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segunda-feira, 23 de junho de 2014

Receita de moqueca

                                       

Wilalba F. Souza                                                                 19jun14

Enquanto criança eu morava com minha família, composta pelos meus pais e seus oito filhos. Uma “escadinha” e tanto que vivia perambulando pelas ruas empoeiradas de Governador Valadares, banhada pelo Rio Doce e servida pela, à época, Estrada de Ferro Vitória-Minas. Com a cidade em crescimento, assistimos madeireiros destruírem a Mata Atlântica, naquela região leste, onde comercializavam as madeiras nobres e punham fogo no resto, abrindo espaço para estradas e pastos que abrigariam a criação de gado bovino.

Não existia qualquer preocupação com a natureza, com a ecologia. Todo mundo tinha armas de caça e, não raro, várias espécies de aves e animais faziam parte do cardápio popular. O crime, cometido inconscientemente pelos aventureiros e novos empreendedores que aportaram à cidade, nunca era abordado, pois o que mais interessava era o progresso, a qualquer custo, daquela promissora parte de Minas. Sobre o assunto, as escolas se calavam e não me lembro do tema integrar compêndios.

A gente também não deve generalizar sobre o consumo de carne da fauna silvestre por famílias. Lá em casa, por exemplo, nunca fizemos uso dessa prática. Meu pai sempre mantinha, no quintal, uma pequena horta e um ou dois” capados” que faziam nossa festa de tempos em tempos. Matavam o bichinho, davam uma queimada na pele e aproveitavam tudo. Tripas e sangue para chouriço, carne picadinha para linguiça, pernis para um assado, miúdos para a feijoada, com feijão preto, que só era usado, não sei porque, pelas pessoas mais pobres. Se alguém chegasse em uma casa e visse o pessoal comendo d o “pretinho”, já deduzia: esse pessoal deve estar passando por dificuldades!!! Pura besteira!

Tinha o tal bucho que se dava pros menos favorecidos. Quem comesse isto estaria quase cometendo um crime. Se servido em prato esmaltado então, era o “fim do mundo”. Pior ainda se tivesse um descascado qualquer. Pois é, as coisas mudam! O bucho virou dobradinha. E é delicioso, mas tem que saber como prepará-lo. Comi muita dobradinha lá pelo baixo Vale do Jequitinhonha, onde fiz muitas “diligências”, como se dizia antigamente. Hoje ainda se acha, mas não é muito comum. Em Governador Valadares tínhamos comê-la quase que escondido, depois de uma boa dose de pinga. Veja só!

O Rio Doce, ah doce rio! Dava peixe que não cabia nem em história de pescador. Dourados e Surubins, como dizia meu finado tio Eugênio, “era de monte”. O resto, que vinha nas tarrafas e nos anzóis, de segunda categoria. Pois é! Virou um grande esgoto e escoadouro de produtos químicos de indústrias. O mau-cheiro chegava da Cenibra (fábrica de papel), instalada acima um sessenta quilômetros. Preço do progresso “justificavam” os incômodos...

Ainda nos bons tempos, chegou à nossa casa, um amigo de meu pai, curiosamente chamado de “Zé Aflito”. De dentro de um embrulho, feito com um papel grosso – os açougues o usavam antigamente – retirou muitas postas de dourado, ou surubim, e foi logo pedindo: - Alceu, faz aí esse peixe pra nós! – É pra já, respondeu... Postas do peixe numa bacia, meu velho deu uma temperada com sal e limão, na medida, deixando reservado. Em seguida picou, em pedaços pequenos, vários tomates bem maduros. Mesma coisa com a cebola de cabeça e cheiro verde – salsinha e  cebolinha. O molhe de coentro, bem generoso, à vista, e  uma garrafa de pinga debaixo da pia.

Numa panela grande, já ao fogo no fogão à lenha, uma boa quantidade de gordura – óleo de soja estava começando – e um pouco de azeite – era muito caro – e  uma colherada de colorau (urucum). Panela quente e o “cozinheiro” colocou uma camada de tomate com cebola, outra de postas, e foi intercalando, também com o cheiro verde e o coentro, até encher o vasilhame. Abafado com uma tampa, esperamos uns trinta minutos. Com o caldo fizeram um pirão, com farinha de mandioca. Curioso, não saí de perto. Premiado, me serviram arroz branco, o peixe com pirão bem colorido, e uma folha de alface. “ – Pai! Este peixe tem espinho? – Tem não menino! Come logo!  Caladinho fui sentar num cantinho do chão da cozinha e “apresentado” à legítima moqueca de peixe. Coisa dos capixabas que, hoje recebem, via Rio Doce, nossos esgotos. Dourados e surubins? Desaparecemos com eles...



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