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terça-feira, 12 de agosto de 2014

Onde Foi Parar Alvim Falcão ?

Histórias que temos pra contar...          


                                        

 Wilalba F. Souza                                                                                         Fev 2.009


Há uns trinta anos eu era 1º tenente e delegado especial de polícia em Governador Valadares, numa situação atípica, mesmo naqueles anos, para um oficial da ativa, ainda mais pela presença de delegados de carreira e sob a chefia de Marcos Luiz Soares da Rocha, jovem e relativamente experiente policial que, coincidentemente, daí a pouco se casaria com uma das netas do coronel Pedro Ferreira, ícone policial militar do Vale do Rio Doce,  amigo antigo de Luiz Soares da Rocha, famoso secretário de segurança mineiro na década de 40/50, seu tio.

Num domingo pela manhã, mal acabara de me levantar e soou o telefone - estava de plantão de fim de semana. Era o detetive  Elton a me informar que o fazendeiro Galileu tinha sido assassinado no aeroporto de Capelinha, onde fora, de avião, em companhia do amigo, também fazendeiro, Graciliano Teles, que  estaria intermediando uma reconciliação dele com os irmãos Leite, temidos pela capacidade de executar seus desafetos e inimigos.  Assim, no quesito, dominavam a região. Ao desembarcarem, os Leite fuzilaram, impiedosamente , Galileu. O piloto, que nem desligara seus  motores,  e Graciliano, apavorados, deixaram o corpo crivado de balas inerte na pista , levantaram voo, de volta para Governador Valadares, cidade de origem, e, em lá chegando, foram direto  para a delegacia.

Imediatamente comuniquei os fatos ao Delegado Regional Marcos Luiz, ao Comandante de Policiamento de Área (CPA), coronel Jair Pinheiro e ao coronel Xavier, amigos da vítima. Em minutos todos estavam na “Regional”, além do escrivão Astrogildo, admirável companheiro de diligências. Conversa vai, conversa vem, resolveram que o corpo deveria ser buscado. O piloto, com toda razão e muito chocado com os fatos, disse que só iria se o tenente (eu) fosse com ele. O tempo estava horrível, chovia muito, assim preferi ficar calado. Mas todos os olhares se dirigiram para mim. Aí o Astrogildo, mais p´ra frente que bico de tucano, se adiantou e me disse, em voz alta: - vamos lá tenente ? Sem saída, timidamente respondi com um sim pouco convincente, mesmo  porque Capelinha não pertencia à nossa região. Com isto o coronel Jair Pinheiro, meu comandante, entusiasmou-se, proferindo a “sentença”, em seu velho estilo e com tonalidade impar de voz: - “ então que se providencie, companheiro, com  urgência ,o traslado do desafortunado !”

Imediatamente nos armamos com  escopeta e metralhadora e, contando com a companhia do desassustado “Tininho”, filho de Altino Machado - benfeitor da nossa faculdade de direito – embarcamos em direção ao local dos infelizes acontecimentos. O tempo era completamente desfavorável, mas o piloto estava acostumado àquelas intempéries. Assim, viajamos tensos por uns 30 ou 40 minutos, aos  solavancos,  e, contando também com sorte, debaixo  da chuva, pousamos na pista de terra horrorosa que havia na localidade. No desembarque, ao contrário do que pensamos, pois nos preparamos para o pior, nos aguardavam uma Kombi e notícias de que o corpo estava sendo colocado em uma urna. Depois de rápidos contatos com as autoridades, nos liberaram para levá-lo, cheios de receios e temores,com o mau tempo.. O Astrogildo, parece, nunca tinha  “voado” e demonstrava seus  medos com um silêncio profundo. Eu o acompanhava na mesma reação, tendo o coração quase a saltar pela boca. O piloto e Tininho – que também tinha brevê – estudavam a melhor forma de aproximação do aeroporto de Valadares, já que a visibilidade era pouca e o paredão da Ibituruna, nas circunstâncias, representava perigo. Pra piorar...

o caixão colocado entre nós passageiros, e os solavancos, transformaram a diligência  em uma aventura tétrica e interminável. Graças a Deus, chegando a Governador Valadares, abriu-se uma clareira entre as nuvens e o piloto conseguiu pousar com um vento lateral estranho. Autoridades, parentes e curiosos  se aglomeravam nas imediações. Anunciamos aos nossos chefes a  missão cumprida e fomos embora rapidinho dar uma relaxada num bar em frente à delegacia...

