SAUDADES DO CASSIQUINHA
Wilalba Ferreira de Souza.
Nunca fui muito íntimo do tenente José
Moreira Gomes, o “Cassiquinha”.
Mais pelo fato de ter feito carreira fora de Barbacena,
menos por outros motivos que pudessem in-terferir na relação de respeito
e admiração pessoal que sempre nutri por
ele. Muito sério, curtia a solicitude e bem viver com os jovens e inexperientes,
subordinados ou superiores que aportaram no nosso batalhão. Lembro-me dele
desde adolescente, quando meu pai era oficial subalterno. Sei que ele sempre
despontou como graduado, pois constantemente era requisitado para missões
importantes. Com o seu falecimento, há
alguns anos, experimen-tamos uma grande
perda. Foi-se uma admirável referência de nossa geração.
O
“Cassiquinha” ficou muito
conhecido na cidade por sua condição
de atleta – foi cam-peão em 1.949 pelo Independente – e posteriormente por sua
atuação, na década de 1.960, no comando
do contingente, formado por policiais
militares à disposição da delegacia de polícia, tendo à
frente, geralmente, um oficial. Prestou
relevantes serviços à comunidade, mérito reconhecido até hoje. Quando
tenente cheguei a servir com ele. Homem
de sorriso muito contido, por trás da cara de bravo batia em seu peito um
enorme coração. Cultivou amigos e fiéis admiradores. No fim do ano de
2.004, por ocasião das eleições na
UMMG- ele era o diretor regional
– recusou-se a trocar sua permanência
no cargo - oferecida pela situação, que
era favorita – para apoiar o candidato
opositor, a quem dedicava lealdade e
reconhecimento. Na votação e durante todo o dia, mesmo adoentado, ficou em pé, fazendo “boca de urna”. Embora sua chapa tenha sido
derrotada em todas as urnas pelo Estado,
em Barbacena o “cacique”, e só ele, obteve maioria de votos.
Recebi a missão de substituí-lo na UMMG-regional.
Alguns de seus amigos, associados da UMMG, inconformados com a derrota,
preferiram abandonar suas histórias
na instituição e pediram para
sair. “Saltaram do barco”. O “Cassiquinha” não. Respeitou o processo elei-toral e permanecemos juntos.
Fiquei receoso de que ele se afastasse. Ledo engano. Principal “construtor” da
nossa sede local, honrou, até o fim, seu
nome gravado na placa de bronze da entrada. Enquanto a
saúde permitiu, esteve presente. Falava pouco. Certa vez, para sur-presa minha, disse que, lá pelos idos de
1.949, tinha substituído o à época
sargento Alceu de Souza, meu pai, no destacamento de Antônio Dias,
pequenina cidade cravada entre Belo Horizonte e Monlevade. Fiquei feliz ao ver
como fatos interessantes se cruzam pelas nossas vidas.
Não posso me esquecer do dia em que, numa de suas
visitas, estando ele sentado em uma das
mesas da sala da administração, escutou do sargento Fernando “Mala”, como que
que-rendo se vangloriar, o seguinte comentário, ouvido por todos: - senhor tenente, eu já tra-balhei com o senhor na
delegacia, isto nos tempos do antigo contingente, ao que o “Cassi-quinha”, sem
nenhuma pressa, com a voz baixa e meio rouca emendou, fazendo
todo mun-do gargalhar: - é verdade, mas você não valia m...nenhuma e eu te
recolhi !

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