Wilalba
F. Souza 11/Abr/2020
Meu irmão mais velho, Milane, falecido há alguns
anos, era adolescente, lá pela década de 60 do século passado, e vivia de
azucrinar a vida de todo mundo, bagunçar os irmãos, amigos e os nossos pais,
com suas travessuras, sem limites. E assim ele cresceu, seguindo conceitos
próprios, até fora do que normalmente era-nos convencionado.
Na enchente de 1979, em Governador Valadares, a
linha férrea da Vale do Rio Doce ficou paralisada por muitos dias, com seus
trilhos encobertos pelas águas. E as estradas, de terra, entre a cidade polo e
as que margeavam o rio e a linha, sem a mínima condição de tráfego. Mas Milane
tinha um jipinho, da 2a. Guerra Mundial, que podia ser adaptado aos trilhos: na
parte interna das rodas havia um aro de aço que se apoiava neles, permitindo o
deslocamento. Assim, meu irmão andou transportando pessoas e pequenas cargas,
em ajuda a alguns conhecidos, ali por perto.
Lembrei-me dele, nesses dias dificílimos, de
pandemia, exatamente por causa de uma de suas historinhas hilárias, como a imitação
de um radialista lendo o comercial de um veneno que prometia dizimar pulgas: -
"Seu cachorro tem pulgas, use pulguinicida Totó: mata as pulgas... e
também o cachorro". Tudo muito lúdico, mas que, em nossa inocência, nos
divertia.
Nestes tempos de grave crise sanitária, ombreada
com gravíssima e consequente peste econômica, o que se percebe são as escolhas
dissonantes, dos governantes, nos niveis federal, estadual e municipal. A
maioria resolveu adotar a quarentena horizontal: parou todo mundo. Fábricas,
lojas, restaurantes, hotéis, ambulantes, escolas, ônibus, aviões,
construções... e tudo mais que puderam. Congelaram alhures, mantendo-se apenas
as atividades julgadas, por eles, essenciais. Na realidade, a meu ver, uma
maneira mais facil e cômoda de atacar as doenças. Sim, a Covid19 e a peste
econômica. Enfim, decretou-se: todo mundo pra casa.
Sem entrar em detalhes, porque a mídia está
repleta de especialistas, cada qual com suas teses antagônicas, o povão acabou
por se render ao histerismo promovido pela grande imprensa, representada pelas
poderosas redes de televisão. Pouco me importa se, a esta altura, elas têm este
ou aquele viés ideológico, político ou religioso. O que sei é que estamos
cheios de loucos poderosos a se degladiarem, sobrando sofrimento para os mais
humildes, sem opção, até para uma sobrevivência básica.
Sim, o transporte rodoviário segue seu curso, as
farmácias e supermercados com portas abertas. Mas, até quando? Se é para
promover isolamento social, como nomear pequenos bolsões de apoio, em prejuízo
de outras atividades importantíssimas? Como emparelhar grandes capitais com
pequeninas cidades e povoados? Há um
equívoco, nisto tudo. Os ajuntamentos continuarão nas lotecas, nas filas de
cestas básicas, nos restaurantes populares e onde os pobres buscarem sustento.
E são vistos pelas redes sociais!
Um amigo me relatou que, na pequenina
Jequitinhonha, do vale mineiro de mesmo nome, as feiras estão proibidas.
Representam, elas, importante fonte de sustento de pequenos produtores
regionais, dedicadas a amenizar despesas da população simples que a elas
recorrem. Enquanto isto os poucos supermercados e pequenos armazéns tiveram seu
movimento aumentado. A carestia vem junto, seguida da falta de dinheiro. Tirar
de onde? O emprego, o trabalho, acabaram.
E tem mais, ninguém, naquelas paragens, está ligado na necessidade de se
proteger com álcool em gel. Máscaras, muito menos. Apenas centralizaram e
aumentaram as concentrações.
Bem, e algo que nem é comentado pela imprensa
agravará, de todo o jeito, parece, as consequências dessas medidas radicais: retorno
pra "casa", turbinando e universalizando o micro inimigo. Me disse o
amigo, lá do "interiorzão mineiro: - nossa região está recebendo, de
volta, hordas de conterrâneos que perderam os empregos e suas atividades, nas
grandes capitais. Estão em busca de refúgio junto aos parentes, familiares e
amigos. É, parece que nos receitaram algo parecido com o Pulguinicida Totó!
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