Historinhas são historinhas...
Lá pela década de sessenta o 9º BPM tinha, a chefiar
seu serviço médico, o doutor Júlio Rosas. É comum, na Polícia Militar, dar-se,
aos seus dentistas e médicos, os dois tratamentos. O do posto ou da função. Dr Júlio sempre foi “doutor”, jamais tenente, capitão, ou outro posto.
Homem ameno, era daqueles que atendiam clientes em casa. Simplório , com seu característico bigodinho fino, tinha
um jeito o todo próprio de se comunicar com oficiais e praças.
Certa vez, ainda naquelas priscas eras, o comando
organizou uma excursão do corpo de oficiais da unidade até Ouro Preto, quando o
governo iniciava um trabalho de
divulgação das coisas mineiras. Os museus e as edificações da antiga capital
viravam atração no cenário brasileiro e mesmo internacional. E o doutor Júlio
Rosas foi integrando a comitiva, composta pelo comandante e mais uns vinte
oficiais.
Deixaram a última visita para o Museu da
Inconfidência. Embora pouco afetos às peças antigas, verdadeiros tesouros da
história mineira, que muitos chamavam de coisas velhas, alguns, os mais
integrados à nossa cultura histórica, ficaram maravilhados. O mais brincalhão,
brilhante e saudoso tenente Cançado, chamou o doutor Júlio e, apontando para
uma daquelas camas antigas e suntuosas, vindas dos tempos
do ciclo do ouro e, como que dando uma aula, disse-lhe:- doutor, tá vendo aquela cama? Foi nela que
Tiradentes morreu!Demonstrando profunda admiração, nosso médico apenas
balbuciou: - é mesmo sô? De forma contida, os risos se sucederam no grupo,
quando escutaram do doutor Júlio uma reprimenda: pssssiu!.
Dias depois o mesmo doutor Júlio passou pela sala do
tenente aprovisionador, aliás muito seu amigo, para reclamar que sua cota de
gasolina para visita aos doentes estava pequena, insuficiente mesmo. – Cê sabe
né Alceu ( otenente chefe da seção) esse meu Chevrolet bebe pra danar! -Tudo
bem, doutor, vou conversar com o senhor comandante. - Muito obrigado
Alceu, agradeceu ele, se despedindo, mas emendando umas das suas pérolas: - Ô
nego, quê que cê tem aí que seja bom pra dor de cabeça? A minha está
estourando!
Mas nós mineiros somos assim mesmo. Entramos nos
nossos museus circunspectros, com profundo respeito. Como nas nossas igreja,
podemos dizer assim. Há uns três, ou quatro anos, a União dos Militares, núcleo
de Barbacena, organizou uma excursão a Petrópolis. Lá existe uma feira de
roupas muito procurada e, depois das compras, fomos conhecer a cidade, muito
bonita por sinal. Passamos, no fim daquele dia, pelo Museu Imperial. Realmente
pudemos ver maravilhas de nossa história, com acervos muito bem cuidados. Visitamos,
também, a Capela Imperial, onde estão
os túmulos da Princesa Isabel e de D. Pedro II. No último, e à sua frente,
muito respeitosamente e concentrado, o sargento Fernando Lopes Martins, o
“Mala”, católico fervoroso, companheiro muito conhecido em Barbacena,
ajoelhou, se benzeu e fez suas orações,
até alguém bateu-lhe nos ombros e, sorrindo lhe disse: - ô “Mala”, vamos embora
que o ônibus está esperando. Outra coisa, D. Pedro nunca foi santo, viu?
Qualquer dia contaremos mais...
Nenhum comentário:
Postar um comentário