Disciplina e
Adestramento
05out09
Wilalba F. Souza
Há
alguns dias fui convocado pela UMMG (União dos Militares de Minas Gerais) para
uma reunião de trabalho na nossa sede em Belo Horizonte. Infelizmente o
presidente havia se demitido e o vice-presidente, coronel César Braz Ladeira,
estaria sendo conduzido, legal e formalmente, àquele cargo que exige muita
dedicação e suor. E eu tenho certeza que isto nunca seria, ou será, problema
para ele,, eis que o nosso colega sempre demonstrou força de trabalho e
entusiasmo ímpares.
Conheço
o coronel César desde os idos de 1.963, quando, adolescentes, frequentamos o Colégio Estadual de
Barbacena. Concluindo o antigo ginasial,
de lá
saímos, juntos com o o Oswaldo Olímpio Emídio e o Orlando Antônio de
Freitas, hoje coronéis da reserva, para
o Curso de Formação de Oficiais no Departamento de Instrução, em 1.966. Depois de declarados aspirantes, nossa
convivência deu uma guinada, pois meu companheiro foi para o 9º BPM e eu,
virado de cabeça para baixo, me vi classificado no 6º BPM, de Governador
Valadares.
Apesar
da distância, sempre recebia notícias dos colegas, de suas dificuldades,
sucessos,casamentos,
nascimento de filhos, evolução cultural, promoções, etc. Sei que o César se formou
em história. Foi professor do Colégio Tiradentes de Barbacena e de cursinhos, mas
sempre focado na sua carreira de oficial.
Reconhecidamente foi um dos pioneiros na implantação efetiva de um policiamento mais moderno na sede da unidade. Como capitão trabalhou, por
muitos anos, em Ouro Preto, à época desprezada pelos oficiais pois, além do seu
caráter especialíssimo, de cidade turística e centro estudantil universitário,
a antiga capital não ofertava boas condições de moradia e trabalho. Posso dizer que ele foi um dos comandantes mais
laboriosos da região. E tem mais, estudioso e pesquisador, o considero uma
autoridade no que concerne ao nosso patrimônio histórico.
Lá
por 1.990 servimos em
Belo Horizonte por unidades e serviços diversos. Às vezes nos
encontrávamos no Clube dos Oficiais para trocar umas ideias e relembrar os
“antiga-mentes”.
Entre os relatos sobre sucessos e decepções, o saldo sempre era positivo, como,
aliás, continua sendo até hoje. Terminado nosso “tempo”, fui morar em
Barbacena e ele ficou na capital, onde trabalhou como executivo, na atividade privada, ligada
ao ramo de segurança, inclusive em uma empresa que esteve instalada no Edifício
Paraíba, de proprie-dade do IPSM (Instituto de Previdência dos Servidores
Militares) quando, lá, eu ainda
colaborava na chefia de uma de suas divisões.
Há
uns cinco anos o coronel César me procurou em Barbacena. O presidente, coronel
Zéder, se candidatava à reeleição na UMMG e estava precisando de um diretor
regional para substituir o tenente José Moreira Gomes, “o Cassiquinha”.
Realmente uma missão difícil, tendo em vista o carisma do saudoso companheiro,
já em idade avançada e um pouco adoentado. Depois de muita conversa, e após as
eleições, acabei aceitando a missão. E nela continuo, até hoje, ombreado ao velho amigo e outros dedicados diretores por
essas Minas Gerais.
Recentemente
me contaram uma “historinha” a respeito
do presidente que eu realmente não
conhecia. Ele, quando tenente, na década de 70, foi acionado, estando de
Oficial de Dia/Comandante do Policiamento, para debelar um distúrbio, com
brigas generalizadas, entre alunos da Escola Preparatória de Cadetes do Ar e estudantes
do 2º grau de outros estabelecimentos. Nos fins de semana os “cadetes”
da EPCAr saiam, muito bem fardados, diga-se de passagem, em hordas, pelo
pequeno centro, e ocupavam tudo, inclusive a atenção das moças. Isto provocava ciúmes e gerava
confrontos. Estas ocorrências já eram
comuns e muito desagradáveis. Assim, nosso tenente, já no local dos incidentes,
tendo sob seu comando um diminuto efetivo – o motorista e um patrulheiro - e
constatando que os grupos opositores, em bom número, continuavam se agredindo
verbalmente e a fim de mais brigas, fez seu plano mental e o executou de forma
inusitada, surpreendente ! Interpondo-se entre os contendores e, utilizando-se
apenas de sua voz de comando, bradou para os militares:
-
Atenção Corpo
de Alunos, em forma ! Meia
dúzia deles se aproximou e obedeceu.
-
Corpo de
Alunos, sentido ! Coooobrir
! Grande
parte se juntou àquela meia dúzia.
-
Corpo de
Alunos, firme ! Tava todo
mundo “do-
minado”, digo, enquadrado.
-
Corpo de
Alunos, orrrrrrdinário, marche ! E
lá se foi a tropa da Aeronáutica, composta
por uns cem
alunos,
desfilando, coberta e alinhada,
pelas ruas da cidade, até a sua escola, sob o comando do criativo tenente da
PM.
Coincidentemente,
já no portão da EPCAr, não se sabe se
aguardando, ou por mera coincidência, estava o oficial de dia, tenente
Aer Milton Resende de Souza, nosso antigo colega do Colégio Estadual, amigão do
César até hoje, que bastante surpreso,
perguntou:
-
Mas o que
houve, “Cezinha” ?
-
Oi, Milton !
Apenas um pequeno desentendimento com estudantes no centro, que poderia ter se
agravado e eu achei melhor tirá-los de lá.
-
Muito obrigado
César, como é que está sua família ?
-
Tudo bem.
passa por lá qualquer hora dessas, respondeu
nosso oficial, antes de se despedir, arrematando : - Ah ! Ô Milton,
parabéns ! Que tropa disciplinada e,
acima de tudo, adestrada à perfeição ...
Ao amigo coronel César muitas felicidades na nova missão.
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