O fazendeiro morto deixara muitas posses e, passado algum tempo, a família de sua ex-mulher e de Aldina, sua última companheira, começaram a disputar o espólio. Era constante o “bate-boca” divulgado pela imprensa  (Diário do Rio Doce) que explorava muito as questões policiais, sempre em foco na região do Vale. Galileu, como diria o comandante Jair Pinheiro, a respeito de algumas pessoas, não era “boa bisca” e sua companheira, Aldina, também não era flor que se cheirasse, a partir de um gênio fortíssimo. Logo o tema prometia. Passou-se o tempo e, numa calorenta manhã, o  jornal dos Tassis noticiou que Aldina que teria sido sequestrada e morta no trechoo entre Ipatinga e Dom Carloto, no Vale do Aço. Por mais inexperiente que fosse o  policial a conclusão seria a mesma: o crime tinha motivações econômicas, ou seja, a disputa pelos bens de  Galileu fizera sua primeira e mais visada vítima. Passava o trempo e as investigações não evoluíam, inda mais que o evento criminoso se dera em outra jurisdição policial.  Dispensado das funções de delegado eu retornara para o batalhão, designado para a chefia da 2ª seção, já como capitão. Isto em fim de 1.982, início de 83. Continuava a ter bom trânsito na delegacia, muita amizade e consideração junto aos colegas da caserna. Assim, certo dia, ao abrir a minha sala, deparei com um envelope de onde tirei um bilhete com a informação de quem teria assassinado Aldina:   Alvim Falcão e o cabo reformado João de Tal.

Alvim Falcão devia ter uns 30 ou 35 anos e era casado com a filha de família abastada da região. Não se sabe do que vivia e não tinha boa fama. Alguns diziam que ele era pistoleiro e, se não me falha a memória, vez por outra seu nome habitava as folhas do Diário do Rio Doce. Eu o conhecia de vista. Certa vez, em cumprimento determinação superior, fizemos uma busca minuciosa na fazenda de seu sogro, à procura de armas e munição que diziam estar escondidas por lá. Mesmo constrangidos, a família de sua mulher estava presente, tivemos que revistar tudo, sem sucesso, fato que alimentou a imaginação da mídia. O cabo João era reformado, vivia em paz com sua mulher num bairro afastado e nada constava que o desabonasse.

 Procurei o comandante, hoje o bom amigo coronel Antônio Marques, e ele autorizou-me a fazer contatos com a delegacia. Juntei-me, novamente, ao escrivão Astrogildo e iniciamos as diligências. Primeiro para confirmar a história da carta. Na casa do cabo, na Vila Isa, sua esposa informou ter ele, à época da morte de Aldina, se ausentado e desaparecido por uns dias. Estranhou, preocupada, o fato de ele ter voltado com uma bolsa e outros pertences, inclusive um par de óculos femininos. Recolhemos o material, não sem antes recomendar a um de meus auxiliares – cabo Levi – que fizesse uma vigilância na casa do suspeito – o graduado – nos avisando, imediatamente, sobre sua presença.

Na Relojoaria Chisté  o escrivão Astrogildo confirmou  ser Aldina a cliente que  adquirira os óculos. Logo a denúncia tinha procedência. Não me lembro por que razão, pouco antes disso, resolveu-se deter Alvim Falcão e levá-lo à delegacia. Foi um erro primário. Rapidamente impetraram um Habeas Corpus e ele  foi solto, depois de negar tudo sobre o crime. O cabo João, ao voltar para a casa, foi abordado pelo cabo Levi,  que, inacreditavelmente, o orientou a fugir, pois o batalhão e a delegacia o procuravam (foi excluído depois disto).  Assim, fechou-se a primeira fase da investigação, restando ao encarregado do inquérito apurar quanto ao mandante e a principal motivação do crime. Só que os executores desapareceram e os principais elos da investigação se desintegraram. Sei que um dos irmãos da primeira mulher do fazendeiro foi inquirido, tendo eu, a partir daí, me afastado, dando-me por satisfeito pela nossa participação.

Deduzo que a  forte  suspeita  de que o crime fora encomendado estava comprovada, exatamente por afastar Aldina da luta pela herança, embora restasse um filho do casal – Galileuzinho - assassinado tempos depois. Ele que, com toda certeza, ficaria como um dos herdeiros principais. Aldina teria contratado Alvim para execução de pessoas da primeira família de Galileu, mas ele a traíra por dinheiro maior da outra parte. Não tive mais notícia do desfecho policial ou judicial do rumoroso crime. Ele que, certamente, deu causa a outro evento inusitado: o desaparecimento inexplicável e “ad eternum” de Alvim Falcão e do Cabo João, seu assecla. Nunca mais foram vistos. E aí eu pergunto: onde anda Alvim Falcão?  Houve boatos sobre a possibilidade de uma poderosa família, proprietária de fazendas na região, e outras posses, em outro estado, ter dado guarida aos dois e, posteriormente, “liberado” suas execuções, como queima de arquivo, E esta é uma história que deveria ser mais bem esclarecida. Mas o que seria de todos nós se os mistérios não existissem.


Um comentário:

  1. Carta ao Wilalba
    É um prazer enorme poder fazer este contato. Fomos muito amigos no passado. Tocávamos muito violão. Um abraço forte. Agradeceria muito te rever. Cleber

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