Histórias que temos pra contar...
Wilalba F.
Souza
Fev 2.009
Há uns trinta anos eu
era 1º tenente e delegado especial de polícia em Governador Valadares, numa
situação atípica, mesmo naqueles anos, para um oficial da ativa, ainda mais
pela presença de delegados de carreira e sob a chefia de Marcos Luiz Soares da
Rocha, jovem e relativamente experiente policial que, coincidentemente, daí a
pouco se casaria com uma das netas do coronel Pedro Ferreira, ícone policial
militar do Vale do Rio Doce, amigo
antigo de Luiz Soares da Rocha, famoso secretário de segurança mineiro na década
de 40/50, seu tio.
Num domingo pela
manhã, mal acabara de me levantar e soou o telefone - estava de plantão de fim
de semana. Era o detetive Elton a me
informar que o fazendeiro Galileu tinha sido assassinado no aeroporto de
Capelinha, onde fora, de avião, em companhia do amigo, também fazendeiro,
Graciliano Teles, que estaria
intermediando uma reconciliação dele com os irmãos Leite, temidos pela
capacidade de executar seus desafetos e inimigos. Assim, no quesito, dominavam a região. Ao
desembarcarem, os Leite fuzilaram, impiedosamente , Galileu. O piloto, que nem
desligara seus motores, e Graciliano, apavorados, deixaram o corpo
crivado de balas inerte na pista , levantaram voo, de volta para Governador
Valadares, cidade de origem, e, em lá chegando, foram direto para a delegacia.
Imediatamente
comuniquei os fatos ao Delegado Regional Marcos Luiz, ao Comandante de
Policiamento de Área (CPA), coronel Jair Pinheiro e ao coronel Xavier, amigos
da vítima. Em minutos todos estavam na “Regional”, além do escrivão Astrogildo,
admirável companheiro de diligências. Conversa vai, conversa vem, resolveram
que o corpo deveria ser buscado. O piloto, com toda razão e muito chocado com
os fatos, disse que só iria se o tenente (eu) fosse com ele. O tempo estava horrível,
chovia muito, assim preferi ficar calado. Mas todos os olhares se dirigiram
para mim. Aí o Astrogildo, mais p´ra frente que bico de tucano, se adiantou e
me disse, em voz alta: - vamos lá tenente ? Sem saída, timidamente respondi com
um sim pouco convincente, mesmo porque
Capelinha não pertencia à nossa região. Com isto o coronel Jair Pinheiro, meu
comandante, entusiasmou-se, proferindo a “sentença”, em seu velho estilo e com
tonalidade impar de voz: - “ então que se providencie, companheiro, com urgência ,o traslado do desafortunado !”
Imediatamente nos
armamos com escopeta e metralhadora e,
contando com a companhia do desassustado “Tininho”, filho de Altino Machado -
benfeitor da nossa faculdade de direito – embarcamos em direção ao local dos infelizes
acontecimentos. O tempo era completamente desfavorável, mas o piloto estava
acostumado àquelas intempéries. Assim, viajamos tensos por uns 30 ou 40
minutos, aos solavancos, e, contando também com sorte, debaixo da chuva, pousamos na pista de terra
horrorosa que havia na localidade. No desembarque, ao contrário do que
pensamos, pois nos preparamos para o pior, nos aguardavam uma Kombi e notícias
de que o corpo estava sendo colocado em uma urna. Depois de rápidos contatos
com as autoridades, nos liberaram para levá-lo, cheios de receios e temores,com
o mau tempo.. O Astrogildo, parece, nunca tinha “voado” e demonstrava seus medos com um silêncio profundo. Eu o
acompanhava na mesma reação, tendo o coração quase a saltar pela boca. O piloto
e Tininho – que também tinha brevê – estudavam a melhor forma de aproximação do
aeroporto de Valadares, já que a visibilidade era pouca e o paredão da
Ibituruna, nas circunstâncias, representava perigo. Pra piorar...
o caixão colocado
entre nós passageiros, e os solavancos, transformaram a diligência em uma aventura tétrica e interminável.
Graças a Deus, chegando a Governador Valadares, abriu-se uma clareira entre as
nuvens e o piloto conseguiu pousar com um vento lateral estranho. Autoridades,
parentes e curiosos se aglomeravam nas
imediações. Anunciamos aos nossos chefes a
missão cumprida e fomos embora rapidinho dar uma relaxada num bar em
frente à delegacia...
O fazendeiro morto deixara
muitas posses e, passado algum tempo, a família de sua ex-mulher e de Aldina,
sua última companheira, começaram a disputar o espólio. Era constante o “bate-boca”
divulgado pela imprensa (Diário do Rio
Doce) que explorava muito as questões policiais, sempre em foco na região do
Vale. Galileu, como diria o comandante Jair Pinheiro, a respeito de algumas
pessoas, não era “boa bisca” e sua companheira, Aldina, também não era flor que
se cheirasse, a partir de um gênio fortíssimo. Logo o tema prometia. Passou-se
o tempo e, numa calorenta manhã, o
jornal dos Tassis noticiou que Aldina que teria sido sequestrada e morta
no trechoo entre Ipatinga e Dom Carloto, no Vale do Aço. Por mais inexperiente
que fosse o policial a conclusão seria a
mesma: o crime tinha motivações econômicas, ou seja, a disputa pelos bens de Galileu fizera sua primeira e mais visada vítima.
