Wilalba F Souza
22set2.008
Lá pelos idos de 1.963/64 tínhamos 16 ou 17
anos e estudávamos no Colégio Estadual
de Barbacena. Meus colegas mais próximos e de sala de aula – a gente morava
muito perto uns dos outros - eram
Orlando Freitas, César Ladeira,
Milton Resende de Souza e Oswaldo Emídio. À exceção deste, todos
gostavam de futebol. O Orlando, um ou
dois anos mais velho, se destacava como
jogador de bola. Muito magrela, não tinha físico de atleta, mesmo semi-profissionalizado pelo Andaraí. Os
demais, incluso o abaixo assinado, eram apenas medianos, embora se julgassem
melhor que isto. O César, meio deslumbrado, otimista, tinha em seu irmão, Edo
Ladeira, aluno do Curso de Formação de Oficiais da Polícia Militar, um meio
ídolo e espelho; o Milton era mais
sério, adulto, contudo participativo;
o Oswaldo, tímido
e evasivo, mostrava-se um
estudante com desempenho acima da média, mas em se tratando de prática
desportiva, verdadeira decepção.
Eu, o César e o Milton nos inscrevemos para
teste nos infantís/juvenís do Olimpic, clube de projeção
na cidade. Todos se saíram muito bem, mas
somente eu fui inscrito, disputando um campeonato. O César arrumou uma
ocupação, na Rádio Correio da Serra, para ler notícias de esportes; o negócio
do Milton era estudar e namorar: boa pinta e possuidor de volumoso topete, fazia sucesso entre as meninas. Hoje cultiva, se é que posso assim dizer, uma
extensa mas simpática calvície. O Orlando continuou o fino da bola e o Oswaldo, como sempre, evasivo.
Terminado o “ginásio”, em 1.964, todos nós,
exceto o Oswaldo, tentamos concurso para a PM – todo mundo tinha parente da
Corporação .O Milton, cujo pai era funcionário civil da Aeronáutica, resolveu fazer as provas da
EPCAr, embora tivesse horror a altura. Resultado: não conseguimos
ser aprovados e o Milton, muito organizado, criterioso e acima de tudo
mais centrado, foi selecionado, iniciando o que seria uma bela carreira, ainda
que não de piloto, mas ligada à área administrativa. Perdemos o colega do
Estadual mas fomos adiante, continuando
aquela vidinha de adolescentes e jogando nossas “peladas” no “Campo do
Sanatório”, grande área vaga, próximo
à linha férrea quase desativada, no bairro do Pontilhão,
pertinho da casa dos pais do Milton,
edificada às suas margens. Lá frequentavam os peladeiros e amigos de todas as
idades, dentre eles, mais novo dois ou
três anos que nós, o Maurício, irmão do Milton, grande garoto, afável,
carinhosamente chamado de “Mamão” pelo Zé Drumond, um coroa peladeiro que
achava ter, sua cabeça, tamanho acima da média.
O Maurício era querido de todos. O Milton, mais
protocolar, meio metido, puxara pelos traços do pai, “seu” Manoel. O Maurício
era mais popular, alegre, muito conhecido nas redondezas. Acho que herdara as
feições da mãe, D. Ilda, senhora educadíssima e simpática que, com seu
esposo, criou seus filhos com muito amor, mas de forma severa e
firme. O Maurício era voluntarioso
e jogava mais bola que o Milton. Não
me lembro se ele estudava no
Estadual...acho que sim ! Certa vez me confidenciou que também iria fazer
carreira na aeronáutica, seguindo o exemplo do irmão. Gostava de aviação. Em 1.965 jogamos muitas “peladas” juntos.
No final do ano lá fomos, os colegas do
Estadual, mais uma vez, tentar concurso
para a PM. Leva-mos o Oswaldo junto. Todos fomos aprovados e, no ano
seguinte, 1.966, matriculados no CFO
(Curso de Formação de Oficiais), no Departamento de Instrução, em Belo
Horizonte. Nunca mais vi o Maurício, mas guardo seu sorriso escancarado até
hoje. Numa de minhas poucas vindas a Barba-cena, em 1.967 ou 1.968, fui informado, e fiquei muito chocado com a
notícia: Maurício, e muitos outros estudantes, foram convidados
para voar com a Aeronáutica numa data festiva daquela força. Segundo me chegou ao conhecimento,
durante a manobra conhecida pelos pilotos como
“looping”, o avião em que estava não conseguiu completar a volta de 360
graus e
se espatifou no solo, ceifando a vida e os sonhos daquele menino, enlutando sua
família e seus amigos.
Tenho saudades do Maurício e chego a imaginar
que talvez pudéssemos ser um pouquinho mais felizes se destino não o tivesse
impedido construir sua vida e uma carreira na Aeronáutica. As coisas estariam
melhores para todos. Quem sabe hoje ele fosse o Brigadeiro Maurício Resende, Comandante da “Escola” e, em uma visita informal, pudéssemos, com todo o respeito que sempre
nos mereceu, pedir a ele: - ô Maurício, seus aviões de
treinamento estão fazendo muito barulho quando, sobrevoando,
insistentemente, quase todos os dias, a EPCar
e a área urbana de nossa cidade,
perturbam nosso sossego. E o que é pior, suas
acrobacias, arrojadas e embora seguras, não nos são total garantia
de que, mais cedo ou mais tarde, um deles não venha cair sobre nossas cabeças?
Ao que aquele velho amigo e comandante certamente responderia, depois de mais
um largo e escancarado sorriso: - ô cara, pode deixar que vou resolver isto,
para, em seguida, emendar: - a propósito, sábado à tarde vai ter aquela
“peladinha dos véio”! Com um
churrasquinho depois ...
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