zé Capeta” aos berros e desesperado no acampamento surgia, gritando: “FOGE! FOGE! SALVE-SE QUEM PUDER” SÃO MAIS DE MIL MINEIROS, NINGUÉM VAI FICAR DE PÉ.
A tropa se recompôs rapidamente e “armados, até os dentes”, avançaram em direção ao inimigo, para uma guerra de vida e de morte. Avança daqui, avança de lá, revira daqui, revira de lá, rasteja daqui, rasteja de lá. E, com muita habilidade e destreza os bravos guerreiros conseguiram o posto avançado alcançar.
Acontece, que que para surpresa e indignação geral da tropa, ao invés de milhares de mineiros, o que os voluntários encontram no local, foi “UMA PORCA DO MATO, COM 03 FILHOTES”, fuçando o mato.
Ocorreu que o tal “Zé Capeta”, na verdade, estava com tanto medo, que a primeira moita que viu balançar, fugiu do seu posto, sem sequer um tiro disparar.
Passado o susto, e depois de muito “gargalhar” os guerreiros capixabas (segundo meu pai, ele estava lá), resolveram, então, o Zé rebatizar. Ao invés de “Zé Capeta” de “ZÉ DA PORCA”, todos iriam lhe chamar.

Gostaram da estória?
Pois, bem, não sei se é verdadeira, mas meu pai viveu esta época.
Seja como for, me sinto um privilegiado. Cresci ouvindo meu pai estes causos contar.

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