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terça-feira, 15 de dezembro de 2020

Entre Lenines e Mussolines!

 Wilalba F. Souza    15/Dez/2020 

No ano de 1960, aos treze anos, fui matriculado no primeiro ano ginasial, do Colégio Tiradentes da Polícia Militar de Minas Gerais, em Belo Horizonte. Meu pai, primeiro sargento vindo do 6° BPM, de Governador Valadares, estava matriculado no Curso de Formação de Oficiais Administrativos, no Departamento de Instrução, do Prado. Era uma gurizada interessante, vinda com seus pais, do interior mineiro, se juntando aos meninos "capitalistas". Pra mim, especialmente, surgia um mundo novo.

De repente me vi investido numa "fardinha" cor caqui, integrada até por um quepe. E, duas vezes por semana, participava da prática de ordem unida. Sentido, descansar, cobrir, ordinário, marche! Tudo de maneira suave, com similaridade ao escotismo, frequentado por mim, no ano anterior, na Princesa do Vale. Parte da preparação para o "Sete de Setembro"!!!

Um dos primeiros colegas, menino educadíssimo, era compridão, residente na Concórdia. Seu irmão era oficial. Eli logo me apresentou outros garotos, dentre eles Eustáquio e Lenine. O primeiro, morava na rua Platina. Tinha uma irmã linda: Maria Flor de Maio, de sorriso apaixonante. Eram tempos lúdicos, de escola feita pra ensinar português, matemática, moral e cívica, etc.

Lenine, apesar do nome estranho, era excelente pessoa. Pra nós, bastava. Só mais tarde aprendemos sobre o líder bolchevista soviético. E, apesar de ter um nome "mal visto", lá no Colégio nunca assisti, ou tive notícia, de discriminação contra ele. Nem comentário de que poderia ter sido uma péssima escolha do pai, ou o que o motivara, ao batizar o bebê. Depois que saí do Tiradentes, nunca mais vi Lenine. Sei que ele, com um filho, é advogado em Belo Horizonte.

Muitos dos estudantes do Colégio Tiradentes, inclusive eu, nos encontramos no primeiro ano do Curso de Formação de Oficiais, em 1966, aprovados em concorrido concurso público Era muito comum esse encaminhamento.

Em 1969, declarado aspirante a oficial, fui classificado, com mais sete colegas, no 6°BPM, de Valadares, unidade de efetivo enorme, responsável pelo policiamento dos Vales do Rio Doce, Mucuri e Baixo Jequitinhonha. Os militares federais tinham assumido o governo, em 1964, e fortaleceram as PMs, criando uma Inspetoria Geral, unificando suas doutrinas, direcionando-as ao policiamento ostensivo. Especializando-as, enfim!

No Batalhão do Pagode Chinês conheci o Cabo Mussolini. Nome pomposo, em pessoa simplória. Com toda a certeza, aquele rapaz nascera anos antes da eclosão do Segundo Conflito Mundial (1939/1945). Seu "nome de guerra” se originara do sobrenome famoso. Mas, a esta altura, já sabíamos quem fora Mussolini, ditador da Itália, membro dos países do eixo, inimigos dos aliados, do famoso "fasci di Combattimento" (fascismo). Coisas de um Mussolini que, certamente, nada tinha de parentesco com nosso bravo cabo, que exerceu as funções de estafeta do comandante (levava e trazia documentos).

Na década de setenta, terminado seu tempo de serviço, Mussolini foi transferido para reserva, guindado à graduação de sargento. Não me esqueço: no corredor do comando, apertei sua mão, desejando-lhe felicidades na nova vida. Daí a mais ou menos um mês, para minha surpresa, estava eu me deslocando, a pé, pela rua Sete de Setembro; no Bairro de Lourdes, quando vi um 3° sargento, vestindo um uniforme novinho, impecável, dito de trânsito, com túnica e tudo, passando imponente, de bicicleta (transporte comum, em Valadares), tendo, na "garupa", uma mulher! Sim, era o sargento Benito... Benito Mussolini!!!

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