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sábado, 16 de maio de 2015

Dia das Mães


                                                     

Wilalba F. Souza                                                                                        15/mai/15

Este ano, aliás na semana passada e no Dia das Mães, eu estava na estrada, com minha mulher, vindo da cidade de São Sebastião do Paraíso, agradável e simpática urbe do sudoeste mineiro, onde reside nosso filho mais novo. Pra dizer a verdade, nunca assimilei essa cultura de comemorar a data tão importante, muito mais badalada, vamos dizer assim, nestes dias de mídia voltada para o consumo, aproveitando a sensibilidade de filhos e familiares, afinal. É uma questão cultural, de um país capitalista, e nada tenho contra isto, mesmo porque o dinheiro tem que “girar”, para manter o sistema. O que as pessoas às vezes não sabem é que nem sempre foi assim, nesta terra de Cabral, cuja industrialização começou meio que tardiamente, acomodada naquela velha história da produção em grande escala de café e açúcar. Claro que os dias de hoje, a despeito de todas as mazelas político-sociais que temos assistido, são bem melhores, embora as tais “comodities”, resultantes da nossa produção agrícola e exportação de produtos primários, ainda sejam o carro chefe da base econômica  nacional.

Pelas estradas daquela região mineira, mais ao sul, aliás muito melhores que as deste nosso lado, especialmente no leste, e aproveitando a tranquilidade do trânsito, me vi “viajando”, também, pela história de vida da minha mãe, com seus nove filhos, a pequenina d. Zefa, com seu pouco mais de um metro e meio. Se não estou sendo traído pela memória, ela teria nascido em 1.929. Parece absurdo, mas treze ou quatorze anos depois, se casaria com meu pai, o velho capitão Alceu, ainda soldado, por procuração, na cidade de Conselheiro Pena, no Vale do Rio Doce. Ele estava à disposição da Justiça em Caratinga, processado porque, em luta com um marginal, em Itanhomi, o bandido acabou levando a pior. Depois de liberado, mamãe pode recebê-lo em sua terra, onde, inclusive, deu a liuz dois filhos – a primeira – de nome Maria Suely, morreu ainda bebê. Ela contava rindo que, por onde passaram, algumas pessoas achavam ter sido roubada pelo “soldado”!

Em meados da década de quarenta Josefa foi, com Alceu, meu pai, de mudança para Belo Horizonte. Conto, pros meus amigos, que tive a felicidade de nascer no Hospital Militar, em parto assistido por um capitão médico. Da maternidade ela falava com orgulho, numa época em que a maioria dos recém-nascidos era recebida por parteiras, e aquele atendimento que ela teve representou um esforço da Corporação, Polícia Militar, para assistir seus integrantes. É! Forneciam até leite para os bebês “da casa”. Com o marido,recém promovido a sargento, a família teve que se mudar para a pequenina Antônio Dias, ali pros lados de João Monlevade. Em quarenta e oito, lá mesmo, veio mais um filho, para aumentar o grupo. Eram tempos difíceis, mas ninguém se preocupava com esse negócio de planejamento familiar e, às vezes, se confundia o número de filhos que o casal tinha, com prosperidade. E ainda se desculpavam: - onde comem quatro, comem cinco e vida que segue!

Pouco tempo depois, com os três filhos e umas poucas bagagens, mamãe e papai desembarcaram na Estação Ferroviária de Governador Valadares, debaixo de muita chuva. A bordo de uma charrete chegaram a uma pensão, onde ficaram por uns tempos, até conseguirem um pequeno barracão no local conhecido como “Rua do Lixo”, um canto estranho onde existia um lixão e as empresas jogavam resíduos de mica (malacaxeta), minério usado, à época, como isolante em equipamentos e eletro-domésticos. Não tenho lembranças dessa fase, estava com pouco mais de dois, três anos, no máximo. D. Zefa contava que não tinham móveis. Eram uma cama pro casal e outra pros “meninos”. Na cozinha um fogão a lenha. Às vezes adaptavam caixotes como bancos e mesas. Teríamos ficado lá por pouco tempo. As coisas melhoraram muito quando passamos para uma casa perto da “Delegacia”, onde funcionavam o quartel e a cadeia. Pois é! Lá minha mãe teve mais cinco filhas, incrível, numa escadinha sensacional. Sortudo eu, que as curti muito minhas irmãs, sem tirar os olhos e assistir a garra, a força e a firmeza daquela baixinha que, sem muita ajuda, sem empregada e, muitas vezes, sem a presença do marido policial, fazia comida, lavava, passava um montão de roupas, e ainda levava todo mundo pra escola! Isto fora o trabalho que teve para controlar “Alceu”, bonitão dos olhões verdes, que era, quando mais jovem, muito assediado pelas “sirigaitas” (ela as denominava assim)!

Me disseram, e é verdade, que os velhos sentem muita saudade de suas mães. Se arrependem por não terem lhes dado a atenção que mereciam. Deixavam de seguir seus conselhos, elas que nada mais queriam que ver “suas crias” felizes, saudáveis e no caminho do bem. Mas isto é da vida! Quando ainda jovens há coisas que consideramos mais importantes, até mesmo do que buscar seu colo em momentos difíceis. Ainda bem que eu consegui fazer isto, muitas e muitas vezes. A essa incompreensão humana Deus se encarrega de dar respostas. Por muitos anos nem imaginei qual a sensação que D. Zefa sentiu, lá em 1.969, quando colocou em meus ombros a “passadeira” de aspirante da PMMG. A baixinha teve que se esticar toda e eu me abaixar para que ela conseguisse fazer isto. Na realidade minha mãe sempre foi muito maior que seu metro e meio, ou pouco mais. Uma gigante que podia ter dito: -  Esta estrela quem te deu fui eu! Com grande sorriso, apenas me olhou, me beijou a face e voltou para seu lugar, na solenidade. Em novembro do ano passado pude sentir o mesmo que minha mãe, quando coloquei passadeiras idênticas em meu filho. Ele, com seu mais de metro e oitenta de altura, teve que se abaixar e eu ficar na ponta dos pés para fazer isto. Fui pego de surpresa! Achei que sua mãe faria isto. Só pode ser uma resposta divina!!!

D. Josefa Ferreira de Souza faleceu em 1.980, às vésperas do Natal, depois de penar com doença mal cuidada. Para os padrões de hoje, e mesmo para os daquela época, algo incompreensível e até inaceitável, pois era muito nova.  A certeza que tenho é que ela conseguiu colocar todos nós “nos eixos”. Também o “Alceu”, que nos acompanhou até dia desses e que, enquanto viveu, continuou sua missão familiar. Ela que, fazendo economia doméstica, juntou dinheiro para dar entrada na casa com a qual sempre sonhou. Mas esta é uma das muitas partes da história dessa grande mulher, muito parecida com a de outras milhares de mães lutadoras que existem por este nosso imenso país.


Um comentário:

  1. Querido mano , você soube muito bem explicitar o caráter de nossa mãe.Cada um de nós teria fatos para escrever um livro inteiro .Me identifiquei muito com o trecho sobre a sua formatura ,É verdade , ela nos abria o caminho para que alcançássemos as vitórias ;ela nos ensinava o caminho para o pódium e corria para a platéia para bater palmas...

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