Passava o trempo e as investigações não evoluíam, inda mais que o evento
criminoso se dera em outra jurisdição policial.
Dispensado das funções de delegado eu retornara para o batalhão,
designado para a chefia da 2ª seção, já como capitão. Isto em fim de 1.982,
início de 83. Continuava a ter bom trânsito na delegacia, muita amizade e
consideração junto aos colegas da caserna. Assim, certo dia, ao abrir a minha
sala, deparei com um envelope de onde tirei um bilhete com a informação de quem
teria assassinado Aldina: Alvim Falcão
e o cabo reformado João de Tal.
Alvim Falcão devia ter
uns 30 ou 35 anos e era casado com a filha de família abastada da região. Não
se sabe do que vivia e não tinha boa fama. Alguns diziam que ele era pistoleiro
e, se não me falha a memória, vez por outra seu nome habitava as folhas do
Diário do Rio Doce. Eu o conhecia de vista. Certa vez, em cumprimento
determinação superior, fizemos uma busca minuciosa na fazenda de seu sogro, à
procura de armas e munição que diziam estar escondidas por lá. Mesmo
constrangidos, a família de sua mulher estava presente, tivemos que revistar
tudo, sem sucesso, fato que alimentou a imaginação da mídia. O cabo João era
reformado, vivia em paz com sua mulher num bairro afastado e nada constava que
o desabonasse.
Procurei o comandante, hoje o bom amigo
coronel Antônio Marques, e ele autorizou-me a fazer contatos com a delegacia.
Juntei-me, novamente, ao escrivão Astrogildo e iniciamos as diligências.
Primeiro para confirmar a história da carta. Na casa do cabo, na Vila Isa, sua
esposa informou ter ele, à época da morte de Aldina, se ausentado e
desaparecido por uns dias. Estranhou, preocupada, o fato de ele ter voltado com
uma bolsa e outros pertences, inclusive um par de óculos femininos. Recolhemos
o material, não sem antes recomendar a um de meus auxiliares – cabo Levi – que
fizesse uma vigilância na casa do suspeito – o graduado – nos avisando,
imediatamente, sobre sua presença.
Na Relojoaria
Chisté o escrivão Astrogildo confirmou ser Aldina a cliente que adquirira os óculos. Logo a denúncia tinha
procedência. Não me lembro por que razão, pouco antes disso, resolveu-se deter
Alvim Falcão e levá-lo à delegacia. Foi um erro primário. Rapidamente
impetraram um Habeas Corpus e ele foi
solto, depois de negar tudo sobre o crime. O cabo João, ao voltar para a casa,
foi abordado pelo cabo Levi, que,
inacreditavelmente, o orientou a fugir, pois o batalhão e a delegacia o
procuravam (foi excluído depois disto).
Assim, fechou-se a primeira fase da investigação, restando ao
encarregado do inquérito apurar quanto ao mandante e a principal motivação do
crime. Só que os executores desapareceram e os principais elos da investigação
se desintegraram. Sei que um dos irmãos da primeira mulher do fazendeiro foi
inquirido, tendo eu, a partir daí, me afastado, dando-me por satisfeito pela
nossa participação.
Deduzo que a forte
suspeita de que o crime fora
encomendado estava comprovada, exatamente por afastar Aldina da luta pela herança,
embora restasse um filho do casal – Galileuzinho - assassinado tempos depois.
Ele que, com toda certeza, ficaria como um dos herdeiros principais. Aldina
teria contratado Alvim para execução de pessoas da primeira família de Galileu,
mas ele a traíra por dinheiro maior da outra parte. Não tive mais notícia do
desfecho policial ou judicial do rumoroso crime. Ele que, certamente, deu causa
a outro evento inusitado: o desaparecimento inexplicável e “ad eternum” de
Alvim Falcão e do Cabo João, seu assecla. Nunca mais foram vistos. E aí eu
pergunto: onde anda Alvim Falcão? Houve
boatos sobre a possibilidade de uma poderosa família, proprietária de fazendas
na região, e outras posses, em outro estado, ter dado guarida aos dois e,
posteriormente, “liberado” suas execuções, como queima de arquivo, E esta é uma
história que deveria ser mais bem esclarecida. Mas o que seria de todos nós se
os mistérios não existissem.
Carta ao Wilalba
ResponderExcluirÉ um prazer enorme poder fazer este contato. Fomos muito amigos no passado. Tocávamos muito violão. Um abraço forte. Agradeceria muito te rever. Cleber