Wilalba F. Souza
19jun14
Enquanto criança eu morava com minha família, composta
pelos meus pais e seus oito filhos. Uma “escadinha” e tanto que vivia
perambulando pelas ruas empoeiradas de Governador Valadares, banhada pelo Rio
Doce e servida pela, à época, Estrada de Ferro Vitória-Minas. Com a cidade em
crescimento, assistimos madeireiros destruírem a Mata Atlântica, naquela região
leste, onde comercializavam as madeiras nobres e punham fogo no resto, abrindo
espaço para estradas e pastos que abrigariam a criação de gado bovino.
Não existia qualquer preocupação com a natureza, com a
ecologia. Todo mundo tinha armas de caça e, não raro, várias espécies de aves e
animais faziam parte do cardápio popular. O crime, cometido
inconscientemente pelos aventureiros e novos empreendedores que aportaram à
cidade, nunca era abordado, pois o que mais interessava era o progresso, a
qualquer custo, daquela promissora parte de Minas. Sobre o assunto, as escolas
se calavam e não me lembro do tema integrar compêndios.
A gente também não deve generalizar sobre o consumo de
carne da fauna silvestre por famílias. Lá em casa, por exemplo, nunca fizemos uso
dessa prática. Meu pai sempre mantinha, no quintal, uma pequena horta e um ou
dois” capados” que faziam nossa festa de tempos em tempos. Matavam o
bichinho, davam uma queimada na pele e aproveitavam tudo. Tripas e sangue para
chouriço, carne picadinha para linguiça, pernis para um assado, miúdos para a
feijoada, com feijão preto, que só era usado, não sei porque, pelas pessoas
mais pobres. Se alguém chegasse em uma casa e visse o pessoal comendo d o
“pretinho”, já deduzia: esse pessoal deve estar passando por dificuldades!!!
Pura besteira!
Tinha o tal bucho que se dava pros menos favorecidos. Quem
comesse isto estaria quase cometendo um crime. Se servido em prato esmaltado
então, era o “fim do mundo”. Pior ainda se tivesse um descascado qualquer. Pois
é, as coisas mudam! O bucho virou dobradinha. E é delicioso, mas tem que saber
como prepará-lo. Comi muita dobradinha lá pelo baixo Vale do Jequitinhonha,
onde fiz muitas “diligências”, como se dizia antigamente. Hoje ainda se acha, mas não é muito comum. Em Governador Valadares
tínhamos comê-la quase que escondido, depois de uma boa dose de pinga. Veja só!
O Rio Doce, ah doce rio! Dava peixe que não cabia nem
em história de pescador. Dourados e Surubins, como dizia meu finado tio
Eugênio, “era de monte”. O resto, que vinha nas tarrafas e nos anzóis, de
segunda categoria. Pois é! Virou um grande esgoto e escoadouro de produtos
químicos de indústrias. O mau-cheiro chegava da Cenibra (fábrica de papel),
instalada acima um sessenta quilômetros. Preço do progresso “justificavam” os
incômodos...
Ainda nos bons tempos, chegou à nossa casa, um amigo
de meu pai, curiosamente chamado de “Zé Aflito”. De dentro de um embrulho,
feito com um papel grosso – os açougues o usavam antigamente
– retirou muitas postas de dourado, ou surubim, e foi logo
pedindo: - Alceu, faz aí esse peixe pra nós! – É pra já, respondeu... Postas do
peixe numa bacia, meu velho deu uma temperada com sal e limão, na medida,
deixando reservado. Em seguida picou, em pedaços pequenos, vários tomates bem
maduros. Mesma coisa com a cebola de cabeça e cheiro verde – salsinha e cebolinha. O molhe de coentro, bem generoso, à vista, e uma garrafa de pinga debaixo da pia.
Numa panela grande, já ao fogo no fogão à lenha, uma
boa quantidade de gordura – óleo de soja estava começando – e um
pouco de azeite – era muito caro – e uma
colherada de colorau (urucum). Panela quente e o “cozinheiro” colocou uma
camada de tomate com cebola, outra de postas, e foi intercalando, também com o
cheiro verde e o coentro, até encher o vasilhame. Abafado com uma tampa, esperamos
uns trinta minutos. Com o caldo fizeram um pirão, com farinha de mandioca.
Curioso, não saí de perto. Premiado, me serviram arroz branco, o peixe com
pirão bem colorido, e uma folha de alface. “ – Pai! Este peixe tem espinho? –
Tem não menino! Come logo! Caladinho fui
sentar num cantinho do chão da cozinha e “apresentado” à legítima moqueca de
peixe. Coisa dos capixabas que, hoje recebem, via Rio Doce, nossos esgotos.
Dourados e surubins? Desaparecemos com eles...
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