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segunda-feira, 14 de julho de 2014

O Brigadeiro-do-Ar Maurício Resende de Souza


Wilalba F Souza                                                                                                                  22set2.008
                                                                                                                                                     
Lá pelos idos de 1.963/64 tínhamos 16 ou 17 anos e estudávamos no  Colégio Estadual de Barbacena. Meus colegas mais próximos e de sala de aula – a gente morava muito perto uns dos outros - eram   Orlando Freitas,  César  Ladeira,   Milton  Resende de Souza e  Oswaldo Emídio. À exceção deste, todos gostavam de futebol. O Orlando, um  ou dois anos mais velho, se destacava como  jogador de bola. Muito magrela, não tinha físico de atleta,  mesmo semi-profissionalizado pelo Andaraí. Os demais, incluso o abaixo assinado, eram apenas medianos, embora se julgassem melhor que isto. O César, meio deslumbrado, otimista, tinha em seu irmão, Edo Ladeira, aluno do Curso de Formação de Oficiais da Polícia Militar, um meio ídolo e espelho; o  Milton  era  mais sério, adulto, contudo participativo;  o  Oswaldo,  tímido  e  evasivo, mostrava-se um estudante com desempenho acima da média, mas em se tratando de prática desportiva, verdadeira decepção.

Eu, o César e o Milton nos inscrevemos  para  teste  nos  infantís/juvenís do Olimpic, clube de projeção na cidade. Todos se saíram muito bem, mas  somente eu fui inscrito, disputando um campeonato. O César arrumou uma ocupação, na Rádio Correio da Serra, para ler notícias de esportes; o negócio do Milton era estudar e namorar: boa pinta e possuidor de volumoso topete,  fazia sucesso entre as meninas.  Hoje cultiva, se é que posso assim dizer, uma extensa mas simpática calvície. O Orlando continuou o fino da bola  e o Oswaldo, como sempre, evasivo.

Terminado o “ginásio”, em 1.964, todos nós, exceto o Oswaldo, tentamos concurso para a PM – todo mundo tinha parente da Corporação .O Milton, cujo pai era funcionário civil da  Aeronáutica, resolveu fazer as provas da EPCAr, embora tivesse horror a altura. Resultado: não  conseguimos  ser  aprovados e o Milton,  muito organizado, criterioso e acima de tudo mais centrado, foi selecionado, iniciando o que seria uma bela carreira, ainda que não de piloto, mas ligada à área administrativa. Perdemos o colega do Estadual mas fomos adiante,  continuando aquela vidinha de adolescentes e jogando nossas “peladas” no “Campo do Sanatório”, grande área vaga, próximo  à  linha férrea  quase desativada, no bairro do Pontilhão, pertinho da casa dos  pais do Milton, edificada às suas margens. Lá frequentavam os peladeiros e amigos de todas as idades,  dentre eles, mais novo dois ou três anos que nós, o Maurício, irmão do Milton, grande garoto, afável, carinhosamente chamado de “Mamão” pelo Zé Drumond, um coroa peladeiro que achava ter, sua cabeça, tamanho acima da média.

O Maurício era querido de todos. O Milton, mais protocolar, meio metido, puxara pelos traços do pai, “seu” Manoel. O Maurício era mais popular, alegre, muito conhecido nas redondezas. Acho que herdara as feições da mãe, D. Ilda, senhora educadíssima e simpática que, com seu esposo,  criou  seus filhos com  muito amor, mas de forma severa  e  firme. O Maurício era voluntarioso  e jogava mais bola que o Milton. Não  me lembro se ele estudava  no Estadual...acho que sim ! Certa vez me confidenciou que também iria fazer carreira na aeronáutica, seguindo o exemplo do irmão. Gostava  de aviação. Em 1.965 jogamos  muitas “peladas” juntos.

No final do ano lá fomos, os colegas do Estadual, mais uma vez, tentar concurso  para a PM. Leva-mos o Oswaldo junto. Todos fomos aprovados e, no ano seguinte, 1.966,  matriculados no CFO (Curso de Formação de Oficiais), no Departamento de Instrução, em Belo Horizonte. Nunca mais vi o Maurício, mas guardo seu sorriso escancarado até hoje. Numa de minhas poucas vindas a Barba-cena, em 1.967 ou 1.968,  fui informado, e fiquei muito chocado com a notícia: Maurício, e muitos outros estudantes, foram  convidados  para voar com a Aeronáutica numa data festiva daquela  força. Segundo me chegou ao conhecimento, durante  a  manobra conhecida pelos pilotos como “looping”, o avião em que estava não conseguiu completar a volta de 360 graus  e  se  espatifou  no solo, ceifando a vida e  os sonhos daquele menino, enlutando sua família e seus amigos.

Tenho saudades do Maurício e chego a imaginar que talvez pudéssemos ser um pouquinho mais felizes se destino não o tivesse impedido construir sua vida e uma carreira na Aeronáutica. As coisas estariam melhores para todos. Quem sabe hoje ele fosse o Brigadeiro  Maurício Resende, Comandante da  “Escola” e, em uma visita informal,  pudéssemos, com todo o respeito que sempre nos mereceu, pedir a ele: - ô Maurício, seus aviões  de  treinamento estão fazendo muito barulho quando, sobrevoando, insistentemente, quase todos os dias, a EPCar  e a  área urbana de nossa cidade, perturbam nosso sossego. E o que é pior, suas  acrobacias,  arrojadas  e embora seguras, não nos são total garantia de que, mais cedo ou mais tarde, um deles não venha cair sobre nossas cabeças? Ao que aquele velho amigo e comandante certamente responderia, depois de mais um largo e escancarado sorriso: - ô cara, pode deixar que vou resolver isto, para, em seguida, emendar: - a propósito, sábado à tarde vai ter aquela “peladinha dos véio”! Com um  churrasquinho depois ...


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